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Milho pipoca e castanhas para diverticulite

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 30/11/2008

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Milho, pipoca e castanhas para diverticulite

 

Consumo de nozes, milho e pipoca e a incidência de doença diverticular

Nut, Corn, and Popcorn Consumption and the Incidence of Diverticular Disease. JAMA. 2008;300(8):907-914 [Link Livre para o Artigo Original]

 

Fator de impacto da revista (JAMA): 25,547

 

Contexto Clínico

            Pacientes com doença diverticular dos cólons geralmente são aconselhados a evitar o consumo de milho, pipoca, nozes e sementes para reduzir a incidência de complicações. Entretanto existem poucas evidências que embasem esta recomendação. Desta forma, os autores realizaram um estudo de coorte para determinar a associação do consumo de nozes, milho e pipoca e a incidência de diverticulite e sangramento diverticular.

 

O Estudo

            O Estudo de Seguimento dos Profissionais da Saúde (Health Professional Follow-up Study) é uma coorte de homens norte-americanos (profissionais da saúde, incluindo dentistas, veterinários, optometristas, farmacêuticos e outros) seguida prospectivamente de 1986 a 2004 através de questionários auto-aplicados sobre informações médicas (bianualmente) e dietéticas (a cada 4 anos). O estudo incluiu 47.228 homens com idade entre 40 e 75 anos que não apresentavam, no início do seguimento, doença diverticular ou suas complicações, câncer colo-retal, nem doença inflamatória intestinal e que responderam ao questionário dietético. Durante o seguimento, homens que relataram diagnóstico recente de doença diverticular ou diverticulite receberam questionários complementares via correio. Os desfechos primários (diverticulite e sangramento diverticular) foram avaliados com critérios bem definidos de forma cegada em relação à exposição. As informações dietéticas foram produzidas através de um questionário semi-quantitativo devidamente validado nesta coorte. Os participantes indicavam com que frequência utilizavam vários itens alimentares em média no último ano de acordo com 9 categorias (1.nunca ou menos de uma vez /mês; 2.uma a três vezes/mês; 3.uma vez/semana; 4.duas a quatro vezes/semana; 5.cinco a seis vezes/semana; 6.uma vez/dia; 7.duas a três vezes/dia; 8.quatro a cinco vezes/dia; 9.mais de seis vezes/dia).

 

Resultados

            Durante 18 anos de seguimento houve 801 casos de diverticulite e 383 casos de sangramento diverticular. Encontrou-se uma associação inversa entre consumo de  castanhas e milho e o risco de diverticulite. O risco relativo ajustado (análise multivariada) para homens com a maior ingestão de cada item alimentar (pelo menos 2 vezes por semana) comparados a homens com a menor ingestão alimentar (menos de 1 vez por mês) foi 0,80 (IC 95% 0,63 – 1,01; p=0,04) para castanhas e 0,72 (IC 95% 0,56-0,92; p=0,007) para pipoca. Nenhuma associação foi encontrada entre consumo de milho e diverticulite nem entre consumo de milho, castanhas ou pipoca e sangramento diverticular ou doença diverticular não complicada. Como conclusão os autores relatam que em não havendo nenhum risco aumentado de doença diverticular ou suas complicações associadas ao consumo de milho, pipoca e castanhas (havendo até redução do risco com os dois últimos), as recomendações tradicionais de se evitar este tipo de alimento para prevenir complicações da doença diverticular devem ser reconsideradas.

 

Aplicações para a Prática Clínica

            Trata-se de um estudo de coorte bem feito, com um número considerável de pacientes, com uma boa porcentagem de resposta aos questionários complementares (> 84%). Por se tratar de profissionais da saúde espera-se que o preenchimento dos questionários dietéticos tenha sido fidedigno (além do fato do questionário ter sido validado nesta mesma coorte). Os resultados são interessantes e, com base neles, este editor acredita que as recomendações dietéticas tradicionais realizadas para pacientes com doença diverticular dos cólons devam ser modificadas. Na verdade, há uma percepção de que muitas orientações dietéticas específicas para prevenir ou tratar doenças ou condições médicas diversas são realizadas com base em conhecimentos básicos de fisiopatologia e observações pouco controladas e que, desta forma, necessitariam ser corroboradas com resultados de estudos com delineamento mais adequado (ver Dicas de Epidemiologia e Medicina baseada em Evidências), como foi o caso do presente estudo.

 

Dicas de Epidemiologia e Medicina baseada em Evidências

Estudos de coorte

            Já pudemos discutir em outra ocasião a adequação dos desenhos de estudo ao tipo de investigação que se quer desenvolver. Os estudos de coorte2 são o desenho mais robusto (estudos analíticos longitudinais) para se avaliar relação causal entre exposições diversas e determinados desfechos. É o delineamento ideal para avaliar a história natural das doenças, seus fatores de risco e proteção. Assim, no estudo acima, avaliou-se a associação da exposição ingestão de milho, pipoca e castanhas com o desenvolvimento de complicações da doença diverticular dos cólons num desenho do tipo coorte retrospectiva, no qual a exposição e os desfechos já ocorreram no passado. Nas coortes prospectivas inicia-se o estudo num momento em que apenas a exposição já ocorreu (ou está ocorrendo) e os desfechos irão ocorrer durante o acompanhamento que se realizará em direção ao futuro.

 

Bibliografia

1.Strate LL, Liu YL, Syngal S, Aldoori WH, Giovannucci EL Nut, Corn, and Popcorn Consumption and the Incidence of Diverticular Disease. JAMA. 2008;300(8):907-914. [Link Livre para o Artigo Original]

2.Brandão Neto RA, Lotufo PA. estudos de coorte. In “Epidemiologia. Abordagem prática”. Sarvier, 1ª edição, 2005.

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