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Afeto e Doença Coronariana

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 10/01/2009

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Afeto e Doença Coronariana

 

Afeto positivo e negativo e risco de doença coronariana: estudo de coorte Whitehall II

Positive and negative affect and risk of coronary heart disease: Whitehall II prospective cohort study. BMJ 2008;337;a118 [Link para artigo completo].

 

Fator de Impacto da Revista (BMJ): 9,723

 

Contexto Clínico

            Existem inúmeros fatores de risco estabelecidos para doença arterial coronariana como tabagismo, diabetes, hipertensão, dislipidemia. Entretanto, fatores psicológicos, como as emoções, podem também ter algum papel no desenvolvimento da doença coronariana. Há alguns estudos prospectivos mostrando que ansiedade, hostilidade/raiva e depressão estão associados a um risco aumentado de doença coronariana em indivíduos saudáveis2. Entretanto, uma vez que a importância relativa de cada uma destas três emoções negativas sobre o risco coronariano permanece desconhecida, tem-se hipotetizado que elas façam parte de um único fator de risco, denominado afeto negativo. Por outro lado, o efeito de emoções positivas sobre o risco coronariano também é desconhecido. Sendo assim, os autores realizaram um estudo com o objetivo de avaliar as associações entre afeto negativo e positivo e a incidência de eventos coronarianos subseqüentes independentemente de fatores de risco estabelecidos.

 

O Estudo

            Estudo de coorte prospectivo (Whitehall II) realizado em 20 repartições públicas em Londres, totalizando 10.308 servidores públicos (homens=6.895 e mulheres=3.413), com seguimento médio de 12,5 anos. Houve uma resposta de 73% ao convite para participar do estudo, feito por carta a todos os servidores das 20 repartições mencionadas. Os participantes tinham entre 35 – 55 anos ao início do estudo em 1985. Os desfechos principais avaliados foram doença coronariana fatal, infarto agudo do miocárdio incidente não fatal clinicamente verificado e angina definitiva. O afeto foi avaliado pela escala de balanço de afeto de Bradburn. Esta escala consiste de 10 itens, 5 dos quais avaliam o afeto negativo e os outros 5 avaliam o afeto positivo. Os afetos foram avaliados em duas fases, na fase 1 (1985-1988) e na fase 2 (1989-1990). A fase 1 incluiu a avaliação de base, com exame clínico e um questionário auto-respondido. A incidência de eventos coronarianos foi avaliada da fase 2 (1989-1990) até a fase 7 (2003-2004).

 

Resultados

            Na análise de regressão de Cox ajustada por idade, sexo, etnia e posição sócio-econômica, o afeto positivo (RR:1,01 IC95% 0,82-1,24) e o balanço entre afeto positivo e afeto negativo – o escore de balanço de afeto (RR:0,89 IC95% 0,73-1,09) não se associaram com doença coronariana. Ajuste adicional para fatores de risco relacionados a comportamentos (tabagismo, consumo de álcool, consumo de frutas e verduras, atividade física, índice de massa corpórea), para fatores de risco biológicos (hipertensão arterial, hipercolesterolemia, diabetes) e estresse psicológico no trabalho não alteraram este resultado. Entretanto, os participantes no terço mais alto da escala de afeto negativo apresentaram um aumento na incidência de eventos coronarianos (RR:1,32 IC95% 1,09-1,60). Esta associação não se modificou após ajuste para múltiplos fatores de confusão. Os autores concluem que o afeto positivo ou o balanço entre afeto positivo e negativo não foram preditores de eventos coronarianos futuros, mas que houve uma associação fraca entre afeto negativo e doença coronariana que precisa ser mais bem estudada.

 

Aplicações para a Prática Clínica

            Para além da discussão filosófica sobre a separação cartesiana entre corpo e mente, este estudo nos traz informações importantes sobre as relações entre estado emocional (particularmente o afeto negativo) e o aparecimento de “doenças” ditas orgânicas (no presente estudo, eventos coronarianos). Há inúmeras evidências clínicas e fisiopatológicas que corroboram com estas relações. O fato é que, cada vez mais, tem-se mostrado que o paciente não se reduz a sua doença, a sua coronária obstruída que deve ser simplesmente reperfundida para que a homeostase se restabeleça. Há que se levar, necessariamente, em conta o estado emocional do paciente, bem como suas relações sociais, sua posição sócio-econômica, seu trabalho, sua satisfação pessoal, suas inseguranças, seus desejos e assim por diante, se se quiser resgatar uma medicina mais humanizada, e mais eficaz. O velho jargão da visão holística do paciente, das relações biopsicossociais, de ver o paciente como um todo e não somente a doença, que muitas vezes é alvo de gozação entre os estudantes da graduação, residentes e mesmo médicos mais experientes, é na verdade, uma questão das mais importantes para a medicina ocidental contemporânea, particularmente para as especialidades médicas hospitalares. Por isso, este editor acredita que um sistema de saúde eficaz e humanizado deve ser construído a partir de um forte alicerce de atenção primária de qualidade, tendo os hospitais e especialidades/subespecialidades um papel complementar ao trabalho do médico generalista, particularmente do médico de família.

            Dito isto, vale comentar alguns pontos referentes ao estudo em si. Um deles é o ponto levantado por Macleod e Smith3, sobre possíveis fatores de confusão na relação causal entre afeto negativo e doença coronariana. Estes autores relatam que mesmo com o controle para variáveis como posição sócio-econômica e tipo de trabalho, fatores de confusão residuais relacionados à posição social podem ter influenciado o resultado. Outra questão levantada por estes autores é a possibilidade de que a afetividade negativa pudesse estar associada a um risco cardiovascular de base mais elevado através de fatores sociais não medidos. Os referidos autores ainda mencionam que as teorias psicológicas sobre as iniqüidades em saúde podem ser atrativas para muitos, pois elas mudam o foco da desigualdade em si para como as pessoas se sentem em relação à desigualdade. De qualquer maneira, é importante que não esqueçamos que tanto fatores sócio-econômicos como psicossociais são muito importantes na gênese das doenças.

 

Bibliografia

1.    Hermann Nabi H, Kivimaki M, De Vogli R, Marmot MG, Singh-Manoux A. Positive and negative affect and risk of coronary heart disease: Whitehall II prospective cohort study. BMJ 2008;337;a118

2.    Kubzansky LD, Kawachi I. Going to the heart of the matter: do negative emotions cause coronary heart disease? J Psychosom Res 2000;48:323-37.

3.    Macleod J, Smith GD. Does negative affectivity cause heart disease? BMJ, 7 Jul 2008 [Link para Comentário].

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