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Pressão alta protege contra cefaléia

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 22/03/2009

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Pressão alta protege contra cefaléia

 

Pressão de pulso elevada protege contra cefaléia: dados prospectivos e transversais (estudo HUNT).

High pulse pressure protects against headache: prospective and cross-sectional data (HUNT study). Neurology.  2008; 70(16):1329-36 [Link para Abstract].

 

Fator de impacto da revista (neurology): 6,014

 

Contexto Clínico

            Há uma idéia corrente, quase mitológica, que liga pressão alta a cefaléia. Esta noção está presente não somente entre pessoas leigas, mas também entre os médicos. Entretanto não há evidências que demonstrem que pressão alta cause cefaléia. Além disso, muitos anti-hipertensivos (particularmente os beta-bloqueadores) são usados como profiláticos para enxaqueca, o que pode ter tido alguma influência na persistência da noção de que pressão alta causa cefaléia. Na década de 90 estudos observacionais mostrando que não há associação entre cefaléia e hipertensão arterial foram publicados2,3, e a Classificação Internacional de Cefaléia II (International Classification of Headache Disorders II) afirma que hipertensão leve a moderada não é causa de cefaléia. O objetivo do presente estudo foi avaliar a associação entre pressão alta e a prevalência de cefaléias, e o efeito das medicações anti-hipertensivas sobre esta associação, usando tanto dados seccionais (transversais) como longitudinais (prospectivos) de uma grande população.

 

O Estudo

            Os autores utilizaram os dados de dois grandes estudos epidemiológicos noruegueses, o Nord-Trøndelag Health Survey 1984–1986 (HUNT-1) e o Nord-Trøndelag Health Survey 1995–97 (HUNT-2) para avaliar a associação entre pressão arterial (sistólica, diastólica, média e de pulso) e cefaléias enxaquecosas e não enxaquecosas. Ambos são estudos de base populacional. O primeiro (HUNT-1), realizado entre 1984 e 86, incluiu 77.310 participantes com mais de 20 anos, e o segundo (HUNT-2), realizado entre 1995 e 97, incluiu 51.353 participantes. Todos os participantes realizaram uma avaliação médica, responderam um questionário e tiveram suas pressões arteriais medidas. A análise prospectiva foi realizada com 22.663 pacientes que responderam a um questionário específico de cefaléias, e a análise transversal incluiu quase 50.000 participantes.

 

Resultados

            O aumento da pressão arterial sistólica associou-se com menor frequência de cefaléias não enxaquecosas e enxaqueca. Na análise prospectiva houve uma relação linear (p<0,01) entre aumento da pressão sistólica e redução da incidência de cefaléias não enxaquecosas em ambos os sexos e redução da incidência de enxaqueca em mulheres que não utilizavam anti-hipertensivos. Esta relação não foi observada para homens com enxaqueca e mulheres com enxaqueca usando anti-hipertensivos. A análise transversal mostrou uma relação linear entre aumento da pressão sistólica e redução na freqüência de cefaléias não enxaquecosas em ambos os sexos não utilizando anti-hipertensivos.

O achado mais robusto, entretanto, foi em relação à pressão de pulso. O aumento da pressão de pulso associou-se com menor freqüência de enxaqueca e cefaléias não associadas à enxaqueca em ambos os sexos, tanto na análise prospectiva quanto na transversal. Nos participantes usando anti-hipertensivos, este achado foi menos evidente.

 

Aplicações para a Prática Clínica

Os achados deste estudo são consistente com evidências de outros estudos observacionais, além de serem achados robustos em virtude da amostra do estudo ser grande e de base populacional e dos principais achados terem sido reproduzidos tanto na análise transversal como na análise prospectiva.

Os autores comentam que tanto a pressão sistólica como a pressão de pulso (ou pressão diferencial – diferença entre a pressão arterial sistólica e a pressão arterial diastólica) estão relacionadas com a rigidez arterial, e podem reduzir a freqüência de cefaléias através da modulação do arco de barorreflexo, gerando hipoalgesia. Este fenômeno é chamado de hipoalgesia associada à hipertensão. O estímulo do barorreflexo em resposta ao aumento da pressão arterial parece inibir a transmissão da dor tanto no nível espinhal como supra-espinhal, possivelmente em virtude de uma interação entre os centros de modulação nociceptiva e os centros de reflexos cardiovasculares no tronco cerebral.

Independente da explicação fisiológica para o fenômeno, o fato é que não só a pressão alta não é causa de cefaléia como parece que é, até mesmo, protetora. Assim, este editor clama pela disseminação destes achados tanto nos meios médicos como na mídia leiga, uma vez que a associação espúria entre cefaléia e pressão alta é muitas vezes causa de iatrogenias e medicalização social.

 

Bibliografia

1. Tronvik E, Stovner LJ, Hagen K, Holmen J, Zwart JA. High pulse pressure protects against headache: prospective and cross-sectional data (HUNT study). Neurology.  2008; 70(16):1329-36.

2. Buring JE, Hebert P, Romero J, et al. Migraine and subsequent risk of stroke in the Physicians’ Health Study. Arch Neurol 1995;52:129–134.

3. Rasmussen BK, Olesen J. Symptomatic and nonsymptomatic headaches in a general population. Neurology 1992;42:1225–1231.

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