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Depressão pós-parto

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 30/03/2009

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Depressão pós-parto e níveis de CRH

 

Risco de sintomas depressivos pós-parto com níveis elevados de hormônio de liberação de corticotropina na gravidez

Risk of Postpartum Depressive Symptoms With Elevated Corticotropin-Releasing Hormone in Human Pregnancy. Arch Gen Psychiatry 2009;66(2):162-169 [Link para Abstract].

 

Fator de impacto da revista (archives of general psychiatry): 15,976

 

Contexto Clínico

            A depressão pós-parto (DPP) é uma condição clínica comum que apresenta sérias implicações para a mãe e para seu recém-nascido.  Há indícios de uma possível ligação entre o hormônio de liberação de corticotropina (CRH) placentário e a incidência de depressão pós-parto, mas faltam evidências empíricas. Assim, os autores realizaram um estudo com o objetivo de avaliar se aumentos progressivos do CRH placentário durante a gestação estão associados com sintomas de depressão pós-parto.

 

O Estudo

            Estudo longitudinal de coorte com mulheres grávidas. As participantes foram recrutadas de dois centros médicos na região sul da Califórnia. Foram incluídas 100 mulheres grávidas adultas com gestações únicas. Amostras de sangue para dosagem de CRH placentário, cortisol e hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) foram obtidas às 15, 19, 25, 31 e 37 semanas de gestação. Os sintomas depressivos foram avaliados com questionário padronizado durante as quatro últimas visitas de pré-natal e no pós-parto. O desfecho primário (sintomas de DPP) foi avaliado numa média de 8,7 semanas após o parto com a Escala de Depressão Pós-Natal de Edinburgh (Edinburgh Postnatal Depression Scale).

 

Resultados

            Sintomas de DPP foram observados em 16 mulheres. Com 25 semanas de idade gestacional, o CRH placentário foi um potente preditor de sintomas de DPP (R2=0,21; ß=0,46; p<0,001), um efeito que permaneceu significativo mesmo após controle para sintomas depressivos pré-natais. Nenhuma associação foi observada com o cortisol ou com o ACTH.  A análise da curva ROC revelou que o CRH placentário na 25ª semana de gestação é uma possível ferramenta diagnóstica (área sob a curva = 0,78; p=0,001). A sensibilidade (0,75) e a especificidade (0,74) no ponto de corte ideal (CRHp = 56,86 pg/ml) foram moderadas. A análise das curvas dos níveis de CRH indica que as trajetórias do CRH placentário em mulheres com sintomas de DPP estão significativamente aceleradas entre a 23ª e a 26ª semana de gestação. Os autores concluem que num período crítico durante o meio da gestação, o CRH placentário é um teste diagnóstico precoce sensível e específico de sintomas de DPP. Eles comentam que, se replicados, estes resultados terão implicação na identificação e no tratamento de gestantes sob risco de depressão pós-parto.

 

Aplicações para a Prática Clínica

            Há uma linha de pesquisa que implica o CRH hipotalâmico na gênese da depressão em geral2,3. Os mecanismos pelos quais o CRH leva à depressão não são bem conhecidos, não se sabendo nem mesmo se o CRH tem, de fato, implicações causais, ou se é apenas um marcador neuroendócrino de depressão. Partindo-se desta hipótese e de outras evidências de que o CRH placentário poderia ter alguma relação com sintomas de depressão pós-parto, os autores encontraram uma associação positiva entre os níveis de CRH placentário na 25ª semana de gestação e o desenvolvimento subseqüente de sintomas de DPP. É um achado plausível, à luz dos resultados de outros estudos, mas que deve ser reproduzido, particularmente em estudos nos quais o diagnóstico de DPP seja realizado clinicamente, ao invés de ser feito através de um questionário auto-respondido como no presente estudo. Além disso, como os próprios autores comentam, houve controle para sintomas depressivos durante a gestação índice, mas não houve controle para história de depressão em algum momento da vida, o que pode ter produzido uma associação espúria, embora esta hipótese seja pouco provável.

            Por fim, embora um marcador precoce de risco de DPP seja algo extremamente desejável, devemos tomar cuidado para não cair na falácia do reducionismo biológico (no nosso caso, acreditar que a depressão pós-parto seja causada, pura e simplesmente, por elevações excessivas de CRH placentário). Além do risco de transformar um sintoma, ou sintomas psíquicos complexos, num mero efeito da ação excessiva de um hormônio, corre-se o risco de cair, também aqui, na medicalização social. Ao invés de tentar compreender o que está ocorrendo com uma gestante durante sua gestação, solicitaríamos uma dosagem de CRH na 25ª semana de gestação como parte do pré-natal e, se elevado, a encaminhamos a gestante para o psiquiatra.

 

Bibliografia

1. Yim IS, Glynn LM, Schetter CD, Hobel CJ, Chicz-DeMet A, Sandman CA. Risk of Postpartum Depressive Symptoms With Elevated Corticotropin-Releasing Hormone in Human Pregnancy. Arch Gen Psychiatry 2009;66(2):162-169.

2. Nemeroff CB, Vale WW. The neurobiology of depression: inroads to treatment and new drug discovery. J Clin Psychiatry. 2005;66(suppl 7):5-13.

3. Raadsheer FC, Hoogendijk WJ, Stam FC, Tilders FJ, Swaab DF. Increased numbers of corticotropin-releasing hormone expressing neurons in the hypothalamic paraventricular nucleus of depressed patients. Neuroendocrinology. 1994; 60(4):436-444.

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