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Uso de antipsicóticos e aumento de mortalidade

Autor:

Euclides F. de A. Cavalcanti

Médico Colaborador da Disciplina de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Última revisão: 04/05/2009

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Uso de antipsicóticos e aumento de mortalidade

 

Estudo de retirada de antipsicóticos na demência (DART-AD): Seguimento de longo prazo em um ensaio clínico randomizado e controlado com placebo.

The dementia antipsychotic withdrawal Trial (DART-AD): Long-term follow-up of a randomised placebo-controlled trial. Lancet Neurol 2009; 8: 151–57 [Link para o abstract]

 

Fator de impacto da revista (Lancet Neurology): 10,200

 

Contexto Clínico

            Os antipsicóticos são usados frequentemente para tratar os sintomas neuropsiquiátricos da doença de Alzheimer. Embora tenham mostrado benefícios no tratamento de sintomas de agressividade relacionados à doença em ensaios clínicos de curta duração, os benefícios demonstrados foram modestos2, 3 e os poucos estudos com duração de seis meses ou mais demonstraram pouco4 ou nenhum benefício5,6.

            Além disso, os antipsicóticos são relacionados a diversos efeitos colaterais. Dentre eles, podemos citar:

 

         Sintomas de parkinsonistmo – mais comuns com os antipsicóticos típicos (antipsicóticos mais antigos – p. ex., haloperidol)

         Síndrome metabólica – relacionada principalmente aos antipsicóticos atípicos (antipsicóticos mais modernos – p. ex., clozapina, olanzapina, quetiapina e risperidona)

         Aumento no risco de AVC – principalmente com os antipsicóticos atípicos7

 

            Outra preocupação é que diversos estudos recentes têm demonstrado um aumento significativo na mortalidade com o uso destas medicações, principalmente pelo risco de morte súbita8,9, como ficou demonstrado em um estudo comentado aqui recentemente (ver: Antipsicóticos e aumento no risco de morte súbita)

            O presente estudo nos traz mais informações a respeito do risco destas medicações.

 

O Estudo

            Um total de 165 pacientes da Inglaterra com as seguintes características foram selecionados para o estudo: 1) portadores de doença de Alzheimer; 2) moradores em casa de repouso; e 3) que faziam uso de antipsicóticos. Os participantes foram randomizados em 2 grupos. Em um grupo os participantes passaram a receber placebo ao invés do antipsicótico utilizado previamente e no outro grupo continuaram com o uso dos antipsicóticos. O ensaio clínico randomizado terminou após 12 meses e o desfecho primário estudado foi a mortalidade no final do estudo. Posteriormente foi também analisada a mortalidade no longo prazo entre os grupos, tendo sido feito um questionário telefônico 24 meses após o último paciente ter entrado no estudo (média de acompanhamento de 24 a 54 meses).

            Dos 165 pacientes selecionados, 19 pacientes randomizados para tratamento com antipsicóticos e 18 pacientes randomizados para tratamento com placebo não iniciaram o tratamento para o qual foram alocados, principalmente por recusa da família ou do médico atendente. Foram realizadas duas análises, uma por intenção de tratamento - IT (incluindo todos os pacientes randomizados) e outra por intenção de tratamento modificada - ITM (incluindo apenas os pacientes que de fato iniciaram o estudo). Para saber mais sobre a análise pelo princípio da intenção de tratar ver: diclofenaco na lombalgia.

 

Resultados

            Houve uma diminuição significativa na sobrevida nos pacientes alocados para continuar tratamento com os antipsicóticos comparado com os que passaram a receber placebo, diferença que se tornou mais acentuada com períodos maiores de observação, como podemos observar na tabela 1. Não houve diferença significativa nas análises por intenção de tratamento ou intenção de tratamento modificada.

 

Tabela 1: diferença na sobrevida nos pacientes tratados com placebo ou que permaneceram usando os antipsicóticos

 

Sobrevida no grupo tratado com placebo

Sobrevida no grupo tratado com antipsicóticos

Análise em 12 meses

76,6%

70,3%

Análise em 24 meses

71,0%

46,0%

Análise em 36 meses

59,0%

30,0%

Análise em 42 meses

53,0%

26,0%

 

Aplicações para a Prática Clínica

            Transcrevemos aqui a nota do editor do periódico sobre o estudo:

 

“Nota do editor: Os antipsicóticos não melhoram os desfechos cognitivos ou neuropsiquiátricos da maioria dos pacientes com demência, e sérias preocupações têm surgido sobre os efeitos colaterais nos idosos. O aumento na mortalidade e no risco de eventos cerebrovasculares já foi reportado em estudos anteriores de curta duração (usualmente 12 semanas). Neste artigo, os investigadores do DART-AD relataram as taxas de mortalidade no longo prazo em pacientes com doença de Alzheimer tratados com neurolépticos por mais de 12 meses, trazendo dados adicionais contra o uso de antipsicóticos nesta população vulnerável.

 

Ler também o estudo já comentado neste site, que contém outras “aplicações para a prática clínica” sobre o uso de antipsicóticos em idosos - Antipsicóticos e aumento no risco de morte súbita.

 

Bibliografia

1.     The dementia antipsychotica withdrawal Trial (DART-AD): Long-term follow-up of a randomised placebo-controlled trial Lancet Neurol 2009; 8: 151–57 [Link para o abstract]

2.     Ballard C, Waite J. The eff ectiveness of atypical antipsychotics for the treatment of aggression and psychosis in Alzheimer’s disease. Cochrane Database Syst Rev 2006; Jan 25: CD003476. [Link para o abstract]

3.     Schneider LS, Dagerman K, Insel PS. Efficacy and adverse effects of atypical antipsychotics for dementia: meta-analysis of randomized, placebo-controlled trials. Am J Geriatr Psychiatry 2006; 14: 191–210. [Link para o abstract]

4.     Schneider LS, Tariot PN, Dagerman KS, et al. CATIE-AD study group. Eff ectiveness of atypical antipsychotic drugs in patients with Alzheimer’s disease. N Engl J Med 2006; 355: 1525–38. [Link livre para o artigo original]

5.     Ballard C, Margallo-Lana M, Juszczak E, et al. Quetiapine and rivastigmine and cognitive decline in Alzheimer’s disease: randomised double blind placebo controlled trial. BMJ 2005; 330: 874. [Link para o abstract]

6.     Ballard C, Margallo Lana M, Theodoulou M, et al. A randomised, blinded, placebo-controlled trial in dementia patients continuing to take or discontinued from treatment with neuroleptics (the DARTAD trial). PLoS Med 2008; 5: e76. [Link livre para o artigo original]

7.     Sink KM; Holden KF et al. Pharmacological treatment of neuropsychiatric symptoms of dementia: a review of the evidence. JAMA 2005 Feb 2;293(5):596-608. [Link para o abstract]

8.     Schneider LS; Dagerman KS. Risk of death with atypical antipsychotic drug treatment for dementia: meta-analysis of randomized placebo-controlled trials. JAMA 2005 Oct 19;294(15):1934-43. [Link para o artigo original]

9.     Atypical antpsychotic drugs and the risk of sudden cardiac death. N Engl J Med 2009;360:225-35. [Link Livre para o Artigo Original]

 

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