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Consumo de carne e mortalidade

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 11/05/2009

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Consumo de carne e mortalidade

 

Ingestão de carne e mortalidade. Um estudo prospectivo de mais de meio milhão de pessoas.

Meat Intake and Mortality. A Prospective Study of Over Half a Million People. Arch Intern Med. 2009;169(6):562-571 [Link para Abstract].

 

Fator de impacto da revista (Arch intern Med): 8,391

 

Contexto Clínico

            O impacto de se consumir maior quantidade de carnes sobre a mortalidade por doenças crônicas é ambíguo. Estudos com vegetarianos e grupos religiosos podem conter viés uma vez que os hábitos destes grupos diferem em vários aspectos além do consumo de carne, de grupos não vegetarianos. Consumo elevado de carne vermelha ou processada pode aumentar a mortalidade.  O objetivo deste estudo foi determinar as relações entre o consumo de carne vermelha, branca e processada e a mortalidade geral e a mortalidade por câncer e doenças cardiovasculares.

 

O Estudo

            Trata-se de uma coorte prospectiva com aproximadamente meio milhão de homens e mulheres incluídos no Estudo de Dieta e Saúde do National Institutes of Health (NIH) dos EUA. Os participantes tinham de 50 a 71 anos de idade na entrada do estudo. O NIH enviou questionários sobre características demográficas e de hábitos de vida incluindo dieta, para 3,5 milhões de pessoas em seis estados e duas regiões metropolitanas dos EUA. O consumo de carne foi estimado através de um questionário de frequência alimentar aplicado no início do estudo. O modelo de regressão de Cox estimou os riscos relativos e seus respectivos intervalos de confiança de 95% para cada quintil de consumo de carne. As covariáveis incluídas no modelo de regressão foram idade, educação, estado civil, história familiar de câncer (apenas na avaliação de mortalidade por câncer), raça, índice de massa corpórea, história de tabagismo, atividade física, ingestão calórica, ingestão alcoólica, uso de suplementos vitamínicos, consumo de frutas e verduras, e uso de terapia de reposição hormonal em mulheres. Os principais desfechos avaliados foram mortalidade geral e mortes por câncer, doença cardiovascular, causas externas e morte súbita. O seguimento foi de 10 anos.

 

Resultados

            Durante o seguimento houve 47.976 mortes entre os homens e 23.276 mortes entre as mulheres. Homens e mulheres no quintil mais alto de consumo de carne vermelha comparados com os no quintil mais baixo apresentaram risco mais elevado de mortalidade geral (RR:1,31 IC95% 1,27 – 1,35 para homens e RR:1,36 IC95% 1,30 – 1,43 para mulheres). O mesmo se observou em relação ao consumo de carne processada (RR:1,16 IC95% 1,12 – 1,20 para homens e RR:1,25 IC95% 1,20 – 1,31).  Em relação à mortalidade por causas específicas, homens e mulheres apresentaram um risco aumentado de morte por câncer com consumo alto de carne vermelha (RR:1,22 IC95% 1,16 – 1,29 e RR:1,20 IC95% 1,12 – 1,30 respectivamente) e com consumo elevado de carne processada (RR:1,12 IC9% 1,06 – 1,19 e RR:1,11 IC95% 1,04 – 1,19 respectivamente). Em relação à mortalidade por doença cardiovascular, o risco também foi maior para os pacientes com maior (quintil mais alto) consumo de carne vermelha (RR:1,27 IC95% 1,20 – 1,35 e RR:1,50 IC95% 1,37 – 1,65 respectivamente para homens e mulheres) e maior consumo de carne processada (RR:1,09 IC95% 1,03 – 1,15 e RR:1,38 IC95% 1,26 – 1,51 respectivamente). Em relação ao consumo de carne branca, houve uma associação inversa entre consumo e risco de mortalidade geral e por causas específicas. Os autores concluem que o consumo de carnes vermelha e processada está associado a aumentos modestos na mortalidade geral, mortalidade por câncer e mortalidade por doença cardiovascular.

 

Aplicações para a Prática Clínica

            A principal força deste estudo é seu grande tamanho, com um igualmente grande número de desfechos (mais de 70.000 mortes). Isto possibilitou que os autores investigassem as relações causais deste grande número de mortes no contexto de um único estudo, com um protocolo uniforme. Como em todo estudo observacional, é possível que algum fator de confusão residual esteja presente, particularmente em relação ao tabagismo, como apontam os próprios autores, mas esta possibilidade foi minimizada uma vez que foi também realizada uma análise estratificada por tabagismo. Erros na medida da exposição são inerentes a qualquer estudo sobre dieta, uma vez que a estimativa é baseada na lembrança do consumo diário durante um dado período. Outra observação lembrada pelos autores refere-se à questão da generalização. Os participantes desta coorte eram predominantemente brancos não hispânicos, com nível educacional mais alto, com consumo mais baixo de gorduras e mais alto de frutas e verduras e com um nível mais baixo de tabagismo. Assim, estes resultados podem não ser generalizáveis para outras populações. De qualquer forma estes resultados estão de acordo com várias evidências de estudos prévios menores. Estes dados reforçam a necessidade de reduzir o consumo de carnes vermelhas e, principalmente de carnes processadas. Estas medidas são necessárias e salutares não só do ponto de vista da saúde individual e coletiva, mas também da saúde do planeta como um todo2. O consumo de carne vem aumentando de forma expressiva, particularmente nos países em desenvolvimento, e sabemos que a criação de gado está associada a desmatamentos, e o processamento de alimentos associa-se a grande consumo de energia. Assim, este estudo, embora não tenha mostrado nenhuma associação nova, tem uma importância ímpar, não só pelo tamanho e consistência, como também pelas implicações de seus resultados.

 

Bibliografia

1. Sinha R, Cross AJ, Graubard BI, Leitzmann MF,  Schatzkin A. Meat Intake and Mortality. A Prospective Study of Over Half a Million People. Arch Intern Med. 2009;169(6):562-571.

2. Popkin BM. Reducing Meat Consumption Has Multiple Benefits for the World’s Health. Arch Inter Med 2009; 169(6):543-45.

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