FECHAR
Feed

Já é assinante?

Entrar
Índice

Eventos adversos em um país desenvolvido

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado pela Disciplina de Emergências Clínicas Faculdade de Medicina da USP; Médico e Especialista em Clínica Médica pelo HC-FMUSP; Diretor Científico do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP); Membro da Academia Brasileira de Medicina Hospitalar (ABMH); Assessor da Diretoria Médica do Hospital Samaritano de São Paulo.

Última revisão: 08/08/2009

Comentários de assinantes: 0

Eventos Adversos em um País Desenvolvido

 

Eventos Adversos e Mortes Potencialmente Evitáveis em Hospitais Holandeses: resultados de um estudo de revisão de prontuários retrospectivo.

Zegers M, Bruijne MC, Wagner C, ET AL. Adverse events and potentially preventable deaths in Dutch hospitals: results of a retrospective patient record review study. Qual. Saf. Health Care 2009;18;297-302. [Link para o Abstract].

 

Fator de Impacto (Qual. Saf Health Care): 2,554

 

Contexto Clínico

            Os dados da literatura já publicada quanto à incidência de eventos adversos (para maiores informações sobre o termo “eventos adversos”, dirigir-se ao capítulo introdutório: Introdução - Primum Non Nocere) em diversos países mostra que de 2,9% a 16,6% dos pacientes internados sofrem um ou mais eventos adversos. Em 4,5% a 20,8% desses eventos o paciente vai a óbito, e estima-se que 50% dos eventos são evitáveis. Esse estudo buscou criar uma referência desses dados na Holanda, de forma a nortear possíveis ações de melhoria. Foi então conduzido um estudo retrospectivo de prontuários de pacientes para determinar a incidência, tipo, natureza, impacto e possibilidade de prevenção de eventos adversos entre pacientes hospitalizados na Holanda.

           

O Estudo

Esse é um estudo retrospectivo feito em hospitais holandeses (6 de ensino, 4 terciários e 11 hospitais gerais). Foram usados os prontuários de internações aleatoriamente selecionados de pacientes com alta ou óbito em 2004. Os prontuários foram analisados em três fases, com um processo de revisão por enfermeiros e médicos entre agosto de 2005 e Outubro de 2006.   

O método utilizado neste estudo foi baseado em um protocolo originalmente desenvolvido pela Harvard Medical Practice, que é o estudo que verificou a incidência de eventos adversos em
hospitais estaduais de Nova York em 1984, baseado na análise de informações de prontuários. Este protocolo, com modificações, foi utilizado em estudos subseqüentes na Austrália,
Nova Zelândia, Reino Unido, Dinamarca, França e Canadá.

Os objetivos deste estudo foram: (1) determinar a incidência, a natureza, o tipo, o impacto e os custos de eventos adversos entre pacientes hospitalizados e pacientes falecidos; (2) analisar as causas e prevenção destes eventos adversos; (3) comparar a taxa de eventos adversos e mortes evitáveis entre hospitais e entre os principais tipos de especialidades, e (4) comparar a incidência holandesa de eventos adversos com as incidências internacionais.

Uma amostra de 8.400 admissões foi selecionada: 4200 admissões de pacientes hospitalizados e 4.200 internações de pacientes que faleceram durante a internação em 2004. Admissões com um diagnóstico mais relacionado com a obstetrícia ou psiquiatria e internações dos menores de um ano de idade foram excluídas.

           

Resultados

            A incidência de eventos adversos foi de 5,7% (IC95% 5,1 – 6,4) e a de eventos adversos evitáveis foi de 2,3% (IC95% 1,9 – 2,7), mas quando se analisou apenas os pacientes que foram a óbito a incidência de eventos adversos foi de 10,7% (IC95% 9,8 – 11,7) e a de eventos evitáveis de 5,2% (IC95% 4,5 – 5,9). Mais interessante é que a incidência de eventos adversos que resultou na morte do paciente foi de 4,1%. Isso equivale a dizer que no ano em que foi feito esse estudo holandês (2004), ocorreram 42.329 óbitos na Holanda, dos quais 1735 foram causados por eventos adversos potencialmente evitáveis.

            Alguns dados são interessantes: os eventos adversos tiveram uma incidência de 6,8% (IC95% 5,7 – 7,8) em departamentos cirúrgicos e de 4,8% (IC95% 4,1 – 5,7) em departamentos clínicos. A proporção de eventos adversos, de eventos evitáveis e de dano aumentou com a idade.

 

Tabela 1: Eventos adversos por tipo de evento e possibilidade de serem evitados (total de 744 eventos)

TIPO DE SITUAÇÃO CLÍNICA

%

Eventos Evitáveis

Cirurgia (eventos relacionados a uma cirurgia ou até o 30º PO)

54,2%

34,4%

Drogas e Fluídos (efeitos colaterais, RAM´s, anafilaxia)

15,3%

31,2%

Procedimento Médico (CVC, endoscopia, marcapasso, etc)

17,0%

27,9%

Diagnóstico (inapropriado, atrasado, etc)

6,3%

84,4%

Processos de outros profissionais de saúde

3,7%

78,9%

Alta (alta inadequada, etc)

1,4%

100%

Outros (quedas, etc)

2,1%

81,8%

TOTAL

100%

39,6%

           

Tabela 2: Danos permanentes ou morte por tipo de avento Adverso (total de 744 eventos)

TIPO DE SITUAÇÃO CLÍNICA

Dano Permanente

Morte

Cirurgia (eventos relacionados a uma cirurgia ou até o 30º PO)

4,0%

5,1%

Drogas e Fluídos (efeitos colaterais, RAM´s, anafilaxia)

2,6%

10,5%

Procedimento Médico (CVC, endoscopia, marcapasso, etc)

9,3%

7,0%

Diagnóstico (inapropriado, atrasado, etc)

12,9%

22,6%

Processos de outros profissionais de saúde

0

15,8%

Alta (alta inadequada, etc)

0

0

Outros (quedas, etc)

0

9,1%

TOTAL

5,0%

7,8%

 

Comentários   

            Alguns aspectos limitantes devem ser considerados neste estudo: embora os resultados mostrem que o instrumento é sensível para a identificação de eventos adversos, alguns aspectos podem ter conduzido a uma sub ou superestimação da taxa de eventos adversos, pois a identificação de eventos adversos baseou-se exclusivamente nos dados de prontuários hospitalares. Apenas eventos documentados em registros hospitalares foram incluídos na análise e a disponibilidade de informação nos registros pode ser insuficiente para determinar a presença de eventos.

            Outra potencial fonte de erro é a falta de registros. No estudo clássico da Harvard, a taxa de eventos adversos com falta de registros foi medida por meio de um estudo de acompanhamento. Nesse estudo, prontuários médicos ou de enfermagem sem registro foram excluídos e um estudo de acompanhamento para avaliar os eventos adversos com registro em falta não foi possível devido a razões de ordem prática.

            Além disso, os eventos adversos pós-alta revelam-se em readmissões ao hospital. Se o paciente não é readmitido, o evento adverso não é descoberto, salvo se estiver registrado no ambulatório do hospital.

            Estudos anteriores mostraram que eventos adversos podem ser identificados com exatidão pelas informações em registros hospitalares. No entanto, esses registros não podem fornecer provas ou insight sobre a causa específica de um evento adverso. A revisão do método não é o instrumento mais adequado para obter conhecimento sobre a causa específica de um incidente.

            Estudos com grande poder estatístico são necessários para se ter o máximo de informações a respeito de Eventos Adversos e sobre sua evitabilidade. Além disso, estudos como esse servem de guia para o desenvolvimento mais efetivo de intervenções para a segurança do paciente. Muito mais do que a incidência de eventos, o que não se deve esquecer é a morbi-mortalidade associada, e acima de tudo, as taxas de evitabilidade que existem frente aos eventos, mostrando que ainda há muito a ser feito para minimizar os eventos adversos aos pacientes.

 

Bibliografia

1.     Brennan TA, Leape LL, Laird NM, et al. Incidence of adverse events and negligence in hospitalized patients. Results of the Harvard Medical Practice Study I. New Engl J Med 1991;324:370–6.

2.     Baker GR, Norton PG, Flintoft V, et al. The Canadian Adverse Events Study: the incidence of adverse events among hospital patients in Canada. CMAJ 2004;170:1678–86.

3.     Leape LL, Brennan TA, Laird N, et al. The nature of adverse events in hospitalized patients. Results of the Harvard Medical Practice Study II. New Engl J Med 1991;324:377–84.

4.     Davis P, Lay-Yee R, Briant R, et al. Adverse events in New Zealand public hospitals II: preventability and clinical context. N Z Med J 2003;116:U624.

5.     Davis P, Lay-Yee R, Briant R, et al. Adverse events in New Zealand public hospitals I: occurrence and impact. N Z Med J 2002;115:U271.

6.     Hayward RA, Hofer TP. Estimating hospital deaths due to medical errors: preventability is in the eye of the reviewer. JAMA 2001;286:415–20.

7.     Jarman B, Gault S, Alves B, et al. Explaining differences in English hospital death rates using routinely collected data. BMJ 1999;318:1515–20.

8.     Michel P, Quenon JL, de Sarasqueta AM, et al. Comparison of three methods for estimating rates of adverse events and rates of preventable adverse events in acute care hospitals. BMJ 2004;328:199.

9.     Park RE, Brook RH, Kosecoff J, et al. Explaining variations in hospital death rates. Randomness, severity of illness, quality of care. JAMA 1990;264:484–90.

10.  Schioler T, Lipczak H, Pedersen BL, et al. [Incidence of adverse events in hospitals. A retrospective study of medical records] [Article in Danish]. Ugeskr Laeger 2001;163:5370–8.

11.  Thomas EJ, Studdert DM, Burstin HR, et al. Incidence and types of adverse events and negligent care in Utah and Colorado. Med Care 2000;38:261–71.

12.  Vincent C, Neale G, Woloshynowych M. Adverse events in British hospitals: preliminary retrospective record review. BMJ 2001;322:517–19.

13.  Wilson RM, Runciman WB, Gibberd RW, et al. The Quality in Australian Health Care Study. Med J Aust 1995;163:458–71.

Conecte-se

Feed

Sobre o MedicinaNET

O MedicinaNET é o maior portal médico em português. Reúne recursos indispensáveis e conteúdos de ponta contextualizados à realidade brasileira, sendo a melhor ferramenta de consulta para tomada de decisões rápidas e eficazes.

Medicinanet Informações de Medicina S/A
Av. Jerônimo de Ornelas, 670, Sala 501
Porto Alegre, RS 90.040-340
Cnpj: 11.012.848/0001-57
(51) 3093-3131
info@medicinanet.com.br


MedicinaNET - Todos os direitos reservados.

Termos de Uso do Portal