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Deficiência de vitamina D em crianças

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 05/09/2009

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Deficiência de vitamina D em crianças

 

Prevalência e associações da deficiência da 25-hidroxi vitamina D em crianças estadunidenses: NHANES 2001-20041 [Link para Abstract].

 

Fator de impacto da revista (pediatrics): 4,473

 

Contexto Clínico

            A vitamina D é conhecida principalmente por seus efeitos na homeostase do cálcio, entretanto ela está envolvida em vários processos fisiológicos e patológicos. O indicador mais utilizado para se avaliar o estado da vitamina D são os níveis de 25 [OH] vitamina D. Níveis cronicamente baixos de 25 [OH] D ( < 15 ng/ml), considerados como deficiência de vitamina D, podem resultar em alterações ósseas compatíveis com raquitismo. Em adultos, o nível ótimo de vitamina D tem sido considerado como = 30 ng/ml, níveis estes associados com supressão máxima do paratormônio e redução das taxas de fratura. Poucos estudos avaliaram a prevalência de deficiência de vitamina D em crianças e adolescentes nos Estados Unidos. Além disso, há evidências ligando a deficiência de vitamina D com fatores de risco cardiovasculares em adultos. Sendo assim, os autores realizaram um estudo observacional para determinar a prevalência de deficiência de 25 [OH] vitamina D e as associações entre a deficiência de vitamina D e fatores de risco cardiovasculares em crianças e adolescentes nos Estados Unidos.

 

O Estudo

            Estudo observacional seccional, de base populacional com uma amostra de crianças de 1 a 21 anos (n=6275) provenientes do NHANES 2001-2004 (National Health and Nutrition Examination Survey) que é um inquérito de saúde nacional realizado dos Estados Unidos.  Nesta amostra de 6275 participantes, foram avaliados fatores de risco para doença cardiovascular e dosado o nível sérico de vitamina D [25 (OH) D]. Os participantes foram classificados quanto ao nível de vitamina D em deficiência de vitamina D (< 15 ng/ml) e insuficiência de vitamina D (15 – 29 ng/ml). 

 

Resultados

            De forma geral, 9% da população pediátrica, representando 7,6 milhões de crianças e adolescentes norte-americanos, apresentavam deficiência de vitamina 25(OH)D e 61%, representando 50,8 milhões de crianças e adolescentes norte-americanos, apresentavam insuficiência de vitamina D. Apenas 4% dos participantes haviam tomado 400UI de vitamina D por dia nos últimos 30 dias. Após ajuste multivariado, os mais velhos (OR: 1,16 IC95% 1,12 – 1,20), as meninas (OR: 1,9 IC 95% 1,6 – 2,4), os negros não hispânicos (OR: 21,9 IC 95% 13,4 – 35,7) ou os americanos-mexicanos (OR: 3,5 IC 95% 1,9 – 6,4) comparados com os brancos não hispânicos, os obesos (OR: 1,9 IC 95% 1,5 – 2,5), aqueles que bebem leite menos de uma vez por semana (OR: 2,9 IC 95% 2,1 – 3,9) e aqueles que assistem ou usam mais de 4h por dia de televisão, vídeo ou computador (OR: 1,6 IC 95% 1,1 – 2,3) têm uma chance maior de apresentar deficiência de vitamina D. Aqueles que usam suplementação de vitamina D tiveram uma chance menor de apresentar deficiência de vitamina D (OR:0,4 IC 95% 0,2 – 0,8). Além disso, também após ajuste multivariado, a deficiência de vitamina 25(OH)D associou-se com níveis elevados (PTH > 65 pg/ml) de paratormônio (OR: 3,6 IC 95% 1,8 – 7,1), aumento da pressão arterial sistólica (diferença média de 2,24 mmHg IC 95% 0,98 – 3,50 mmHg), queda dos níveis de cálcio (diferença média de – 0,09 mg/dl IC 95% - 0,15 a – 0,04 mg/dl) e queda dos níveis de HDL-colesterol (diferença média de – 3,03 mg/dl IC 95% - 5,02 a – 1,04 mg/dl) comparados àqueles com níveis de vitamina 25(OH)D = 30 pg/ml. Os autores concluem que a deficiência de vitamina D é comum entre crianças e adolescentes norte-americanos e está associada com risco cardiovascular adverso.

 

Aplicações para a Prática Clínica

            Estudo de extrema importância, uma vez que cada vez mais a vitamina D tem sido implicada em inúmeros processos fisiológicos e sua deficiência está envolvida em vários processos patológicos além do metabolismo ósseo, como doenças cardiovasculares, câncer e doenças imunomoduladas. O principal campo de estudo atual sobre o papel da deficiência da vitamina D refere-se às doenças cardiovasculares. Existem algumas evidências, principalmente ecológicas, mostrando que populações sob maior risco de deficiência de vitamina D também estão sob maior risco desenvolver hipertensão e doença cardiovascular2. Há também algumas evidências de pequenos estudos mostrando haver uma associação de deficiência de vitamina D e hipertensão arterial, e alguns estudos até mostram que a reposição de vitamina D em pacientes com deficiência pode reduzir a pressão arterial de forma significativa. Sabe-se que a 1,25 (OH)2 vitamina D está envolvida no controle da produção de renina, que é um dos hormônios mais importantes na regulação da pressão arterial. Além disso, alguns estudos mostraram que a suplementação de vitamina D em indivíduos com ingestão inadequada está associada à queda nos níveis de proteína C reativa, que por sua vez está associada à gênese de doença cardiovascular.

            No presente estudo observamos que a prevalência de deficiência de vitamina D em crianças e adolescentes é de 9% nos Estados Unidos e que 61% desta população apresentam níveis insuficientes de vitamina 25 (OH) D. Este número é praticamente idêntico ao encontrado num estudo de prevalência de insuficiência de vitamina D entre adolescentes de 16 a 20 anos realizado numa cidade do interior de São Paulo (60% de insuficiência entre 136 adolescentes avaliados)3. Este mesmo estudo mostrou que apenas 15% destes adolescentes apresentavam uma ingestão diária adequada de vitamina D e que apenas 28% deles realizavam atividade física ao ar livre. O presente estudo também traz dados novos que corroboram com os poucos estudos que avaliaram a associação de deficiência de vitamina D e fatores de risco cardiovasculares em crianças. Neste estudo, como em outros estudos4,5,6, a deficiência de vitamina D associou-se com aumento da pressão arterial e redução dos níveis de HDL-colesterol. Este editor acredita que esta é uma área de grande importância para a saúde pública, pois tem um alto potencial preventivo e, possivelmente, um grande impacto na saúde da população.

 

Bibliografia

1. Kumar J, Muntner P, Kaskel FJ, Hailpern SM, Melamed ML. Prevalence and Associations of 25-Hydroxyvitamin D Deficiency in US Children: NHANES 2001–2004. Pediatrics 2009;124(3):e362-e370.

2. Holick MF. High prevalence of vitamin D inadequacy and implications for health. Mayo Clin Proc. 2006;81(3):353–337

3. Peters E, Santos BS, Fisberg LC, Wood M, Martini RJ, Araújo L. Prevalence of Vitamin D Insufficiency in Brazilian Adolescents. Ann Nutr Metab; 2009  54(1):15-21.

4. Smotkin-Tangorra M, Purushothaman R, Gupta A, Nejati G, Anhalt H, Ten S. Prevalence of vitamin D insufficiency in obese children and adolescents. J Pediatr Endocrinol Metab. 2007;20(7):817– 823

5. Auwerx J, Bouillon R, Kesteloot H. Relation between 25-hydroxyvitamin D3, apolipoprotein A-I, and high density lipoprotein cholesterol. Arterioscler Thromb. 1992;12(6):671– 674

6. Carbone LD, Rosenberg EW, Tolley EA, et al. 25-Hydroxyvitamin D, cholesterol, and ultraviolet irradiation. Metabolism. 2008;57(6):741–748

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