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Álcool e doença coronariana

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 22/11/2009

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Álcool e doença coronariana

 

Ingestão alcoólica e risco de doença coronariana na coorte espanhola do estudo EPIC1 [Link para Abstract].

 

Fator de impacto da revista (heart): 4,964

 

Contexto Clínico

            A associação entre ingestão alcoólica e incidência de doença coronariana tem sido amplamente estudada. A maioria dos estudos mostra que a ingestão moderada de álcool reduz o risco de doença coronariana. Existe muita discussão sobre se esta relação é, de fato, causal ou é enviesada. Assim, os autores deste estudo objetivaram analisar a associação entre consumo de álcool e risco de doença coronariana na coorte espanhola do estudo EPIC (European Prospective Investigation into Cancer).

 

O Estudo

            Os participantes da coorte espanhola do EPIC foram incluídos (15.630 homens e 25.808 mulheres entre 29 e 69 anos de idade). O consumo de etanol foi calculado utilizando-se um questionário de história alimentar validado. Os participantes com eventos coronarianos definitivos foram considerados casos. O tempo de seguimento mediano foi de 10 anos. Utilizou-se o modelo de regressão de Cox ajustado para co-variáveis relevantes e estratificado por idade. Modelos separados foram realizados para homens e mulheres.

 

Resultados

            A taxa de incidência de doença coronariana foi de 300,6 casos/100.000 pessoas-ano para homens e de 47,9 casos/100.000 pessoas-ano para mulheres. Foram observados, no total, 609 casos de doença coronariana ao longo do seguimento. Consumos moderado, alto e muito alto de álcool associaram-se com um risco reduzido de doença coronariana em homens, com riscos relativos (IC95%) de 0,49 (0,32-0,75), 0,46 (0,30-0,71) e 0,50 (0,29-0,85), respectivamente (Tabela 1). Também se observou uma associação negativa entre as mulheres, porém sem significância estatística. Isto pode ter ocorrido em virtude do baixo número de casos de doença coronariana entre as mulheres, como também se pode observar na tabela 1.

 

Tabela 1: Risco relativo (IC95%) de doença coronariana de acordo com o consumo de álcool (análise multivariada), para homens e mulheres.

 

 

Nunca

Ex

Baixo

Moderado

Alto

Muito Alto

Homens

n

25

59

69

135

159

33

 

RR

(IC)

1,00

0,90

(0,56-1,44)

0,65

(0,41-1,04)

0,49

(0,32-0,75)

0,46

(0,30-0,71)

0,50

(0,29-0,85)

Mulheres

n

52

15

38

20

1

0

 

RR

(IC)

1,00

1,17

(0,66-2,08)

0,75

(0,48-1,17)

0,62

(0,36-1,07)

0,21

(0,03-1,52)

-

-

 

            O tipo de álcool consumido não alterou os resultados. Os autores concluem que a ingestão alcoólica em homens entre 29 e 69 anos associou-se a uma redução de cerca de 30% na incidência de doença coronariana.

 

Aplicações para a Prática Clínica

            Embora os achados deste estudo não sejam uma grande novidade, uma vez que já existem grandes indícios da associação negativa entre consumo de álcool e doença coronariana, este estudo é, de certa forma original, no sentido de ter evitado o erro do abstêmio (abstainer error ou sick quitters hypothesis), em que a cessação do hábito de beber é um marcador de gravidade ou de doença do paciente (p ex um paciente com diagnóstico de infarto tende a parar de beber). Além disso, são achados provenientes de um grande estudo de coorte prospectivo, com controle de múltiplas co-variáveis. Um dado interessante sobre os achados deste estudo é que mesmo ingestão muito elevada de álcool (mais de 90g de álcool por dia, o que equivale a mais de 7 doses por dia) também se associou negativamente com a incidência de doença coronariana. Além disso, o tipo de bebida não influenciou os resultados, mostrando que é o álcool em si e não o tipo de bebida alcoólica que protege da doença coronariana. Há, no entanto, que se ter cuidado com resultados deste tipo e com as orientações práticas que podem ser realizadas com base nestes achados. Sabemos que o consumo excessivo de álcool é um problema de saúde pública e está associado com inúmeros problemas de saúde, direta e indiretamente, além de problemas no trabalho, sociais e familiares. Assim, não se deve estimular o consumo alcoólico como forma de prevenção de doença coronariana, e indivíduos que consomem álcool excessivamente devem ser orientados a reduzir a ingestão. Este estudo não teve participação de nenhuma indústria em seu financiamento e os autores não declararam nenhum conflito de interesse, mas sabemos que existem interesses da indústria de bebidas no estímulo à visão exagerada do álcool como uma intervenção de saúde2. 

 

Bibliografia

  1. Arriola L, Martinez-Camblor P, Larrañaga N, Basterretxea M, Amiano P, Moreno-Iribas C, Carracedo R, Agudo A, Ardanaz E, Barricarte A, Buckland G, Cirera L, Chirlaque MD, Martinez C, Molina E, Navarro C, Quirós JR, Rodriguez L, Sanchez MJ, Tormo MJ, González CA, Dorronsoro M. Alcohol intake and the risk of coronary heart disease in the Spanish EPIC cohort study. Heart published online 19 Nov 2009.
  2. Sellman D, Connor J, Robinson G, Jackson R. Alcohol cardio-protection has been talked up. N Z Med J. 2009;122(1303):97-101.

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