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Redução no consumo de sal - efeitos populacionais

Autores:

Euclides F. de A. Cavalcanti

Médico Colaborador da Disciplina de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 08/02/2010

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Efeitos populacionais da redução de consumo de sal

 

Efeitos estimados da redução de sal na dieta em doença cardiovascular futura1,2

 

Fator de impacto da revista (New England Journal of Medicine): 50,017

 

Contexto Clínico

            Como pudemos revisar nos comentários de estudos anteriores (ver: Consumo de sal ao redor do mundo, Restrição de sal na hipertensão resistente e Estudo INTERSALT) o consumo de sal é excessivo ao redor do mundo e: 1) é um dos mecanismos na gênese e perpetuação da hipertensão arterial; 2) aumenta diretamente o risco cardiovascular e a mortalidade; 3) as fontes na alimentação e quantidade de sal ingerido são muito variáveis ao redor do mundo, e o mesmo se aplica as diferentes realidades e localidades de nosso país.

            Apesar disso, os esforços dos órgãos de saúde pública para reduzir o consumo de sal se limitam a poucos países, dentre eles Japão, Reino Unido, Finlândia e Portugal, que reduziram o consumo de sal de suas populações através de medidas como regulamentação junto a indústria para reduzir o teor de sal dos alimentos industrializados e medidas educacionais.3 O presente estudo procurou estimar de forma quantitativa qual seria o benefício populacional da redução de sal na dieta nos Estados Unidos, utilizando-se de modelos matemáticos com os dados dos estudos publicados até o momento, e comparando os benefícios com outras intervenções comprovadas, tais como suspensão do tabagismo, perda de peso e tratamento da dislipidemia.

 

O estudo

            Os autores utilizaram um modelo matemático de simulação de risco de doença cardíaca em adultos de 35 a 84 anos (Coronary Heart Disease Policy Model). Os autores estimaram os efeitos da redução de sal através deste modelo matemático em diferentes segmentos da população norte americana e compararam estas projeções com os benefícios esperados de outras intervenções clínicas e de saúde pública.

            Foram feitas simulações com toda a população dos Estados Unidos e com subgrupos definidos de acordo com idade, sexo e raça. Foram estimadas as reduções anuais na incidência de doença coronariana, IAM novo ou recorrente, incidência de AVC e morte por qualquer causa como resultado da redução de sal dietético por toda a população.

 

Resultados

            O consumo médio de sal de um homem nos Estados Unidos é de 10,4 gramas e o de uma mulher é de 7,3 gramas, o que é muito acima da ingestão recomendada. Reduzir o sal na dieta de todas as pessoas da população em 3 gramas teria uma projeção estimada de reduzir a incidência anual de novos casos de doença coronariana em 60.000 a 120.000, AVC em 32.000 a 66.000, IAM em 54.000 a 99.000 e levaria a uma redução de mortes por qualquer causa de 44.000 a 92.000 por ano. Todos os segmentos da população se beneficiariam, com um benefício relativamente maior para a população negra, tendo também sido estimado que os idosos teriam maior redução de doença coronariana, mulheres teriam maior redução de AVC e adultos mais jovens menor mortalidade. Tais benefícios seriam equivalentes a redução em 50% no uso de tabaco, redução de 5% do peso em adultos obesos e uso de estatinas para prevenção primária. Mesmo a redução na ingestão em apenas 1 grama já traria benefícios estimados significativos, com projeção de queda de 20.000 a 40.000 novos casos de doença coronariana, novos casos de IAM em 18.000 a 35.000, novos casos de AVC em 11.000 a 23.000 e mortes por qualquer causa em 15.000 a 32.000. A redução de custos estimados através de tal estratégia seria de 10 a 24 bilhões de dólares anualmente. Segundo as estimativas, mesmo que a redução conseguida fosse de apenas 1 grama, e conseguida ao longo de toda uma década, tal estratégia levaria a redução de custos.

 

Aplicação para a prática clínica

            Embora estimativas de incidência de doenças baseadas em modelos matemáticos estejam sujeitas a erros, por se basearem em inúmeras assunções, esta projeção baseada em modelo matemático se junta a todo o corpo de literatura que vem se somando nos últimos anos apontando os enormes malefícios do consumo excessivo de sal.

            O editor da revista, embora ressalte as limitações deste tipo de estudo, conclui que:

 

“Esperamos que o trabalho de Bibbins-Domingo e colegas e outros grupos independentes irão persuadir os órgãos de saúde nos Estados Unidos e outras localidades a implementar rapidamente intervenções de saúde pública que resultem em redução da ingestão de sal por todas as populações. Neste momento de deliberação sobre a reforma de saúde (grande reforma sendo discutida atualmente naquele país), não devemos negligenciar esta medida de saúde pública barata, porém altamente eficaz para a prevenção de doenças”.

 

            De fato, tais estratégias já tiveram início naquele país, e uma estratégia nacional com início em Nova York teve início recentemente4 [link].

 

            Em nosso meio, medidas de saúde pública para redução do consumo de sal pela população provavelmente também são recomendadas. No entanto, provavelmente é necessário mapear melhor o problema antes de se adotar tais estratégias, uma vez que os poucos estudos existentes sugerem que o consumo difere dentre as diversas regiões e até mesmo de acordo com o nível sócio-econômico (ver também: Consumo de sal ao redor do mundo). Além disso, é necessário se estabelecer claramente quais são as fontes do consumo de sal em cada localidade de nosso país. Nos Estados Unidos, por exemplo, segundo dados apresentados pelo autor, 75% a 80% do consumo de sal é através de alimentos industrializados, sendo a participação do sal adicionado no preparo em casa e nos alimentos muito menor. Logo, naquele país, estratégias para redução da ingestão de sal tem que passar pela regulamentação da indústria. Portanto, para se estabelecer uma estratégia de saúde pública eficaz em nosso meio é necessário se estabelecer qual o papel das diferentes fontes alimentares, preferencialmente de forma estratificada por região e nível sócio-econômico.

 

Bibliografia

1.     Bibbins-Domingo K et al. Projected effect of dietary salt reductions on future cardiovascular disease. New England Journal of Medicine. Publicado online em janeiro de 2010. [link livre para o artigo original]

2.     Appel LJ et al. Compeling evidence for public action to reduce salt intake. New England Journal of Medicine. Publicado online em janeiro de 2010. [Link livre para o artigo original]

3.     He FJ, Macgregor GA. A comprehensive review on salt and health and current experience of worldwide salt reduction programmes. J Hum Hypertens 2008;23: 363-84.

4.     Thomas L. Schwenk. Population-based benefits of salt reduction. Journal Watch fevereiro de 2010.

5.     Brown IJ, Tzoulaki I et al. Salt intakes around the world: implications for public healthInternational Journal of Epidemiology 2009;38:791–813

6.     Intersalt Cooperative Research Group. Intersalt: an international study of electrolyte excretion and blood pressure. Results for 24 hour urinary sodium and potassium. BMJ 1988;297:319-28. [link para o abstract]

7.     Elliot P et al. Intersalt revisited: further analyses of 24 hour sodium excretion and blood pressure within and across populations BMJ 1996;312:1249-1253 [link para o artigo completo]

8.     Stamler J. The INTERSALT study: background, methods, findings, and implications. Am J Clin Nutr 1997; 65 (suppl): 626S-42S [link livre para o artigo completo]

9.     Stamler J, Elliott P, Dennis B et al. INTERMAP: background, aims, design, methods, and descriptive statistics [link livre para o artigo completo] (nondietary). J Hum Hypertens 2003;17:591–608.

10.  Dennis B, Stamler J, Buzzard M et al. INTERMAP: the dietary data – process and quality control. J Hum Hypertens 2003;17:609–22.

11.  Moraes RS, Fuchs FD et al. Familial predisposition to hypertension and the association between urinary sodium excretion and blood pressure in a population-based sample of young adults. Braz J Med Biol Res 33(7) 2000 [link livre para o artigo completo]

12.  Molina MCB, Cunha RS et al. Hipertensão arterial e consumo de sal em população urbana. Rev Saúde Pública 2003;37(6):743-50 [link livre para o artigo completo]

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