FECHAR
Feed

Já é assinante?

Entrar
Índice

Lançamento do Livro A Estratégia da Lagartixa

Última revisão: 27/06/2010

Comentários de assinantes: 0

Apresentação do livro “A Tática da Lagartixa”, escrito pelo autor Dr Dario Vianna Birolini, coordenador de Cirurgia de Urgência do MedicinaNET

 

 

Link para o livro

 

Caros colegas,

 

A medicina e o modo de praticá-la têm sofrido uma série de modificações de forma extremamente veloz e contundente.

Quantas vezes nós, os médicos, nos pegamos querendo estripar um auditor de convênio, reclamando dos nossos honorários, do excesso de faculdades de medicina, revoltados com colegas anti-éticos ou com a indústria de processos?

 

Pois bem, não estou lançando um produto milagroso que resolva todos estes males, pedra nos rins e calvície. Mas levantei todas estas questões e muitas outras para que, reunidas em um livro, levem nossas angústias aos nossos pacientes, de forma bem humorada e sem concessões.

 

O livro “A estratégia da lagartixa”, é uma tentativa de valorização da relação médico-paciente e de divulgação das nossas limitações enquanto seres humanos que somos, exercendo uma ciência que não é exata.

 

Espero que se divirtam bastante e me ajudem a cortar a nossa própria cauda, para que possamos sobreviver.

 

Grande abraço

 

Dário Vianna Birolini

 

 

Abaixo, um capítulo demonstrativo do livro

 

Introdução Fundamental

 

Uma comparação grotesca, porém cabível:

 

O único modo, e talvez a última chance, de salvar a vida daquele paciente seria amputando a sua perna.

A troca de um membro pela vida – exclamou o doutorando – assim como uma lagartixa quando acuada por um predador...

 

Certa vez fui comprar um livro numa dessas grandes livrarias. A balconista, ao me atender, pediu o meu cartão de crédito e a minha identidade. Dei, por engano, o cartão do plano de saúde em vez do de crédito. Ela logo percebeu o erro e educadamente me alertou do fato. Pedi desculpas, ao que a moça simpaticamente completou:

 

-Tudo bem, errar é humano!

Não perdi a oportunidade de fazer uma brincadeira:

-Mesmo sendo médico?

Para a minha completa surpresa, a moça ficou atordoada.

-Mas você é médico! Então não deveria errar!

Será que ela nunca teria aventado para aquela possibilidade?

 

Normalmente eu consideraria o diálogo anterior irrelevante e insípido, mas ele gerou uma série de reflexões em minha mente. O primeiro pensamento foi, na verdade, um pedido aos céus para que ela nunca fosse minha paciente, pois sou falível. Não gostaria de tratar de alguém assim tão intolerante. Mas o que veio depois foi a semente deste livro.

Não era a primeira vez que eu percebia essa cobrança nas pessoas que se esquecem do fato de nós, os médicos, sermos humanos. Será que ela ocultava tal dado por pura conveniência, ou toda aquela reação era fruto de nossa própria hipocrisia enquanto médicos?

 

Quantas vezes ouvi indagações semelhantes a esta: - Hoje eu tenho um importante compromisso, mas entrei em contato com a minha irmã, que está com diarreia. Desenvolverei os mesmo sintomas?

Respondo, de forma bem-humorada, dizendo que a irmã dele era a terceira do dia que atendera por diarreia. Não podemos ser negligentes com a higiene, mas se a doença passasse de uma pessoa para a outra assim tão facilmente, eu teria que trabalhar sentado num vaso sanitário!

Será que este fulano acha que, por ser médico, eu sou imune? Muito pelo contrário! Se ficar doente, ainda sofro o risco de infecções pela flora hospitalar. Imagine uma moléstia causada por alguma daquelas bactérias que só morrem a marteladas! Mas parece que o impulso inicial (irracional) exceto a consternação é: Médico também fica doente?

Surpreendente! O médico fica doente! Isso para não falar de quando é suspeito de metralhar a plateia num cinema ou de abusar de adolescentes sedados, por exemplo.

É evidente que tais acontecimentos estão muito distantes do normal ou do aceitável, mas a profissão dos autores destes delitos amplifica nossa indignação. Por quê? Resquício da época em que “doença-pecado” e “médico-sacerdote” eram quase considerados sinônimos?

Outra vez, ao ser questionado por um paciente quanto à demora no atendimento em um hospital público, expliquei que naquele dia a demanda vinha muito acima do normal. Estávamos fazendo o possível. Ele questionou, indagando se não poderíamos ser mais rápidos. Eu disse que já estávamos no limite da segurança. Um pequeno acréscimo na agilidade do atendimento aumentaria em muito as nossas chances de errar, e as vítimas poderiam ser eles mesmos. Pedi paciência e brinquei dizendo que desde manhã não tínhamos tido tempo nem para ir ao banheiro. A sua resposta, muito dura, foi:

-Se precisa ir ao banheiro, não deveria ter escolhido esta profissão!

Por acreditar que presto um serviço de alta qualidade, comumente fico frustrado quando não sou bem atendido por qualquer um que seja. É muito difícil não fazer comparações. O paciente tem o mesmo direito de ser exigente. E não deve ser nada fácil ficar esperando, muito, quando se sente náuseas ou dores. Mas não precisava ter dito isto. Não somos super-homens.

E você pensa que isto só acontece em hospital público?

Trabalhei num hospital privado de primeira linha. Nele, mensalmente, era enviado um relatório aos plantonistas com as queixas e sugestões advindas do serviço de atendimento ao cliente.

Eu tinha o hábito de ler as reclamações. A meu ver, algumas queixas eram totalmente pertinentes. Outras evidenciavam, claramente, uma falta de conhecimento sobre o médico e a sua vida. Eu poderia citar várias delas, mas colocarei aqui a primeira que me veio à mente. Era mais ou menos assim:

- Fui atendida neste hospital por causa de uma dor muito forte nas costas. Apesar de aliviar a minha dor e de ter feito o diagnóstico correto de cólica renal, me incomodou o fato de o médico estar com cara de sono, todo amassado e com o cabelo despenteado. Senti-me desrespeitada. Horário do atendimento: 04h30min.

A apresentação do médico é fundamental. Mas neste caso não era nem de longe a prioridade. Calcula-se que até 25% da população possa ter uma crise de cólica renal na vida. Se você já foi um desses azarados, deve se lembrar da intensidade da dor. Dizem que ela é pior do que a dor do parto.

Quando acordaram o colega às quatro da manhã, dizendo que um paciente com provável cólica renal tinha chegado, ele saiu correndo para aliviar o sofrimento e não para retocar sua maquiagem. Esta é uma das razões por que em muitos locais os plantonistas já trabalham de uniformes-pijamas.

Esta pessoa provavelmente não ficou frustrada ao descobrir que aquele profissional deitava sem aquelas redinhas de cabelo mas, sim, ao perceber que ele dormia durante o plantão. O plantonista estaria “dormindo em serviço”, fato este comprovado pela sua cara!

Pode causar surpresa, mas nós dormimos no plantão. Por quê?

Primeiro, porque também somos escravos dos nossos relógios biológicos e muitas vezes não chega nenhum paciente de madrugada. Segundo porque, em geral, trabalharemos normalmente no dia seguinte. E nós também ficamos amassados e despenteados quando acordamos.

Quanto tempo você levaria para se desamassar e trocar de roupa, caso fosse acordado às quatro da matina? Preferiria esperar todo este tempo com uma das piores dores que o ser humano conhece, para depois ser atendido por alguém engomado?

Talvez você esteja dizendo: -Ah, espera aí! Não somos tão radicais assim! É uma exceção!

Concordo. Mas imagine que você vá a um pronto-socorro com alguma queixa (que não seja emergencial ou dolorosa) e o médico demore um pouco para atendê-lo. Se esta demora (suponhamos que, de cinco minutos) ocorrer porque o médico estava terminando de almoçar, certamente lhe explicarão que ele estava em um outro procedimento. Nunca lhe dirão: -Aguarde um pouquinho, pois o doutor está na sobremesa. Falta só o cafezinho.

Embora sabendo que nos alimentamos diariamente, duvido que a segunda resposta lhe deixe mais confortável que a primeira. Eu também preferiria a primeira.

Eu aqui esperando, enquanto o médico toma um cafezinho?

Guardadas as devidas proporções, pergunto se no seu trabalho você não tem tempo para almoçar ou não termina de tomar o cafezinho antes de atender alguém?

Sempre que vou ao ambulatório, ao ver aquele monte de gente esperando, fico imaginando o que os pacientes diriam se colocássemos uma plaqueta, como aquelas que já vi em alguns bancos:

-Seguimos aqui a determinação do ministério do trabalho. A cada sessenta minutos de trabalho, descansamos dez (algo mais ou menos assim)...

E quanto aos erros... Cometemos pequenos erros diariamente, embora também os corrijamos constantemente ao conduzir nossos casos clínicos.

Como não errar?

Várias doenças podem ter exatamente as mesmas manifestações clínicas e laboratoriais. Para tudo existem resultados falso-positivos e falso-negativos. Nenhum exame possui 100% de acurácia. O paciente às vezes mente ou oculta fatos. A mesma doença pode apresentar-se com diferentes manifestações dependendo do paciente, das afecções associadas, de interações medicamentosas e até do clima!

Como não errar, se somos imperfeitos?

Será nosso raciocínio igualmente eficaz quando atendemos a um mendigo ou ao presidente da república? No começo e ao fim do plantão?

Ah, basta seguir protocolos e não haverá enganos!

Duvido...

A maioria dos protocolos esclarece muito bem o que fazer, por exemplo, no caso de dor abdominal “presente” ou “ausente”. Mas nada orientam para os “não sei”, para os “mais ou menos” e os “não é bem uma dor”, que podem aparecer em muitos casos.

Além disto, poderia (ou deveria) o médico seguir a mesma trilha diagnóstico-terapêutica com o paciente pouco abastado e o credenciado pelo seguro “plus-diamond-universal”? Com o senhor alérgico a iodo e o superobeso? Na rua, na cadeia, no hospital geral?

A falsa impressão de que o médico não erra, não precisa comer ou não tem fadiga, é realmente muito conveniente. Desta forma, enquanto pacientes, estaremos seguros. Não seremos vítimas de imperfeições humanas.

Desculpe-me, mas pretendo decepcioná-lo constantemente.

Sabe aquele médico de família excelente, solícito e que sempre acerta?

Ele também já teve o seu primeiro paciente. Sofre as angústias, dúvidas, medos e fraquezas do nosso dia a dia. Engana-se. Fica doente, alimenta-se, e possui as mesmas necessidades fisiológicas que todos nós.

 

Por estas e por outras, com a intenção de mostrar que somos feitos de carne e osso, como qualquer outro mortal, comecei a colecionar relatos de casos e “causos”.

Que valor teria, narrar o que ocorre em 90% do nosso tempo e que você já conhece? Falar dos acertos médicos, das inovações tecnológicas, da nossa enérgica disposição e da dedicação ao trabalho, dos casos corriqueiros e sem desafios, do sacerdócio e da ética inabalável? Isso apenas solidificaria uma imagem de perfeição, a qual desejo refutar!

A crescente intolerância às nossas imperfeições humanas, algumas vezes absolutamente inevitáveis, acabará levando à extinção da profissão médica, coisa que já vem ocorrendo em muitos locais e especialidades.

Talvez, uma forma de salvar o médico – assim como a lagartixa -, seja mutilando parte da sua imagem e reputação, ao expor os 10% restantes.

A minha intenção não é de macular a imagem do médico, mas acredito que expondo a nossa condição de seres humanos, as pessoas se tornarão mais tolerantes. E não há nada melhor do que exemplos para demonstrar, desnudar nossas fraquezas, dúvidas e erros. Porém, a exposição de eventos desconexos tornaria a narrativa muito enfadonha. Assim, pensei em escrever, em sequência cronológica, sobre a formação e o dia a dia de um médico, enquanto relatava um pouco da nossa rotina, tantas vezes imaginada de forma diferente, romântica.

Apesar de contar alguns fatos que realmente se passaram comigo (com algumas modificações para preservar a imagem dos envolvidos), aproveitei para enriquecer a narrativa inserindo várias histórias do folclore médico. Da mesma forma, alguns questionamentos e reflexões instigantes que colocarei, apesar de muitas vezes deles discordar, também provem de outros autores. Portanto, é extremamente importante que o leitor saiba que esta obra de ficção não é uma autobiografia, apesar de desenvolver os capítulos na primeira pessoa. Todos os lugares, pessoas e acontecimentos, da forma como narro, são imaginários.

(Mesmo assim, se sua avó for uma daquelas pessoas que, ao se encontrar com o vilão da novela, lhe repreende pelas maldades do seu personagem, me previna, por favor.)

 

Tentei lembrar-me das dúvidas e curiosidades mais frequentes, dos graduandos e de meus amigos que não eram médicos, sobre os bastidores da medicina atual. Ao discorrer sobre estes assuntos, esbarrei em temas muito espinhosos e polêmicos, o que não significa estar de acordo com eles, aceitá-los ou achá-los divertidos. Caberá ao leitor avaliá-los.

Minha intenção não é fazer rir, embora tente, com bom humor, relatar algumas histórias pitorescas que despertaram a curiosidade em todos que as ouviram. Isto não constitui uma novidade. Vários médicos já escreveram livros sobre suas aventuras e desventuras. Alguns, posteriormente, se tornaram competentes escritores a ponto de brincarem que pagariam uma gorda recompensa para quem achasse um exemplar do seu primeiro livro e o queimasse. Tudo por vergonha do conteúdo e da forma do que teriam escrito décadas atrás. Não temo tanto assim o meu futuro, uma vez que não pretendo ser escritor-médico e nem médico-escritor. Mas peço desculpas ao leitor pelo meu amadorismo na área. Tentarei ser o mais didático e o menos técnico possível.

Quando comecei a escrever, muitas pessoas me disseram que os leigos não entenderiam e que o livro queimaria o filme dos médicos.

Mas, desde que eu consiga mutilar a imagem desses “super-homens” na medida correta, acredito que, além de ajudá-los, este livro pode ser uma fonte de descoberta e de sentimentos muito interessantes para ser descartado.

Isto foi confirmado por vários amigos, inclusive um que, após ler algumas linhas, me estimulou de forma óbvia, mas sincera:

- Se todo mundo ler o seu livro, será um best-seller!

Espero que esteja correto, e que eu consiga tirar, do médico, somente a cauda.

 

Abaixo um link para uma entrevista com o autor

 

http://jovempan.uol.com.br/videos/a-estrategia-da-lagartixa-revela-bastidores-da-medicina-45257,1,0

Conecte-se

Feed

Sobre o MedicinaNET

O MedicinaNET é o maior portal médico em português. Reúne recursos indispensáveis e conteúdos de ponta contextualizados à realidade brasileira, sendo a melhor ferramenta de consulta para tomada de decisões rápidas e eficazes.

Medicinanet Informações de Medicina S/A
Av. Jerônimo de Ornelas, 670, Sala 501
Porto Alegre, RS 90.040-340
Cnpj: 11.012.848/0001-57
(51) 3093-3131
info@medicinanet.com.br


MedicinaNET - Todos os direitos reservados.

Termos de Uso do Portal