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Estresse Psicológico e Risco de Demência

Autor:

Leonardo da Costa Lopes

Especialista em Geriatria pela SBGG; Médico Colaborador do Serviço de Geriatria do HC-FMUSP; Médico Assistente da Divisão de Clínica Médica do HU-USP

Última revisão: 13/12/2010

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Estresse psicológico na vida adulta e risco de demência: um estudo longitudinal de base populacional com 35 anos de duração [Link para Abstract]1

 

Fator de Impacto da Revista (Brain): 9.603

 

Contexto Clínico

Há evidências de que o estresse psicológico possa provocar neurodegeneração e perdas cognitivas, mediadas por um aumento na secreção de cortisol. O cortisol pode induzir a atrofia do hipocampo e favorecer a deposição de peptídeo beta amilóide e proteína tau no cérebro, os principais marcadores da doença de Alzheimer. Não há estudos, entretanto, que tenham avaliado prospectivamente e no longo prazo o impacto do auto-relato de estresse psicológico na vida adulta sobre o surgimento de quadros demenciais na velhice.

 

O Estudo

Trata-se de um estudo de coorte, cujo objetivo foi avaliar as relações entre o estresse psicológico em mulheres adultas e o desenvolvimento de demência ao se tornarem idosas. Foram incluídas 1.462 mulheres suecas entre 38-60 anos, examinadas ao longo do tempo em 5 oportunidades: 1968-69, 1974-75, 1980-81, 1992-93 e 2000-03. Questionários padronizados para avaliar o estresse psicológico foram aplicados e o diagnóstico de demência foi feito com base nas normas do DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) e através de baterias neuropsicológicas. Diversas variáveis confundidoras foram determinadas, tais como escolaridade, estado civil, nível socioeconômico, tabagismo, consumo de vinho, atividade física, histórico de doença coronária e pressão arterial. As relações entre estresse psicológico e demência foram avaliadas por modelos de regressão de Cox e as associações encontradas descritas na forma de razões de risco, já ajustadas para as variáveis de confusão.

 

Resultados

Durante o seguimento de 35 anos, 161 mulheres desenvolveram demência, das quais 105 por Doença de Alzheimer (DA) e 40 por demência vascular. Estresse frequente e constante nos últimos 5 anos foi relatado por 20% das mulheres na primeira avaliação, 23% na segunda e 15% na terceira. Em função dessa ocorrência, o risco de desenvolver demência foi aumentado nas mulheres com estresse frequente e constante na primeira avaliação (HR 1,60 IC95% 1,10 – 2,34), na segunda (HR 1,65 IC95% 1,12 – 2,41) e na terceira (HR 1,60 IC95% 1,01 – 2,52), sendo que nas duas primeiras avaliações houve associação direta com a ocorrência de DA. O tempo médio entre a primeira avaliação e o surgimento de demência foi de 25 anos e a idade média do diagnóstico de demência foi de 76 anos. Comparadas às mulheres que não relatavam estresse, a razão de risco para demência foi de 1,73 (IC95% 1,01 – 2,95) se houvesse relato de estresse frequente ou constante em 2 avaliações (o que ocorreu para 10% das mulheres) e de 2,51 (IC95% 1,33 – 4,77) em 3 avaliações (o que ocorreu para 5%). As associações foram semelhantes para quadros demenciais iniciados antes e depois dos 70 anos.

 

Aplicações para a Prática Clínica

Há uma associação clara entre o estresse crônico em mulheres e o desenvolvimento de demência. Assim, cabe atenção especial para o acompanhamento cognitivo de mulheres com este perfil, especialmente após os 60 anos. Mesmo que ainda não comprovadas para a prevenção de demência, orientações para o tratamento precoce do estresse podem ser úteis. Neste sentido, além de medidas comportamentais e psicoterapia, podem ser úteis medicações como os inibidores de recaptação seletiva de serotonina (IRSS). Em modelos animais, os IRSS estão relacionados à redução da expressão da proteína beta amilóide2.

Muito embora o estresse psicológico esteja relacionado com a hipertensão arterial e a obesidade, não houve um aumento na incidência de casos de demência vascular pura. Isto pode ser explicado pela mortalidade precoce do grupo de portadores de muitos fatores de risco cardiovascular.

 

Bibliografia

1.    Johansson L, Guo X, Waern M, Östling S, Gustafson D, Bengtsson C et al. Midlife psychological stress and risk of dementia: a 35-year longitudinal population study. Brain 2010:133;2217-2224.

2.    Arjona AA, Pooler AM, Lee RK, Wurtman RJ. Effect of a 5-HT(2C) serotonin agonist, dexnorfenfluramine, on amyloid precursor protein metabolism in guinea pigs.Brain Res. 2002 Sep 27;951(1):135-40.

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