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Oxigênio ou Ar Comprimido no Alívio Paliativo da Falta de Ar

Autor:

Leonardo da Costa Lopes

Especialista em Geriatria pela SBGG; Médico Colaborador do Serviço de Geriatria do HC-FMUSP; Médico Assistente da Divisão de Clínica Médica do HU-USP

Última revisão: 23/03/2011

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Oxigênio versus ar ambiente no alívio paliativo da sensação de falta de ar em pacientes com dispnéia refratária: um ensaio clínico, duplo-cego, randomizado [Link para Abstract]1

 

Fator de Impacto da Revista: (The Lancet): 28.409

 

Contexto Clínico

A dispnéia grave ocorre frequentemente nos pacientes com doenças terminais e afeta a qualidade de vida e a funcionalidade. A oxigenioterapia é um tratamento oneroso e usado amplamente para o alívio da dispnéia nos indivíduos com doenças que limitam a vida, mesmo quando não há indicação do uso de oxigênio a longo prazo. Não há evidências, entretanto, de que a oxigenioterapia produza alívio sintomático da dispnéia de pacientes com pressões arteriais de oxigênio (PaO2) superiores a 54 mmHg. O objetivo deste estudo foi, portanto, comparar a eficácia do oxigênio com a do ar ambiente, oferecidos por um cateter nasal, no alívio da sensação de falta de ar em pacientes sob cuidados paliativos e com dispnéia refratária a outras medidas terapêuticas.

 

O Estudo

Trata-se de um ensaio clínico duplo cego, randomizado e controlado, incluindo 239 participantes com 18 anos ou mais, oriundos de 9 centros da Austrália, EUA e Reino Unido. Os indivíduos apresentavam doenças com prognóstico de vida limitado, porém com sobrevida estimada em no mínimo 1 mês e dispnéia refratária, com PaO2 superior a 54 mmHg. Foram excluídos pacientes com indicações bem estabelecidas de oxigenioterapia contínua, os tabagistas, os portadores de insuficiência respiratória hipercápnica, os portadores de hemoglobina menor que 10 g/dL e os que apresentavam déficit cognitivo. Os participantes foram randomizados para receberem oxigênio ou ar ambiente administrado por concentradores. Ambos os gases foram administrados por cateter nasal, a 2L/min, por 7dias e durante um mínimo de 15h diárias. O desfecho principal foi determinado pela avaliação da intensidade da dispnéia por uma escala de falta de ar (NRS)2, aplicada duas vezes ao dia (pela manhã e à noite). A escala NRS determina a intensidade da dispnéia numa pontuação de 0 a 10. Foi também avaliada diariamente a qualidade de vida pelo questionário de McGill.3

 

Resultados

A idade média dos pacientes tratados foi de 73 anos. Em mais da metade dos pacientes a causa da dispnéia foi atribuída à DPOC e em cerca de 15% à neoplasia pulmonar.

Houve melhora na dispnéia relatada pela manhã e à noite em ambos os grupos (p<0,0001) e a maior parte relatou esta melhora dentro dos primeiros 3 dias de tratamento (88%). No sexto dia de tratamento, a média de pontuação na escala NRS pela manhã diminuiu 0,9 ponto nos que receberam oxigênio e 0,7 ponto nos tratados com ar ambiente (p=0,50). À noite, a média de pontuação caiu 0,3 ponto nos tratados com oxigênio e 0,5 ponto no grupo tratado com ar ambiente (p=0,55). Os resultados foram ajustados para variáveis confundidoras, tais como causa da dispnéia, estado funcional, uso de opióides e PaO2 basal. Os pacientes que apresentavam dispnéia mais grave no início do estudo foram os que mais se beneficiaram de ambas as intervenções. De acordo com o período do dia avaliado, 42-46% dos pacientes responderam à intervenção, numa proporção similar à observada com o uso de opióides.4 A frequência de efeitos adversos não diferiu entre os grupos. As medidas de qualidade de vida também não diferiram entre os dois grupos e houve melhora em ambos (87% de melhora dentro dos 3 primeiros dias de tratamento).

 

Aplicações para a Prática Clínica

O uso de oxigênio nasal não oferece alívio sintomático adicional ao que é obtido pelo uso de ar ambiente no alívio da dispnéia refratária em pacientes sob cuidados paliativos. O número de pacientes utilizado pelo autor teve poder suficiente para detectar as diferenças na sensação de dispnéia no período diurno. Os achados são muito significativos e de alto impacto na prática clínica, especialmente no que se refere à redução de custos. O trabalho também nos permite inferir que qualquer uma das intervenções aplicadas, ao não obter sucesso no alívio da dispnéia dentro de 72 horas, pode ser suprimida. Estudo anterior já havia demonstrado que a ventilação produzida por um ventilador doméstico, quando aplicada sobre a face de pacientes com DPOC e dispnéia refratária, promove alívio sintomático.5

É interessante observar que ao término do estudo, 18% dos participantes dispensaram o uso de oxigênio, 26% não perceberam melhora com a intervenção realizada e apenas 17% solicitaram oxigenioterapia, em ambos os grupos de tratamento. Outro dado interessante do estudo é que a PaO2 média observada nos grupos à admissão foi de cerca de 76 mmHg, muito semelhante à esperada para a idade dos pacientes, conforme calculado pela fórmula de Sorbini[*]. Isto reforça a impressão de que a dispnéia relatada pelos pacientes não guardava relação, de modo geral, com a hipoxemia, podendo estar ligada a outros fatores, como dor ou estresse psicológico.

 

Bibliografia

1.   Abernethy AP, McDonald CF, Frith PA, Clark K, Herndon JE 2nd, Marcello J, et al. Effect of palliative oxygen versus room air in relief of breathlessness in patients with refractory dyspnoea: a double-blind, randomised controlled trial. Lancet 2010;376(9743):784-93.

2.   Fierro-Carrion G, Mahler DA, Ward J, Baird JC. Comparison of continuous and discrete measurements of dyspnea during exercise in patients with COPD and normal subjects. Chest. 2004 Jan;125(1):77-84.

3.   Cohen SR, Mount BM, Bruera E, Provost M, Rowe J, Tong K. Validity of the McGill Quality of Life Questionnaire in the palliative care setting: a multi-centre Canadian study demonstrating the importance of the existential domain. Palliat Med. 1997 Jan;11(1):3-20.

4.   Abernethy AP, Currow DC, Frith P, Fazekas BS, McHugh A, Bui C. Randomised, double blind, placebo controlled crossover trial of sustained release morphine for the management of refractory dyspnoea. BMJ. 2003 Sep 6;327(7414):523-8.

5.   Schwartzstein RM, Lahive K, Pope A, Weinberger SE, Weiss JW. Cold facial stimulation reduces breathlessness induced in normal subjects. Am Rev Respir Dis. 1987 Jul;136(1):58-61.

 



[*] Fórmula de Sorbini: PaO2= 109-0,43(idade).

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