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Dicas para incorporar a ciência da qualidade ao dia a dia do trabalho

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da USP.
Supervisor do Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente.

Última revisão: 09/11/2011

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Especialidades: nenhuma se enquadra

 

Área de Atuação: Segurança do Paciente & Qualidade Assistencial

 

Resumo

Este artigo traz as dicas de um médico da Harvard Medical School, experiente em projetos de melhoria da assistência, sobre como incorporar a “ciência” da qualidade no dia a dia de quem quer melhorar seu hospital ou outro serviço de saúde.

 

Contexto clínico

Para quem trabalha na área da saúde, é difícil incorporar, em seu trabalho diário, a melhoria contínua da qualidade da assistência prestada. É complicado criar e implementar projetos de forma regrada, e mais ainda gerar dados que possam ser aproveitados localmente, quanto mais para uma possível publicação. Entretanto, os estudiosos na área de qualidade da assistência e segurança do paciente sabem que somente quando a melhoria da qualidade assistencial caminha junto com a atividade da assistência em si é que se conseguem resultados, pois essas duas coisas não podem caminhar separadas. Este artigo traz as dicas do Dr. Donald A. Goldmann, vice-presidente do Institute of Healthcare Improvement e professor da Harvard Medical School, para tornar real este elo entre qualidade e assistência.

 

Dicas

Selecione projetos que façam diferença para os pacientes e para os profissionais de saúde envolvidos

Parece óbvio, mas é preciso distinguir pequenas das grandes melhorias e dar focos a estas últimas. Sempre que possível, privilegiar projetos que possam ter grande divulgação de resultados, por exemplo, a diminuição de infecções hospitalares ou a diminuição de eventos adversos com medicação ou em cirurgias.

 

Defina objetivos claros e mensuráveis, bem como um prazo para alcançá-los

É difícil as pessoas se engajarem em algo que não seja mensurável ou cujos resultados não são visíveis no dia a dia.

 

Monte uma equipe multidisciplinar (com profissionais de saúde interessados no projeto e especialistas em qualidade) moldada às necessidades do projeto.

O papel de cada pessoa deve ser claro no projeto, e é importante lembrar que cada projeto exige um grupo diferente de pessoas, de modo que ninguém fique sem uma função e que todos tenham igual importância.

 

Seja criativo recrutando especialistas

É importante lembrar que muitas atividades podem ser desempenhadas por pessoas não diretamente relacionadas à assistência, mas que têm um conhecimento que pode ser muito bem aproveitado. Os estabelecimentos de saúde podem ou não ter esse tipo de pessoa, mas há que se ter profissionais como estatísticos, engenheiros, biólogos dos laboratórios, técnicos em radiologia ou até outras pessoas que podem agregar e ajudar no projeto.

 

Desenvolva um projeto com a metodologia mais rigorosa que puder, sem, entretanto, afetar o trabalho normal de forma indevida

As pessoas normalmente já trabalham muito atarefadas. Incorporar outras atividades às suas funções pode ser desgastante. Procure, na medida do possível, atrelar atividades do projeto, principalmente no que diz respeito à coleta de dados, às próprias atividades das pessoas. Assim, evita-se uma baixa adesão ao projeto, atrapalhando seu andamento.

 

Faça o possível para não sacrificar a qualidade e a integridade dos dados

Coletar e armazenar dados de forma desorganizada é impeditivo quando se pensa em analisá-los, disseminar melhorias e até mesmo publicá-los. Ferramentas de coleta de dados devem ser fáceis de preencher, e deve ocorrer uma organização do ponto de vista de armazenamento. Checklists, por exemplo, são ótimos instrumentos, bem como ferramentas informatizadas, lembrando que se deve evitar aumentar o trabalho que as pessoas já têm em suas rotinas.

 

Não assuma que é necessário um financiamento extra para conseguir desenvolver um projeto de qualidade

Há muitas formas de trazer recursos para projetos de qualidade. Existem instituições que até têm verba extra destinada apenas para isso, mas esta não é uma realidade geral. Há possibilidade também de a indústria voltada para equipamentos hospitalares patrocinar um determinado produto por meio de um projeto de pesquisa em seu hospital, mas isso também não é algo tão fácil. Muitas vezes, o que pode ser conseguido facilmente são alunos de graduação ou pós-graduação desenvolvendo seus projetos de pesquisa, que poderão ter interesse em utilizar seu estabelecimento de saúde como base para coleta de dados e/ou intervenções. Ainda assim, mesmo sem isso, muitas vezes já basta a disposição institucional para desenvolver projetos de qualidade.

 

Dê atenção à ética envolvida em qualquer trabalho de melhoria, mas permita desenvolver projetos sem necessariamente uma aprovação de comitê de ética

Obviamente, ao desenvolver um estudo randomizado ou um projeto de pesquisa que se destina a uma possível publicação, o rigor do ponto de vista de comitê de ética deve ser sempre aplicado em sua totalidade. Entretanto, projetos de qualidade não precisam deste rigor, até porque eles fazem parte da melhoria contínua que qualquer serviço de saúde deve ter, ou seja, seu caráter não é iminentemente acadêmico ou experimental, sobretudo porque boa parte das intervenções feitas são generalizadas à população-alvo, não havendo separação entre “expostos” e “não expostos”. A ética deve estar sempre presente, mas não ser um entrave ao desenvolvimento da qualidade assistencial. Vale lembrar que, mesmo para publicações ou divulgações de dados nesta área, os critérios e o rigor das revistas têm um tratamento diferente.

 

Sempre que possível, publique

Não ache que só publicações em revistas indexadas contam. E também não ache que grandes revistas não aceitarão projetos de qualidade para publicação por conta da forma como são desenvolvidos. O importante é que os dados, mesmo de experiências negativas, devem ser, de alguma forma, divulgados para a comunidade científica ou mesmo não científica, pois é deste aprendizado contínuo que podem surgir soluções particularizadas para diferentes realidades.

 

Aplicações para a prática clínica

Diferentemente de outros artigos, este não se destina a uma discussão de medicina baseada em evidências, até porque, em questões de melhoria da qualidade, muitas coisas ocorrem dentro de especificidades muito grandes em cada serviço. Contudo, esta discussão é um guia baseado na experiência de um autor que é referência no assunto e que já viveu muitas experiências desenvolvendo melhorias no hospital onde trabalha (ele é membro do Children’s Hospital Boston, ligado à faculdade de medicina de Harvard). Sendo assim, dentro de cada realidade, essas “dicas” dadas por ele podem ser úteis para que cada hospital ou serviço de assistência possa desenvolver suas próprias melhorias.

 

Bibliografia

1.   Goldmann D. Ten tips for incorporating scientific quality improvement into everyday work. BMJ Qual Saf 2011;20:i69-i72 doi:10.1136/bmjqs.2010.046359 [Link para o artigo] (Fator de Impacto: 17,793)

 

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