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Longos tempos de espera no pronto-socorro geram maior mortalidade

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado pela Disciplina de Emergências Clínicas Faculdade de Medicina da USP; Médico e Especialista em Clínica Médica pelo HC-FMUSP; Diretor Científico do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP); Membro da Academia Brasileira de Medicina Hospitalar (ABMH); Assessor da Diretoria Médica do Hospital Samaritano de São Paulo.

Última revisão: 28/07/2011

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Especialidades: Emergências

 

Área de atuação: Segurança do Paciente & Qualidade Assistencial / Medicina de Emergência

 

Resumo: este estudo mostra que longos tempos de espera para atendimento em pronto-socorros geram maior chance de o paciente morrer ou ser internado.

 

Contexto clínico

O tempo de espera para atendimento em pronto-socorros (PS) é um problema mundial, e sabe-se do impacto que isto gera em pacientes de alto risco que precisam de intervenções em que o tempo é fundamental; bons exemplos são a trombólise no infarto agudo do miocárdio (IAM) e a antibioticoterapia precoce na sepse grave.

Entretanto, as estatísticas mostram que até 85% dos pacientes recebem alta após a consulta de PS. Os longos tempos de espera podem influenciar como o médico faz o atendimento e potencializam a evasão de pacientes que vão embora sem passar por avaliação médica. Não se sabe se esse tempo de espera prolongado, ao criar as circunstâncias descritas, também influencia os desfechos desses pacientes considerados de menor gravidade.

 

O estudo

Este é um estudo de coorte retrospectiva realizado em todos os departamentos de emergência de Ontário, no Canadá, de 2003 a 2008. Foram excluídos do estudo os departamentos de emergência com pouco movimento. Foram incluídos no estudo todos os pacientes que receberam alta após a consulta médica no PS e aqueles que evadiram ser serem vistos, o que somou quase 18 milhões de pacientes.

Os desfechos estudados foram a mortalidade e a internação hospitalar nos 7 dias subsequentes à ida ao PS, comparando grupos de pacientes cujo tempo médio de espera foi menor que 1 hora, com médias de espera progressivamente maiores (1 a 2 horas, 2 a 3 horas, 3 a 4 horas, 4 a 5 horas, 5 a 6 horas; mais de 6 horas). Também foram comparados os pacientes de maior e menor risco, que foram agrupados com base no sistema de triagem de enfermagem em 5 níveis (níveis 1, 2 e 3: alto risco vs. níveis 4 e 5: baixo risco).

Mortes e internações foram mais frequentes em pacientes triados como de alto risco comparados aos de baixo risco, entretanto, isso já era esperado. Interessante é que os pacientes que evadiram tiveram menores taxas de internação e morte do que aqueles que foram avaliados e receberam alta. Em todos os grupos de pacientes, as taxas de morte e internação foram progressivamente maiores para cada hora extra de espera.

O odds ratio para morte foi de 1,79 (IC95%: 1,24-2,59) e para internação foi de 1,95 (IC95%: 1,79-2,13) para os pacientes de alto risco quando comparados tempo de espera acima de 6 horas contra menos de 1 hora. Para pacientes de baixo risco, o odds ratio para morte foi de 1,71 (IC95%: 1,25-2,35) e para internação foi de 1,66 (IC95%: 1,56-1,76) quando comparados tempo de espera menor que 6 horas contra menos de 1 hora. Pacientes de idade mais avançada são os de maior risco para morte e internação em ambos os grupos. Para pacientes que evadem sem serem vistos, não há maiores taxas de morte ou internação em nenhum dos grupos de pacientes.

 

Aplicações para a prática clínica

Este é um ótimo estudo para embasar uma percepção em todo departamento de emergência: a de que o tempo de espera gera impacto a todos os pacientes. O que se imagina é que o tempo de espera influencia os desfechos apenas dos pacientes mais graves, mas isso se aplica também aos pacientes de menor risco, e o grande fator para isso é o tempo para ser visto.

Chama atenção neste estudo, que provavelmente foi o maior já realizado, que pacientes que evadem sem ser vistos não têm risco aumentado de eventos adversos (morte ou internação). Em compensação, em turnos com tempos de espera maiores, há, com certeza, impacto para a segurança do paciente. Isso não pode ser explicado exclusivamente por uma “demora” para se iniciar o tratamento, tendo em vista que os pacientes estudados foram todos de alta. O que é mais provável é que, com tempos de espera maiores, as ações tomadas com o paciente, as decisões de tratamento e de investigação e até mesmo o comportamento dos médicos deve se alterar para que a “fila ande”.

Em termos práticos, parece que o maior foco em termos de qualidade e segurança do paciente em um PS deve ser minimizar o tempo para a consulta médica, e, diferentemente do que se pensava, é possível minimizar a importância do paciente que vai embora sem ser visto dentro dos serviços que prestam esse tipo de atendimento.

 

Bibliografia

1.     Guttmann A,  Schull MJ, Vermeulen MJ, Stukel TA. Association between waiting times and short term mortality and hospital admission after departure from emergency department: Population based cohort study from Ontario, Canada. BMJ 2011 Jun 1;342:d2983. (http://dx.doi.org/10.1136/bmj.d2983) (Fator de Impacto: 13,66).

 

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