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Dispepsia funcional e alterações do sono

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 22/11/2011

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Área de atuação: Medicina ambulatorial

 

Especialidade: Gastrenterologia, Medicina de Família e Comunidade, Medicina Interna.

 

Resumo

Estudo mostra que a dispepsia funcional está associada a distúrbios do sono, entretanto não se sabe se há uma relação de causa e efeito ou se ambos fazem parte de um quadro funcional mais complexo.

 

Contexto clínico

A dispepsia funcional é uma das muitas síndromes funcionais descritas na nosologia médica contemporânea. Existem muitas controvérsias sobre a real existência destas síndromes do ponto de vista fisiopatológico ou se elas são apenas produto da especialização médica e da tendência de produzir explicações médicas para sintomas inexplicáveis do ponto de vista da biomedicina.

A despeito das controvérsias, a dispepsia funcional (DF) é um distúrbio gastrintestinal altamente prevalente, que reduz a qualidade de vida das pessoas e produz um custo significativo para o sistema de saúde, em virtude da grande quantidade de recursos consumida por estes pacientes.

Alterações do sono podem influenciar a geração de sintomas de DF, além de afetar o bem-estar mental e físico. As alterações ou distúrbios do sono também são condições muito prevalentes (quase 50% dos norte-americanos têm pelo menos um sintoma de distúrbio do sono), incluindo sintomas como dificuldade para adormecer, insônia terminal e sonolência diurna, e associam-se com uma variedade de problemas de saúde, como declínio cognitivo, lentificação de reflexos, doença cardiovascular, redução de produtividade no trabalho e piora da qualidade de vida. Há algumas evidências de que os distúrbios do sono estão associados com síndrome do intestino irritável e doença do refluxo gastresofágico (DRGE), entretanto sua relação com a DF ainda não foi bem caracterizada. Desta forma, os autores do presente estudo objetivaram avaliar a associação existente entre a DF, a saúde física e mental e a presença de distúrbios do sono em pacientes que preenchiam os critérios de Roma III para dispepsia funcional.

 

O estudo

Trata-se de um inquérito (estudo transversal) realizado com uso de questionários para avaliar a associação entre dispepsia funcional e distúrbios do sono em pacientes portadores de DF pelos critérios de Roma III e em controles saudáveis. A hipótese dos autores era de que os pacientes com DF teriam mais distúrbios do sono do que voluntários saudáveis. O objetivo primário do estudo foi, portanto, avaliar a extensão e a magnitude dos distúrbios do sono em pacientes com DF comparados àqueles experimentados por voluntários saudáveis. Os objetivos secundários incluíram avaliar as interações entre a gravidade dos sintomas de dispepsia funcional, distúrbios do sono e bem-estar físico e mental.

Os participantes eram adultos que preenchiam os critérios de Roma III para dispepsia funcional (vide Glossário). Características demográficas, uso de álcool e tabaco, nível de atividade física e sintomas de DF foram determinados com base nos dados coletados de 131 participantes (idade média: 50 anos – DP: 15 anos; 82% mulheres e 94% brancos) que responderam o questionário de Depressão e Ansiedade Hospitalar (HAD), inquérito de saúde Short Form 12 (SF-12), o Índice de Qualidade de Sono de Pittsburgh (PSQI) e o Índice de Gravidade da Insônia (ISI). Os controles saudáveis (n=50; idade média: 44 anos – DP: 11 anos; 92% mulheres) responderam às mesmas questões, exceto aquelas que focavam nos sintomas dispépticos.

A duração média dos sintomas de DF foi de 106 ± 98 meses. O escore de depressão e ansiedade foi mais alto nos participantes com dispepsia funcional do que nos controles (p < 0,001). Os escores do índice de qualidade de sono e de gravidade da insônia foram maiores nos participantes dispépticos com sintomas moderados a graves, comparados aos com sintomas leves e aos controles (p < 0,001). Análise de regressão logística multivariada mostrou que DF (OR: 3,25; IC95% 1,47–7,20) e sexo feminino (OR: 2,36; IC95% 0,99 –5,7) associaram-se de forma independente com distúrbio do sono.

Os autores concluem que a dispepsia funcional está associada com distúrbios do sono, particularmente em pessoas com sintomas mais graves e maiores níveis de ansiedade.

 

Aplicações para a prática clínica

Pacientes com dispepsia funcional, particularmente os casos mais refratários, com frequência apresentam outras alterações funcionais e somáticas e, não raro, apresentam quadros ansiosos associados. Este estudo vem corroborar a impressão clínica já presente na maioria dos clínicos que atendem pacientes com este perfil, entretanto não fornece nenhuma informação a respeito das relações causais da dispepsia funcional, dos transtornos de ansiedade e dos distúrbios do sono. Não se sabe se alterações do sono produzem sintomas dispépticos ou vice-versa, ou se ambos fazem parte de um quadro sintomático mais amplo. As alterações de sono encontradas nas pessoas com DF provavelmente contribuem para a redução do funcionamento físico e mental destes pacientes. O estudo levanta a hipótese de que exercícios físicos talvez possam reduzir as interrupções do sono em pessoas com dispepsia funcional.

Na opinião deste editor, alterações somáticas/funcionais, ansiedade, depressão e alterações do sono frequentemente se associam, e é possível que a presença de um piore as manifestações dos outros. Dessa forma, o entendimento global da situação do paciente é essencial para o tratamento destes sintomas. Intervenções pontuais para tratar os sintomas dispépticos, a insônia ou a ansiedade terão pouco resultado no bem-estar geral destes pacientes, sobretudo no longo prazo. Uma abordagem multiprofissional, que inclua questões envolvendo muito mais que os sintomas expressos nas consultas, talvez seja mais efetiva que a abordagem médica tradicional. Os aspectos psicodinâmicos, familiares, laborais, socioeconômicos, culturais e religiosos devem ser levados em conta em pacientes que apresentam quadros desta natureza.

 

Glossário

Critérios de Roma III: são os critérios para dispepsia funcional definidos no Consenso de Roma III.

Dispepsia funcional: é caracterizada por sintomas dispépticos com duração mínima de 12 semanas, contínuos ou recidivantes, durante os últimos seis meses, sem causa orgânica demonstrável. Para excluir as causas orgânicas, o que é necessário para o diagnóstico da dispepsia funcional, são realizados exames laboratoriais e de imagem. Dentre os mais importantes, estão:

 

         endoscopia digestiva alta (EDA), para afastar causas orgânicas, como úlceras e tumores;

         ultrassonografia (USG) abdominal, para afastar causas biliares, inflamatórias e tumorais.

 

É importante ressaltar duas condições distintas, muitas vezes tomadas como sinônimos:

 

1.     Dispepsia não investigada – pacientes com sintomatologia dispéptica cuja natureza (funcional ou orgânica) ainda não foi estabelecida. Excluem-se os casos de doença do refluxo gastresofágico (DRGE) e os associados ao uso de anti-inflamatórios não hormonais (AINH). Quando não há sinais de alarme e a idade é inferior a 45 anos, geralmente indica-se o tratamento empírico de curta duração (4 a 8 semanas) com inibidor da bomba de prótons (IBP). Como alternativa, pode-se pesquisar e tratar o H. pylori.

2.     Dispepsia funcional – pacientes cuja investigação diagnóstica, incluindo a endoscopia digestiva alta, não identificou causa possível para a sintomatologia. É importante frisar que a famosa gastrite enantemática de antro não é um critério para definir uma causa orgânica para a dispepsia. O achado de gastrite corrobora o diagnóstico de dispepsia funcional. Nestes casos, a erradicação do H. pylori revelou-se clinicamente eficaz apenas numa pequena parte dos casos (1 em cada 17, segundo metanálise recente)2 devendo ser ponderada em função das características de cada caso particular.

 

Bibliografia

1.     Lacy BE, Everhart K, Crowel MDl. Functional dyspepsia is associated with sleep disorders. Clin Gastroenterol Hepatol 2011; 9:410-14 [Link para Resumo] (Fator de impacto: 5.642).

2.     Moayyedi P, Soo S, Deeks J, Delaney B, Harris A, Innes M, et al. Eradication of Helicobacter pylori for non-ulcer dyspepsia. Cochrane Database Syst Rev 2005; 25(1):CD002096 [Link para Resumo].

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