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O valor e a eficácia da medicina de emergência

Autores:

Rodrigo Antonio Brandão Neto

Médico Assistente da Disciplina de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 07/12/2011

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Área de atuação: Medicina de Emergência

 

Especialidade: Emergências

 

Resumo

Uma revisão da literatura mostrando uma série de estudos comparando o desempenho e a custo-efetividade de emergencistas de formação vs. não emergencistas na realização de vários procedimentos no ambiente do pronto-socorro.

 

Contexto clínico

A provisão de cuidados de emergência é tão antiga como a própria prática da medicina, entretanto a disciplina de Medicina de Emergência (ME) e o desenvolvimento de sistemas integrados de provisão de cuidados de emergência são fenômenos muito mais recentes2. Antes da década de 1960, cuidados de emergência eram praticamente inexistentes mesmo em países desenvolvidos, não havia sistemas integrados de emergência, o sistema pré-hospitalar era inadequado, não existiam programas de treinamento específicos nem organizações dedicadas a promover a ME.

A ME foi reconhecida como especialidade médica pela primeira vez no Reino Unido em 1972. Nos EUA, o reconhecimento ocorreu em 1979 e, desde então, um número cada vez maior de países tem reconhecido a ME como especialidade médica3. Em 2006, 46 países já reconhecia a ME como especialidade e, atualmente, mais de 62 países já o fizeram formalmente2,3. Este reconhecimento internacional cada vez maior reflete as mudanças demográficas e epidemiológicas que têm ocorrido em países de todo espectro socioeconômico. As principais causas de morte e incapacidade atualmente são as doenças não transmissíveis (doenças cardiovasculares, cerebrovasculares, o câncer e o trauma) e os sistemas de provisão de cuidados de emergência focam especificamente nas consequências agudas de tais agravos, além das doenças transmissíveis. O valor de sistemas de cuidados de emergência ou de serviços de emergência conduzidos por especialistas em ME, bem como o valor do treinamento específico em ME, parecem tão evidentes em países que já têm a ME como especialidade há anos que não há uma necessidade ou motivação para provar, de forma sistemática, que sistemas ou serviços de emergência conduzidos por médicos emergencistas são mais efetivos e melhores que serviços conduzidos por médicos sem formação específica em Medicina de Emergência. Entretanto, em países nos quais o debate sobre a ME como especialidade está apenas começando, como é o caso do Brasil, a necessidade de evidências da maior eficácia das emergências conduzidas por emergencistas é premente. A presente revisão teve como objetivo identificar publicações na literatura médica que apoiem o valor da ME como especialidade médica, bem como o valor da provisão de cuidados de emergência por emergencistas treinados.

 

O estudo

Trata-se de uma revisão sistemática de estudos que compararam o desempenho e a custo-eficácia de procedimentos realizados por emergencistas com formação específica e não emergencistas, assim como custos operacionais e eficiência em resolução de diferentes problemas. Nesta revisão, os autores utilizaram o termo “valor” com dois significados:

 

       eficácia dos cuidados clínicos – no sentido de se atingir os desfechos desejados para os pacientes;

       eficiência – no sentido de custo-efetividade na utilização de recursos da saúde para a provisão de cuidados de emergência.

 

Foram encontrados 285 estudos, dos quais 282 apresentaram resultados positivos para pacientes tratados pelo especialista em emergências e apenas três estudos apresentaram resultados negativos. Os 282 estudos positivos foram categorizados em tópicos conforme o tipo de avaliação de eficácia ou valor:

 

       cuidados críticos e procedimentos (31 artigos);

       custo-efetividade (30 artigos);

       saúde pública e medicina preventiva (34 artigos);

       radiologia (11 artigos);

       trauma e manejo de vias aéreas (27 artigos);

       uso de ultrassonografia (USG) na emergência (56 artigos);

       presença de assistente/docente em ME (34 artigos);

       residências de ME (24 artigos);

       editoriais e perspectivas sobre a eficácia e/ou valor da ME (35 artigos).

 

Entre os benefícios demonstrados, foram encontrados:

 

       diminuição de custos tanto para consultas consideradas urgentes, como principalmente para consultas não urgentes atendidas em serviço de emergência;

       diminuição do tempo de espera e lotação em serviços de emergência;

       desempenho dos emergencistas igual ou superior ao dos radiologistas em uso de USG de emergência, assim como para diagnóstico de afecções cirúrgicas de emergência em comparação com o cirurgião-geral;

       melhor desempenho e diminuição de custos em unidades de dor torácica no serviço de emergência em comparação com unidade instalada em outro departamento do hospital;

       melhor indicação de internação e internações de maior rentabilidade para o serviço.

 

Aplicações para a prática clínica

O número de países que reconheceram ME como especialidade já passa de 60, com quase todas as maiores economias do mundo reconhecendo-a como uma especialidade médica. No Brasil, entretanto, o reconhecimento parece distante. Enquanto outras especialidades menos relevantes são criadas, a Medicina de Emergência se torna uma área de atuação em clínica médica, cuja formação é certamente insuficiente para treinar um emergencista de alto nível.

No Brasil, já existem dois programas de residência médica em Medicina de Emergência, no Rio Grande do Sul e no Ceará. Estes programas foram criados em função das necessidades de saúde específicas destes locais e resultaram em programas de sucesso. Ainda assim, estas residências têm sido contestadas, inclusive a legalidade destes programas e seus responsáveis têm sido ameaçados por processos jurídicos, pois a Medicina de Emergência ainda não é considerada uma especialidade. A criação da residência médica em Medicina de Emergência antecedeu em anos a sua transformação em especialidade médica na maioria dos países que atualmente a reconhece como especialidade, e isto não causou nenhum grande problema nestes locais. Nos EUA, por exemplo, a residência em Emergências existiu por 10 anos antes de a especialidade ser reconhecida oficialmente, mas no Brasil, infelizmente, as residências não são criadas conforme as necessidades de saúde da população, mas conforme decisões que seguem outros critérios, sobretudo políticos.

Espera-se que a conscientização dos meios médico e político, pautada pelo grande corpo de evidências que se forma, crie as condições necessárias para a criação da especialidade de Medicina de Emergência no Brasil. Isto, sem dúvida, resultará em profissionais mais qualificados, com melhor desempenho e mais motivação, com consequente melhora de nossos serviços de emergência.

 

Bibliografia

1.   Holliman CJ, Mulligan TM, Suter RE, Cameron P, Wallis L, Anderson PD, et al. The efficacy and value of emergency medicine: a suportive literature review. Int J Med 2011 Jul 22; 4:44 [Link para o Abstract]

2.   Anderson P, Petrino R, Halpern P, Tintinalli J. The globalization of emergency medicine and its importance for public health. Bull World Health Org 2006; 84(10):835-9.

3.   Anderson P, Hegedus A, Ohlen G, Holliman CJ, Williams D, Suter R. Worldwide growth of Emergency Medicine as a recognized medical specialty. Acad Emerg Med 2011; 18(5):S22-S23, (abstract).

 

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