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Aumento do risco de suicídio e de morte cardiovascular após o diagnóstico de câncer

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 20/08/2012

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Área de atuação: Medicina ambulatorial

 

Especialidade: Medicina Interna, Medicina de Família e Comunidade, Oncologia

 

Resumo

Nesse interessante estudo observacional, autores suecos observaram que houve um aumento relativo do risco de suicídio (mais de 10 vezes) e de morte por causas cardiovasculares (mais de 5 vezes) na semana imediatamente após o diagnóstico de câncer, permanecendo elevado até 1 ano após o diagnóstico.

 

Contexto clínico

Um amplo corpo de evidências sugere quealtos níveis de estresse e sintomas psiquiátricos entre pacientes que recebem um diagnóstico de câncer. Há também evidências mostrando que pacientes com câncer apresentam risco aumentado de suicídio e de eventos cardiovasculares, entretanto estes achados têm sido interpretados como sendo consequência do tratamento ou do peso de viver com um câncer progressivo.

Embora pareça plausível que o estresse psicológico associado ao diagnóstico de câncer em si possa resultar nestes eventos graves, poucos estudos avaliaram o período imediatamente após o diagnóstico de câncer. Sendo assim, os autores do presente estudo avaliaram a incidência de suicídio e morte cardiovascular na primeira semana após o diagnóstico de câncer numa grande coorte sueca, partindo da hipótese de que o recebimento de um diagnóstico de câncer é uma experiência traumática que pode desencadear consequências adversas imediatas de saúde para além dos efeitos da doença e do tratamento.

 

O estudo

Trata-se uma coorte retrospectiva envolvendo 6.073.640 suecos que foi avaliada utilizando-se modelos de regressão binomial negativa e de Poisson para examinar as associações entre um diagnóstico de câncer e o risco imediato de suicídio ou morte por causas cardiovasculares, de 1991 a 2006. Também foram realizadas outras análises para reduzir a influência de confundidores não medidos.

Comparado aos pacientes sem diagnóstico de câncer, o risco relativo (RR) de suicídio entre aqueles que receberam um diagnóstico de câncer foi de 12,6 (IC95% 8,6 – 17,8) durante a primeira semana após o diagnóstico (incidência de 2,50 por 1.000 pessoas-ano) e 3,1 (IC95% 2,7 – 3,5) durante o primeiro ano após o diagnóstico (incidência 0,6 por 1.000 pessoas-ano). O risco relativo de morte cardiovascular após o diagnóstico foi de 5,6 (IC95% 5,2 – 5,9) na primeira semana (incidência de 116,80 por 1000 pessoas-ano) e 3,3 (IC95% 3,1 – 3,4) no primeiro mês (incidência de 65,81 por 1000 pessoas-ano). As elevações de risco diminuíram rapidamente durante o primeiro ano após o diagnóstico de câncer. As elevações de risco foram particularmente importantes para cânceres com prognóstico reservado.

Os autores desta grande coorte concluíram que pacientes que tiveram recentemente um diagnóstico de câncer apresentaram risco aumentado de morte por suicídio e por causas cardiovasculares comparados aos pacientes sem esse diagnóstico.

 

Aplicações para a prática clínica

Este estudo é muito interessante e nos traz uma série de informações úteis para a prática diária. Talvez uma das mais importantes seja a confirmação de que um diagnóstico de câncer é um evento extremamente estressante na vida das pessoas, com consequências graves (morte) que parecem não estar ligadas diretamente ao câncer e seu tratamento. Isto nos leva a crer que o diagnóstico de câncer deveria ser acompanhado de suporte social, médico e psicológico adequados. Além disso, o estudo abre uma série de possibilidades a serem estudadas, como por exemplo, se existe alguma via comum para câncer, suicídio e doença cardiovascular.

Contudo, dentre as muitas informações que este estudo mostra, vale ressaltar uma possibilidade que seria capaz de corroborar e contribuir com a ideia de que o rastreamento de câncer nem sempre é benéfico. Tome-se como exemplo uma pessoa saudável e assintomática que decide submeter-se ao rastreamento de um câncer qualquer. Após, os exames confirmatórios, descobre-se que ela está com câncer, ou seja, ela recebe o diagnóstico de câncer. Pelos dados do presente estudo, seu risco de cometer suicídio será 12,6 vezes maior na primeira semana e seu risco de morrer de doença cardiovascular (p. ex., infarto) será 5,6 vezes maior na primeira semana. O prognóstico desta pessoa previamente saudável pode mudar em 1 semana após o diagnósticoprecoce” de câncer. Por outro lado, imagine-se que esse “câncer” diagnosticado seja um sobrediagnóstico (ver Glossário) ou pseudodoença. A situação seria ainda pior, pois um diagnóstico desnecessário e sem nenhum benefício seria responsável por um aumento do risco de morte por suicídio e por causas cardiovasculares.

Assim, para além das informações a respeito da necessidade de suporte psicológico e social para pacientes oncológicos, os dados deste estudo podem ser úteis na luta contra o excesso de intervenções na prática médica.

 

Glossário

Sobrediagnóstico (overdiagnosis): também chamado de pseudodoença. É uma condição que não teria se manifestado se não tivesse sido detectada por rastreamento ou por exames solicitados por outra indicação ou por exames desnecessários. Pode regredir espontaneamente, permanecer subclínica ou progredir tão lentamente que outra doença levará o paciente a óbito primeiro. É importante porque gera uma série de danos e malefícios e, por sua própria definição, não oferece nenhum benefício ao paciente. Ocorre até mesmo em situações cujo rastreamento se mostrou eficaz em reduzir a mortalidade. Tem o risco de se tornar um sério problema de saúde pública em virtude do número cada vez maior de rastreamentos e exames desnecessários solicitados pelos médicos.2,3

 

Referências bibliográficas

1.   Fang F, Fall K, Mittleman MA, Sparén P, Ye W, Adami HO et al. Suicide and cardiovascular death after a cancer diagnosis. N Engl J Med 2012; 366(14):1310-18. (Link para Resumo)

2.   Lauer MS. Pseudodisease, the next great epidemic in coronary atherosclerosis? Arch Intern Med 2011; 171(14):1268-69. (Link para o Resumo)

3.   Kalager M, Adami HO, Bretthauer M, Tamimi RM. Overdiagnosis of invasive breast cancer due to mammography screening: results from the Norwegian Screening Program. Ann Intern Med 2012; 156(7):491-9. (Link para o Resumo)

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