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Impacto das Dietas da Moda na Perda de Peso

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado pela Disciplina de Emergências Clínicas Faculdade de Medicina da USP; Médico e Especialista em Clínica Médica pelo HC-FMUSP; Diretor Científico do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP); Membro da Academia Brasileira de Medicina Hospitalar (ABMH); Assessor da Diretoria Médica do Hospital Samaritano de São Paulo.

Última revisão: 06/03/2015

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Contexto Clínico

        A sociedade moderna tem a perda de peso como um padrão a ser atingido, quase que como algo religioso. Uma diversidade de dietas vem surgindo com promessas de perda de peso, associado a outros ganhos como controle de pressão, níveis de colesterol e glicemia. Algumas são particularmente famosas, e estas dietas da “moda” chegam a movimentar mais de 60 bilhões de dólares/ano nos EUA. São elas as dietas Atkins, South Beach (SB), Zone e os Vigilantes do Peso (VsP).

        Cada dieta tem a sua própria filosofia e macronutrientes alvos. A dieta Atkins é uma dieta de quatro fases com base em muito baixa ingesta de carboidratos, com consumo de proteínas e gorduras ilimitados. A dieta SB é uma dieta modificada de três fases com baixo consumo de carboidratos e alto consumo de proteínas. Ela se concentra em controlar a ingestão de carboidratos, em comer proteínas magras,  gorduras mono ou poli-insaturadas e carboidratos de baixo índice glicêmico. O sistema dos VsP é um plano de modificação alimentar, de atividades físicas e comportamento que usa um sistema de pontos personalizado para fornecer restrição da ingestão calórica e sessões em grupo semanais liderados por egressos do plano. A dieta Zone é uma dieta pobre em carboidratos, que recomenda o consumo de proteínas de baixo teor de gordura, carboidratos com baixa carga glicêmica, e pequenas quantidades de gordura boa (por exemplo, azeite de oliva, abacate).

         O objetivo do estudo foi examinar a eficácia destas quatro dietas em promover perda de peso e melhorar os fatores de risco cardiovascular (isto é, medidas antropométricas, perfis lipídico, pressão arterial e glicemia), com um foco particular sobre a perda de peso sustentada em = 12 meses.

 

O Estudo

         Foi feita uma revisão de estudos no MEDLINE, EMBASE e na Biblioteca Cochrane de Ensaios Clínicos para identificar ensaios clínicos randomizados (ECR), publicado em Inglês, com seguimento = 4 semanas, e que examinaram os efeitos dessas quatro dietas populares na perda de peso e fatores de risco cardiovascular. Foram identificados 12 ensaios clínicos randomizados (n = 2559), com seguimento = 12 meses: 10 de comparação com dietas habituais (5 com dieta Atkins, 4 de VsP, e 1 de SB) e 2 de comparação entre dietas (1 de Atkins, VsP e Zone, e 1 de Atkins, Zone, e dieta controle). Com 12 meses, os 10 ensaios clínicos randomizados que comparam dietas populares contra cuidados habituais revelou que apenas a dieta dos VsP foi consistentemente mais eficaz na redução de peso (faixa de variações médias: -3,5 a -6,0 kg contra -0,8 a -5,4 kg; P <0,05). No entanto, os ensaios clínicos randomizados de comparação entre dietas sugerem que a dieta Atkins (variação: -2,1 a -4,7 kg), a dieta dos VsP (-3,0 kg), a dieta Zone (-1,6 a -3,2 kg), e dieta controle (-2,2 kg), todos alcançaram modesta perda de peso a longo prazo. Dados de vinte e quatro meses sugerem que o peso perdido com a dieta Atkins ou dos VsP é parcialmente recuperado ao longo do tempo.

  

Aplicações Práticas

          Não é novidade que a obesidade se tornou um problema de saúde pública em diversos países do mundo, uma vez que a obesidade está associada a outros fatores de risco cardiovascular, e sendo assim, causa impacto em mortalidade. Também não é novidade que há um “consumismo” por dietas para atingir modelos estéticos “da moda”. Estas duas vertentes apontam para a necessidade de se conhecer o impacto de modelos de controle dietético que possam ter impacto na população, e, quem sabe, podendo se estabelecer qual a melhor recomendação nesse sentido.

Muitas dietas vem se tornando “moda”, porém seus resultados midiáticos em função de figuras públicas que as utilizam podem não ser aplicáveis populacionalmente. Não se sabe também se há alguma dessas dietas que tem impacto de longo prazo na sustentação do peso, ou mesmo algum impacto em fatores de risco cardiovascular.

         A presente revisão sistemática sobre estas dietas “da moda” nos ajuda de alguma forma. Os dados disponíveis sobre a eficácia de dietas comerciais populares são limitados e heterogêneo, com dois ensaios cabeça-a-cabeça sugerindo que as dietas Atkins, a dieta dos Vigilantes do Peso, e a dieta Zone conseguem gerar perdas de peso modestas e semelhantes a longo prazo, bem como semelhante efeitos sobre os níveis de fatores de risco cardiovascular.

A popular dieta de South Beach só foi avaliada em um ensaio a longo prazo, que não encontrou nenhuma diferença na perda de peso contra uma dieta  usual, e nenhum dado foi relatado em seus efeitos sobre os níveis de fatores de risco cardiovascular.

        Apesar dos milhões de dólares gastos na indústria de perda de peso, os dados disponíveis são conflitantes e insuficientes para identificar uma dieta popular como sendo mais benéfica do que as outras. Aparentemente o esquema dos Vigilantes do Peso foi mais eficiente do que dietas habituais para perda de peso, talvez fruto da inclusão de atividade física e sessões de debate sobre comportamento dentro do esquema.

         É também importante salientar que pessoas que seguem estas dietas na população em geral tendem a ser mais preocupadas com a saúde, ou a ter hábitos mais saudáveis, e eventualmente até não são pessoas com sobrepeso ou obesidade (vide artistas e figuras públicas que divulgam estar usando tais dietas).

         Sendo assim, o que podemos concluir é que por hora o que influi a perda de peso deve ser uma mudança global de hábitos de vida, acesso à informação. Eventualmente devemos passar por uma discussão sobre a sociedade moderna, e o modo de vida que o ser humano tomou. Quando caçávamos nossa comida, morríamos cedo de infecções ou devorados por algum predador. Milhares de anos depois, já não morremos da maioria das infecções, e nossa caça eventualmente está restrita a procurar o que há na geladeira. Como balancear as coisas? Como sobreviveremos mais e melhor? Perguntas filosóficas, mas que trazem a necessidade de se discutir os hábitos do ser humano moderno, e como devemos modificá-los para melhor.

   

Bibliografia

Atallah R, Filion KB, Wakil SM, Genest J, Joseph L, Poirier P, Rinfret S, Schiffrin E, Eisenberg MJ. The long-term effects of 4 popular diets on weight loss and cardiovascular risk factors: a systematic review of randomized controlled trials. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2014. 7; 815–827 (link para o artigo).

Katz DL. Diets, Diatribes, and a Dearth of Data. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2014. 7; 809-811.

 

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