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Dormir no sofá pode matar um bebê

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da USP.
Supervisor do Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente.

Última revisão: 15/04/2015

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Contexto Clínico

A síndrome da morte súbita infantil (SMSI) é uma das principais causas de mortalidade infantil após os primeiros 30 dias de vida. No Brasil estima-se 5 a 10 mortes para cada 10.000 crianças nascidas. A incidência de SMSI vem diminuindo com as orientações para não deixar o bebê dormir de bruços. No entanto, as taxas de outras mortes relacionadas ao sono infantis (por exemplo, sufocação, estrangulamento acidental e causas mal definidas) têm aumentado.

O risco de SMSI e outras mortes infantis relacionadas com o sono pode ser afetado pelo ambiente de sono das crianças, principalmente quando este ambiente pode ser considerado inseguro. Contribuem para este ambiente inseguro o uso de cama muito macia, o fato de colocar o bebê para dormir em algum lugar diferente de um berço (por exemplo, em um sofá), o compartilhamento de local do sono (por exemplo, quando uma criança está dormindo na mesma superfície que um adulto). Muitas crianças continuam sendo  colocadas para dormir em ambientes inseguros. O objetivo do estudo que apresentaremos é descrever os fatores ambientais e situacionais associados aos óbitos infantis em sofás, em comparação com outras mortes infantis relacionadas ao sono.

 

O Estudo

Foram analisados dados de óbitos infantis em sofás de 24 estados dos EUA entre 2004-2012 com base nos bancos de dados deste país. Os dados demográficos e ambientais para mortes em sofás foram comparados com dados de óbitos infantis relacionados ao sono em outros locais.

Foram identificados um total de 1.024 mortes em sofás, sendo estas mortes 12,9% dos óbitos infantis relacionadas ao sono. Estas mortes em sofás tiveram mais chance de serem por asfixia ou estrangulamento acidental (OR: 1,9; IC95%: 1,6 – 2,3) ou de serem enquadradas em causa mal definida de morte (OR: 1,2; IC95%: 1,0 – 1,5). Para estes bebês que morreram em sofás, havia mais chance de que o bebê estivesse compartilhando a superfície com outra pessoa (OR: 2,4; IC95%: 1,9 – 3,0), que o bebê estivesse sido encontrado de lado (OR: 1,9; IC95%: 1,4 – 2,4), que o local não fosse seu habitual de dormir (OR: 6,5; IC95%: 5,2 – 8,2), e que houvesse exposição à fumaça (cigarro) no pré-natal (OR: 1,4; IC95%: 1,2 – 1,6). Os dados sobre o consumo recente de álcool e drogas dos pais não estavam disponíveis.

 

Aplicações Práticas

Este estudo observacional demonstra claramente quais são os fatores associados a morte de bebês em sofás, dentro do contexto de morte súbita infantil. O sofá é uma superfície de sono extremamente perigosa para crianças. O estudo demonstrou que mortes em sofás estão associadas à partilha de superfície (normalmente com um adulto que está cuidando da criança), em estar dormindo de lado e do local não ser o habitual da criança dormir (normalmente é o berço em um quarto). É bastante simples imaginar porque estas mortes acontecem. A superfície do sofá não é lisa, muitas vezes tem desníveis e reentrâncias nas quais o bebê pode se encaixar e se asfixiar. Um adulto dormindo ao lado pode se sobrepor à criança causando asfixia. A criança pode rolar e não conseguir voltar para a posição inicial, ficando de lado, ou eventualmente de bruços.

Outra coisa que chama atenção nos resultados do estudo é que houve mais chance de verificar exposição a tabaco pré-natal para os bebês que morreram nos sofás. Isso denota famílias com menor cuidado em relação à gestação e a cuidados, provavelmente refletindo uma condição social pior. Um dado que não colocamos nos resultados por serem muito específicos é que estas mortes em sofás foram mais associadas a famílias hispânicas. Nos EUA, tendem  a ter mais baixa renda, o que corrobora a ideia do contexto social como fator de risco para mortes de bebês em sofás.

Sendo assim, este estudo vem demonstrar como informação e educação para prevenir mortes infantis evitáveis é fundamental, principalmente em estratos sociais menos favorecidos, com criação de campanhas e políticas públicas nesse sentido.

 

Bibliografia

Rechtman LR et al. Sofas and infant mortality. Pediatrics 2014 Nov; 134:e1293 (link para o artigo).

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