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Consumo de Álcool e Apresentação Inicial de 12 Doenças Cardiovasculares

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado pela Disciplina de Emergências Clínicas Faculdade de Medicina da USP; Médico e Especialista em Clínica Médica pelo HC-FMUSP; Diretor Científico do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP); Membro da Academia Brasileira de Medicina Hospitalar (ABMH); Assessor da Diretoria Médica do Hospital Samaritano de São Paulo.

Última revisão: 26/05/2017

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Contexto Clínico

 

O consumo de álcool e o seu impacto em doenças provocam muitas discussões na literatura. Acredita-se que o consumo moderado esteja associado a um menor risco de o indivíduo desenvolver doenças cardiovasculares quando em comparação com a abstinência completa ou o consumo excessivo de álcool.

Há muitas controvérsias sobre o assunto, bem como sobre um possível efeito protetor, pois há influência de doenças em pacientes que bebem ocasionalmente ? o que faz com que esse grupo deixe de beber, gerando um efeito artificial sobre o risco de doença cardiovascular e morte. Existem poucos estudos sobre o papel do consumo de álcool na etiologia de doenças cardiovasculares específicas.

 

O Estudo

 

O objetivo do presente estudo é investigar a associação entre consumo de álcool e doença cardiovascular, examinando a apresentação inicial de doze doenças cardíacas, cerebrovasculares, abdominais ou periféricas em cinco categorias de consumo. Para tanto, foi realizado um estudo de coorte de base populacional de registros de saúde eletrônicos vinculados a cuidados primários, admissões hospitalares e mortalidade entre 1997 e 2010 (seguimento médio: 6 anos). No total, o estudo teve 1.937.360 adultos incluídos (51% deles eram mulheres), =30 anos, que estavam livres de doença cardiovascular no início do estudo.

O principal desfecho medido foi a manifestação sintomática de doze doenças cardiovasculares comuns, incluindo angina estável crônica, angina instável (AI), infarto agudo do miocárdio (IAM), morte coronariana não confirmada, insuficiência cardíaca (IC), morte coronariana súbita/parada cardíaca, ataque isquêmico transitório (AIT), acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, hemorragia intracerebral e subaracnóidea, doença arterial periférica (DAP) e aneurisma da aorta abdominal (AAA).

Dentre os participantes, 114.859 receberam um diagnóstico cardiovascular incidente durante o seguimento. O não consumo de álcool foi associado a um risco aumentado de AI (Hazard Ratio 1,33; IC 95%, 1,21?1,45), IAM (Hazard Ratio 1,32; IC 95%, 1,24?1,4), morte coronariana súbita (Hazard Ratio 1,56; IC 95%, 1,38?1,76), IC (Hazard Ratio 1,24; IC 95%, 1,11?1,32), AAA (Hazard Ratio 1,32; IC 95%, 1,17?1,49) em comparação com o consumo moderado (consumo semanal no Reino Unido/diretrizes diárias de consumo para homens e mulheres).

O consumo excessivo de bebidas alcoólicas (excedendo as diretrizes) conferiu maior Hazard Ratio de morte coronariana não anunciada (Hazard Ratio 1,21; IC 95%, 1,08?1,35), IC (Hazard Ratio 1,22; IC 95%, 1,08?1,37), parada cardíaca (Hazard Ratio 1,50; IC 95%, 1,26?1,77), AIT (Hazard Ratio 1,11; IC 95%, 1,02?1,37), AVC isquêmico (Hazard Ratio 1,33; IC 95%, 1,09?1,63), hemorragia intracerebral (Hazard Ratio 1,37; IC 95%, 1,16?1,62), e DAP (Hazard Ratio 1,35; IC 95%, 1,23?1,48), mas um menor risco de infarto (Hazard Ratio 0,88; IC 95%, 0,79?1,00), ou angina estável (Hazard Ratio 0,93; IC 95%, 0,86?1,00).

 

Aplicação Prática

 

O foco desse estudo observacional de coorte ? o que dá peso ao seu resultado, apesar de retrospectivo ? é fornecer dados de base para a discussão sobre consumo de álcool entre médicos e pacientes ou mesmo a sociedade. Os resultados indicam que o consumo moderado de álcool está associado a um menor risco de apresentar, inicialmente, diversas, porém não todas, doenças cardiovasculares.

Da mesma forma, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas está relacionado a uma série dessas doenças. Isso demonstra uma curva em “U” da relação entre o consumo de álcool e a incidência de doenças cardiovasculares ? o que tem implicações para o aconselhamento de pacientes, comunicação de saúde pública e algoritmos de previsão de doenças, sugerindo a necessidade de uma abordagem mais diferenciada para o papel do consumo de álcool na prevenção de doenças cardiovasculares.

Obviamente, não será função dos médicos incentivar o consumo de álcool; está claro, entretanto, que a orientação e a discussão com o paciente que consome álcool e quer entender os seus riscos podem melhorar com essa evidência.

 

 

Bibliografia

 

Bell S et al. Association between clinically recorded alcohol consumption and initial presentation of 12 cardiovascular diseases: population based cohort study using linked health records. BMJ 2017;356:j909.

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