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Crepitações em idosos

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 03/09/2008

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Crepitações em idosos sem sintomas cardiovasculares

 

Crepitações pulmonares relacionadas à idade em pacientes sem sintomas cardiovasculares.

Kataoka H, Matsuno O. Age-related pulmonary crackles (Rales) in asymptomatic cardiovascular patients. Ann Fam Med 2008; 6:239-245 [link livre para o artigo original].

 

 

Fator de Impacto da Revista: 3,803

Contexto Clínico

            A presença de Crepitações pulmonares relacionadas à idade pode interferir no manejo clínico de pacientes com suspeita de insuficiência cardíaca, além de potencialmente medicalizar o idoso com risco de iatrogenia. Pouco se sabe sobre esta questão nestes pacientes que tem um risco elevado para desenvolver insuficiência cardíaca, mas que não apresentam lesão estrutural cardíaca nem sintomas de insuficiência cardíaca. O presente estudo foi um estudo observacional prospectivo, embora seus achados principais tenham sido obtidos de sua porção transversal (no momento do início do acompanhamento). Assim para fins didáticos podemos considera-lo um estudo observacional  de prevalência (vide Dicas de Medicina Baseada em Evidências abaixo).

 

O Estudo

            Após exclusão de comorbidades pulmonares e outras doenças críticas, 274 pacientes, nos quais o coração estava estruturalmente (Ecodopplercardiograma normal) e funcionalmente (BNP - peptídeo natriurético tipo-B < 80 pg/dl) normal, e os pulmões (Rx tórax normal) estavam normais, foram incluídos para análise. Todos os pacientes foram auscultados por um médico senior que estava cego para os resultados do Rx tórax e do Ecocardiograma. Apenas crepitações inspiratórias que persistiam durante vários ciclos respiratórios consecutivos foram consideradas positivas, uma vez que alguns estudos mostram que crepitações basais ocorrem com muita freqüência durante as primeiras inspirações profundas mesmo em indivíduos jovens normais. A seleção dos pacientes passou por três fases. Na primeira, pacientes com mais de 45 anos com risco elevado para insuficiência cardíaca (hipertensos, diabéticos, dislipidêmicos) foram selecionados, sendo excluídos os que tivessem queixas cardiopulmonares agudas, diagnóstico ou história de doença estrutural cardíaca, insuficiência cardíaca descompensada, doença pulmonar crônica, ou episódio recente (< 3 meses) de doença respiratória aguda. Numa segunda fase os pacientes selecionados realizaram exame físico, bioquímica, radiografia de tórax e eletrocardiograma de 12 derivações (ECG). Nesta fase foram excluídos pacientes com creatinina = 1,2 mg/dl, ECG alterado (fibrilação atrial ou bloqueio de ramo esquerdo) ou anormalidades na radiografia de tórax. Por fim, na terceira fase foram realizados Ecocardiograma e BNP, sendo excluídos os pacientes com alterações ao Ecocardiograma e os com BNP = 80 pg/dl.

 

Resultados

            Houve uma diferença significativa na freqüência de crepitações entre os pacientes nos grupos de mais baixa idade (45-64 anos; n = 97; 11%; IC 95%, 5%-18%), média idade (65-79 anos; n = 121; 34%; IC 95%, 27%-40%) e maior idade (80-95 anos; n = 56; 70%; IC 95%, 58%-82%)(p < 0,001). O risco de se auscultar crepitações aumentou três vezes para cada 10 anos após os 45 anos de idade. A idade foi o único preditor independente para a presença de crepitações (também foram avaliadas insuficiência venosa de mmii, edema de mmii, creatinina sérica e BNP sérico). Interessantemente, edema de mmii esteve fortemente associado à insuficiência venosa de mmii, nesta população de indivíduos sem doença cardíaca estrutural Durante um acompanhamento médio de 11 meses, a reprodutibilidade no curto prazo (= 3 meses) da ausculta com crepitações foi de 87%. A ocorrência de eventos cardiopulmonares durante o seguimento incluiu 5 pacientes com doença cardíaca e 6 pacientes com doença pulmonar.

 

Aplicação Para a Prática Clínica

            O reconhecimento das crepitações relacionadas à idade é muito importante, uma vez que este achado sem importância clínica é muito comum em idosos, e pode interferir no manejo clínico de pacientes idosos com doença cardiovascular, além de poder levar à iatrogenia em idosos sem doença cardiovascular, medicalizando um grupo de pacientes frágeis, muito susceptíveis. É interessante notar que neste mesmo estudo edema de mmii esteve fortemente relacionado à presença de insuficiência venosa de mmii, o que pode confundir ainda mais o médico desprevenido que se depara com um idoso com Crepitações pulmonares e edema de mmii. Este editor recomenda, com base nos achados deste estudo, que achados de exame físico, particularmente as crepitações, em idosos sem sintomas clínicos de insuficiência cardíaca e de doença respiratória sejam avaliados cautelosamente sob o risco de se causar mais malefício do que benefício ao paciente.

 

Dicas de Medicina Baseada em Evidências e Epidemiologia

Estudos de Prevalência:

            Estudos de prevalência são estudos observacionais descritivos em que um grupo de indivíduos é avaliado para a freqüência (prevalência) de determinada característica, que pode ser um fator de risco, uma doença, um sintoma ou um achado de exame físico (como no caso do presente estudo). As freqüências de inúmeras variáveis podem ser avaliadas em subgrupos de pacientes e comparadas com o objetivo de se hipotetizar sobre alguma relação de causalidade, entretanto este tipo de estudo, por avaliar as freqüências de todas as variáveis de forma transversal (no mesmo momento) não deve se utilizado para inferir causalidade. Relações de causalidade são melhor avaliadas em estudos longitudinais tipo coorte.

 

Bibliografia:

1 - Benseñor IM, Lotufo PA. Estudos Transversais. In “Epidemiologia. Abordagem Prática”. Isabela M. Benseñor, Paulo A. Lotufo, Sarvier, 2005.

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