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Omega 3

Última revisão: 15/04/2019

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Autor: Vitor Maia Teles Ruffini

 

Contexto Clínico

 

O uso de ácidos graxos polinsaturados de cadeia leve (Ômega 3) já foi recomendado para cardioproteção pela American Heart Association (AHA). Atualmente, seu uso é considerado razoável apenas para pacientes que sofreram um infarto agudo do miocárdio (IAM) pelo potencial de reduzir morte por doença arterial coronariana (DAC).

Essas recomendações são embasadas em escassa evidência, oriunda, sobretudo, de estudos observacionais e pequenos ensaios clínicos que demonstraram benefício com uso de suplementos de Ômega 3, a base de óleo de peixe, na profilaxia primária de doenças cardiovasculares (DCVs). Contudo, estudos maiores realizados no contexto da profilaxia secundária ou em populações de alto risco obtiveram resultados inconsistentes. O mesmo se aplica a seu uso para redução do risco de neoplasias.1,3

Apesar de o uso de suplementos de Ômega 3 ser popular entre a população geral, o seu papel na profilaxia primária de DCV e câncer ainda é incerto nesta. Dessa forma, o objetivo do presente ensaio clínico foi avaliar a relação entre suplementação de Ômega 3 e o risco de DCV e câncer, assim como avaliar o perfil de risco e benefício dessa intervenção.1

 

O Estudo

 

O VITAL Trial foi um ensaio clínico fatorial 2x2 (ensaio clínico que testa duas intervenções simultaneamente em uma mesma amostra da população), randomizado, duplo-cego e placebo controlado. Este estudo comparou a eficácia da suplementação de vitamina D3 2000UI por dia e/ou Ômega 3, 1g/dia (cápsulas de óleo de peixe na dose sugerida pela AHA) para profilaxia primária de eventos cardiovasculares e câncer em comparação ao placebo.1

Foram incluídos homens de 50 anos ou mais e mulheres de 55 anos ou mais que não tinham história prévia de DCV ou câncer e residiam nos EUA. Foram excluídos pacientes com insuficiência renal ou em diálise, cirrose, história de hipercalcemia ou outras doenças graves. O estudo foi financiado pelo National Institute of Health (NIH). Os resultados referentes à suplementação de vitamina D foram descritos em outro artigo publicado no NEJM.1,2

Os desfechos primários foram eventos cardiovasculares maiores, um composto de IAM, acidente vascular cerebral (AVC) e morte por causas cardiovasculares, e câncer invasivo de qualquer tipo. Os desfechos secundários foram o desfecho primário acrescido de necessidade de revascularização miocárdica, os componentes individuais do desfecho primário composto de eventos cardiovasculares maiores, ocorrência de câncer colorretal, de próstata ou mama e morte por câncer de qualquer tipo.1,2

A análise estatística previa avaliação de interação entre as duas intervenções (uso de vitamina D concomitante ou não), mas não previa ajuste para múltiplas comparações.1,2 Foram incluídos 25.871 pacientes randomizados para receber Ômega 3 e vitamina, Ômega 3 e placebo, vitamina D e placebo ou duplo placebo. Houve discreta predominância do sexo feminino (51%), com idade média de 67,1 anos. A mediana de IMC foi 28,1 (± 5,7). Uma parcela significativa dos pacientes era hipertensa (50%) e estava em uso de hipolipemiantes (37%). Cerca de 13% dos pacientes eram diabéticos e 7%, tabagistas ativos. Durante o período de seguimento (mediana de 5,3 anos), a aderência autorreferida pelos pacientes foi superior a 80%. Não houve interação entre Ômega 3 e vitamina D.1,2

Não houve diferença significativa entre os grupos (Ômega 3 versus placebo) para o desfecho primário de eventos cardiovasculares maiores (HR 0,92/IC 95%, 0,80 a 1,06/p = 0,24). Na análise dos desfechos cardiovasculares secundários, observou-se redução significativa de IAM total (HR 0,72/IC 95%, 0,59 a 0,90), necessidade de angioplastia (HR 0,78/IC 95%, 0,63 a 0,95), DAC total (HR 0,83/IC 95%, 0,71 a 0,97) e morte por IAM (HR 0,50/IC 95%, 0,26 a 0,97).1

Não houve diferença significativa entre os grupos para o desfecho primário de câncer invasivo de qualquer tipo (HR 1,03/IC 95%, 0,93 a 1,13/p = 0,56). Também não houve diferença significativa na análise dos diferentes desfechos secundários relacionados a câncer.1 A análise exploratória de subgrupos sugere que o benefício poderia ser maior em pacientes com histórico de baixo consumo de peixe na dieta. A incidência de eventos adversos foi semelhante entre os dois grupos, sem diferenças em sintomas gastrintestinais, sangramento maior ou outros eventos adversos graves.1

 

Aplicação Prática

 

O presente estudo concluiu que o uso de suplementos de Ômega 3 não resultou em menor incidência de eventos cardiovasculares maiores ou câncer invasivo de qualquer tipo quando comparado ao placebo. A análise de seus desfechos secundários sugere algum benefício para redução do risco de DAC e IAM. Contudo, esses resultados devem ser interpretados apenas como geradores de hipóteses, uma vez que provêm da análise de desfechos secundários que não foi ajustada para múltiplas comparações - inadequada, portanto, para permitir conclusões mais definitivas.

Os resultados deste ensaio clínico colocam em xeque o uso de suplementos de Ômega 3 para profilaxia primária de eventos cardiovasculares. Estes estão em consonância com metanálises recentes que avaliaram o papel do Ômega 3 na profilaxia de eventos cardiovasculares em adultos com DCV estabelecida ou alto risco para as mesmas. Adicionalmente, também está de acordo com o resultado do ASCEND Trial, que demonstrou que a suplementação de Ômega 3 em diabéticos não gerou benefícios na profilaxia de eventos cardiovasculares.

Contudo, é interessante observar que o presente estudo não avaliou o impacto do consumo de alimentos ricos em Ômega 3, não sendo possível extrapolar seus resultados para modificar recomendações dietéticas; logo, é aconselhável manter a recomendação do consumo de uma a duas porções de peixe por semana como componente de uma dieta saudável para cardioproteção.

 

Bibliografia

 

1.             Manson, J.E. Marine n-3 Fatty Acids and Prevention of Cardiovascular Disease and Cancer. N Engl J Med 2019; 380:23-32. Disponível em: https:/www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1811403

2.             Manson, J.E. Vitamin D Supplements and Prevention of Cancer and Cardiovascular Disease. N Engl J Med 2019; 380:33-44. Disponível em: https:/www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1809944?query=recirc_curatedRelated_article

3.             Manson, J.E. VITAL Signs for Dietary Supplementation to Prevent Cancer and Heart Disease. N Engl J Med 2019; 380:91-93. Disponível em: https:/www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMe1814933?query=recirc_curatedRelated_article

 

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