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Vitaminas e risco cardiovascular

Autor:

Euclides F. de A. Cavalcanti

Médico Colaborador da Disciplina de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Última revisão: 03/09/2008

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Ácido fólico e vitaminas do complexo B são ineficazes na redução para diminuição do risco cardiovascular

 

Efeito do ácido fólico e vitaminas do complexo B no risco de eventos cardiovasculares e morte em mulheres de alto risco para doença cardiovascular. Ensaio clínico randomizado.

Albert CM et al. Effect of Folic Acid and B Vitamins on Risk of Cardiovascular Events and Total Mortality Among Women at High Risk for Cardiovascular Disease: A Randomized Trial JAMA. 2008;299(17):2027-2036 [link livre para o PubMed].

 

Fator de Impacto da revista: 23,175

 

Contexto Clínico

            Estudos prévios mostraram que pacientes com hiperhomocisteinemia tiveram maior risco cardiovascular (1). Sabe-se também que a suplementação de ácido fólico e vitaminas do complexo B são capazes de reduzir estes níveis (2). Baseado nestes dados, muitos pacientes com homocisteína elevada passaram a ser tratados com estas vitaminas no intuito de reduzir esse risco. No entanto, os estudos randomizados realizados até o momento não demonstraram benefício nesta suplementação (3).

 

O Estudo

            Um total de 5542 mulheres acima de 42 anos e com risco cardiovascular aumentado (doença coronariana prévia ou 3 ou mais fatores de risco) foram randomizadas para tratamento com suplementação  vitamínica (ácido fólico, vit. B6 e vit. B12) ou placebo e seguidas por 7,3 anos.

 

Resultados

            Apesar de ter ocorrido queda de 18,5% nos níveis de homocisteína no grupo alocado para suplementação vitamínica quando comparado com o grupo placebo (IC 95% 12.5%-24.1%; p= 0.001), não houve diferença na incidência de IAM, AVC, revascularização coronária ou mortalidade cardiovascular entre os dois grupos.

 

Aplicação Para a Prática Clínica

             Baseado neste e outros estudos, não devemos suplementar vitaminas com objetivo de diminuição do risco cardiovascular. Nem tampouco devemos suplementar vitaminas com intuito de prevenir qualquer outra doença em indivíduos saudáveis e que se alimentem adequadamente. De fato, alguns estudos sugerem que pode até haver algum malefício, como um estudo que demonstrou que vitamina E em altas doses aumenta a mortalidade geral (4) e outros dois estudos que demonstraram que a suplementação de ß-caroteno aumenta o risco de câncer de pulmão em pacientes de alto risco (5 e 6). Exceção a esta regra seriam a suplementação de ácido fólico em mulheres grávidas ou com intenção de engravidar (diminuição de defeitos em tubo neural) e suplementação de cálcio e vitamina D em mulheres após a menopausa, para prevenção de osteoporose. Obviamente, esta regra não se aplica a pacientes com deficiências vitamínicas estabelecidas (ex: deficiência de vitamina B12, ácido fólico). Além disso, outros pacientes com motivos clínicos para deficiência vitamínica, como aqueles com alcoolismo, má absorção, histórico de cirurgia bariátrica provavelmente se beneficiam de suplementação com complexos vitamínicos, embora não seja claro qual a composição ideal nestes casos.

 

Dicas de Medicina Baseada em Evidências e Epidemiologia

           

Limitações de um estudo observacional e importância dos ensaios clínicos randomizados:

            Este é mais um exemplo de que devemos tomar muito cuidado em adotar intervenções terapêuticas baseado em estudos observacionais e fisiopatologia, sem que haja um estudo randomizado comprovando benefício. Ora, visto que a homocisteína elevada se associa a maior risco cardiovascular em estudos observacionais e que a suplementação vitamínica pode baixar estes níveis, seria lógico supor que a suplementação vitamínica fosse benéfica aos pacientes com risco cardiovascular elevado. No entanto, a homocisteína neste caso é provavelmente um marcador de risco cardiovascular e não um causador deste risco, visto que a diminuição de seus níveis não se traduziu em benefício.

            Logo, a fisiopatologia e os estudos observacionais são fundamentais para o conhecimento das doenças e para que se formulem novas hipóteses e propostas de tratamento, mas para que novas abordagens terapêuticas sejam incorporadas à prática clínica os achados devem ser confirmados por ensaios clínicos randomizados.

 

Bibliografia

1. Homocysteine Studies Collaboration. Homocysteine and risk of ischemic heart disease and stroke: a meta-analysis. JAMA. 2002;288(16):2015-2022 [link livre para o artigo original].

2. Homocysteine Lowering Trialists’ Collaboration. Lowering blood homocysteine with folic acid based supplements: meta-analysis of randomised trials. BMJ. 1998;316(7135):894-898 [link livre para o artigo original].

3. Bazzano LA, Reynolds K, Holder KN, He J. Effect of folic acid supplementation on risk of cardiovascular diseases: a meta-analysis of randomized controlled trials. JAMA. 2006;296(22):2720-2726 [Link Livre para o artigo Original]

4. Miller ER et al. Meta-analysis: high-dosage vitamin E supplementation may increase all-cause mortality. Ann Intern Med 2005 Jan 4;142(1):37-46 [Link Livre para o Artigo Original].

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