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Pancreatite aguda

Última revisão: 14/01/2019

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Autor: Pedro Henrique Ribeiro Brandes

 

 

Caso Clínico

 

Paciente do sexo masculino, de 54 anos de idade, dá entrada no pronto-socorro por queixa de dor abdominal epigástrica contínua, de forte intensidade há 1 dia. Localiza a dor com os dedos na região epigástrica com irradiação por todo o andar superior do abdome e região dorsal. Refere piora importante da dor após ingesta alimentar, estando inapetente e nauseado, sem ter apresentado vômitos, diarreia ou febre. Previamente hipertenso, dislipidêmico e portador de stent coronariano há 2 anos, em uso de losartana, 50mg/d; atorvastatina, 40mg/d; e ácido acetilsalicílico, 100mg/d, sem alergias conhecidas ou outras comorbidades. Durante os dias pregressos ao início do quadro, teve consumo significativo de álcool.

Ao exame físico, o paciente estava em regular estado, com fácies de dor, corado, desidratado 1+, eupneico, frequência respiratória (FR) 18RPM, taquicárdico, frequência cardíaca (FC), 104bpm, normotenso, pressão arterial (PA), 110/69mmHg, afebril, abdome plano, doloroso à palpação em epigástrio e com discreta defesa local, ruídos hidroaéreos difusamente reduzidos, porém presentes.

Na admissão, foi realizado eletrocardiograma - ECG (Figura 1) pelo antecedente cardiovascular, com FC mantida, sinusal, sem alterações dignas de nota. Feita hipótese de abdome agudo inflamatório (pancreatite, colecistite, doença ulcerosa péptica, hepatite aguda); foram solicitados: hemograma, proteína C-reativa (PCR), ureia, creatinina, lipase, amilase, transaminases hepáticas, triglicérides e cálcio total; o paciente foi mantido em jejum, hidratado com 1.000mL de soro fisiológico e analgesia com dipirona, 1.000mg, EV, seguido de morfina, 4mg, EV, com bom controle da dor; a ultrassonografia (USG) de abdome (Figuras 2 e 3) identificou aumento de volume e hipoecogenicidade difusos de pâncreas e presença de microcálculos de vesícula biliar. Foi feito diagnóstico de pancreatite aguda biliar leve, e o paciente foi internado em enfermaria para manejo da dor, hidratação e observação clínica.

 

ECG: eletrocardiograma.

Figura 1 - ECG.

 

 

USG: ultrassonografia.

Figura 2 -  USG de abdome.

 

USG: ultrassonografia.

Figura 3 - USG de abdome.

 

Discussão

 

A pancreatite aguda é um processo inflamatório do órgão comum a diversas etiologias, sendo que as mais frequentes são colecistopatia e etilismo crônico, respondendo por até ? dos casos. Seu diagnóstico é feito pela associação de quadro clínico, exames laboratoriais e de imagem. Outras etiologias menos comuns incluem hipertrigliceridemia superior a 1.000mg/dL, medicamentos, hipercalcemia, causas genéticas ou iatrogênico após colangiopancreatografia endoscópica retrógrada.

A apresentação clínica consiste em início súbito de dor abdominal epigástrica, contínua, podendo irradiar para o quadrante superior direito e dorso, associada a náuseas e vômitos. A maior parte dos pacientes terá resolução espontânea dos sintomas em poucos dias com tratamento de suporte; no entanto, até ? dos pacientes podem desenvolver complicações como necrose pancreática e pseudocisto e manifestações graves como choque e disfunção de múltiplos órgãos.

Ao exame físico, podem ser observadas redução de ruídos hidroaéreos e distensão abdominal, dor a palpação e defesa na região epigástrica. Complicações locais podem ser sugeridas com os inespecíficos sinais de Cullen e Fallen. Outros sinais de repercussão sistêmica, conforme a gravidade do quadro, incluem hipotensão, febre, dispneia e choque. Achados em exames complementares incluem elevação de enzimas pancreáticas amilase e lipase, de parâmetros inflamatórios como leucocitose, elevação de PCR e disglicemia, e de perda de líquido para o terceiro espaço com elevação de hematócrito, ureia e creatinina.

Em exames de imagem, mesmo a radiografia simples, podem ser identificados: atelectasia, derrame pleural, elevação de cúpula diafragmática, sinal do colo amputado. Na USG, o pâncreas apresenta-se aumentado e hipoecoico, também sendo possível avaliar a presença de litíase biliar. Já a tomografia computadorizada de abdome com contraste endovenoso, além de identificar sinais de pancreatite e fazer diagnóstico diferencial do quadro, é o exame de eleição para identificação de complicações locais de pancreatite.

A investigação etiológica deve ser feita a partir da história clínica, pesquisando-se cólica biliar/colecistopatia conhecida pregressa, consumo de álcool, hipercalcemia, hipertrigliceridemia, uso de medicações, trauma, realização de CPRE, perda inexplicada de peso e diabetes melito de início recente. A avaliação de gravidade do quadro pode ser feita conforme sinais vitais, disfunções orgânicas, idade, comorbidades e presença de complicações, existindo scores prognósticos que podem auxiliar, tais como Ranson, Balthazar e Apache II.

O tratamento da pancreatite aguda consiste majoritariamente em suporte, com hidratação endovenosa vigorosa, analgesia, internação em UTI de casos mais graves, jejum oral inicial com reintrodução progressiva de dieta conforme tolerabilidade, sendo que casos graves podem demandar nutrição enteral e parenteral pelo tempo prolongado de jejum oral necessário. Apesar do frequente surgimento de infecções tanto de necrose pancreática quanto extrapancreáticas em casos graves, não há indicação de antibioticoterapia profilática, que deve ser usada conforme a identificação de foco e pelo menor tempo necessário.

Em casos de etiologia biliar, a CPRE será indicada nos casos de colangite e obstrução de ducto biliar comum, assim como a realização de colecistectomia, preferencialmente durante a mesma internação. O manejo de complicações locais, tais como pseudocisto, necrose infectada, pseudoaneurisma, síndrome compartimental abdominal e trombose venosa esplênica, deve ser realizado em centros de referência.

 

Bibliografia

 

1.             Guimarães-Filho AC, Maya MCA, Leal PRF, Melgaço AS. pancreatite aguda: etiologia, apresentação clínica e tratamento. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto. 2009;8(1):61-69

2.             Imagem 1 disponível em https:/www.researchgate.net/publication/325878096/figure/fig4/AS:639631129313281@1529511353963/The-ECG-manifestation-after-serum-potassium-level-returned-to-normal-As-shown-above.png , acessado em 27 de outubro de 2018

3.             Imagens 2 e 3 disponíveis em MACHADO, Márcio Martins et al . pancreatite aguda leve: avaliação pela ultra-sonografia. estudo prospectivo. Radiol Bras, São Paulo ,  v. 35, n. 4, p. 213-216,  July  2002 .  <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-39842002000400007&lng=en&nrm=iso>. acessado em 27 de outubro de 2018

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