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Editorial MedicinaNET – Dezembro2014

Última revisão: 12/12/2014

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O Real, o Ideal e o Medo

         O medo da morte, o medo do sofrimento, o medo elementar. A busca por alguém que traga paz, conforto, e que até se coloque capaz de lutar contra a morte, é enfim, produto de nosso medo, e o médico, o arquétipo do herói que irá saná-lo.

E novos medos brotaram na sociedade, ainda mais amedrontadores, escatológicos e incansáveis do que a sombra na parede que não deixa uma criança dormir à noite.

         Mas o medo tem a propriedade de converter o ser amedrontado em algo ameaçador. A criatura acuada por vezes reage. E o medo de viver acuado, à margem da sociedade vem se mostrando uma força descomunal de transformação. Essa transformação, entretanto, é errática. Pode ser que você saia às ruas em busca de respeito, trajando seus símbolos e ideias, reforçando ao extremo o que quer que você seja. Por outro lado, pode ser que você sucumba à tentativa de ser um ideal de aceitação, seja financeira, social, ou o que parece ser mais traiçoeiro em nossos dias, o ideal de aceitação estética.

         O recente caso da modelo e apresentadora Andressa Urach, 27 anos, é emblemático nessa discussão. A moça já teve uma sepse grave e já passou por mais de uma cirurgia para retirar uma substância injetada em suas coxas (hidrogel, um polímero que não é absorvido pelo corpo) em quantidade absurdamente grande frente às recomendações de especialistas da área  de cirurgia plástica (400ml x 2ml).

         Não entraremos na questão de se o profissional que aplicou era capacitado, ou se a própria garota foi informada a cerca dos riscos de tal aplicação, pois sendo justos, isso deveria ser o mínimo de um processo assistencial adequado. Falemos do que está no fundo disso. O medo. Qual o tamanho do medo de não ser bem aceita socialmente? Qual o tamanho do medo de não conseguir realizar um trabalho dentro de suas aptidões e escolhas? (Aqui, um ponto em que se deve humanizar mais e demonizar menos a pessoa: consta que Andressa tem um filho, sendo assim, podemos pensar em quais outras motivações estaria inserida a necessidade da perfeição estética buscada). Mas, enfim, quantas “Andressas” têm buscado uma perfeição estética a qualquer custo? (diga-se de passagem, muitas vezes idealizações de suas próprias mentes, e não da sociedade/indústria).

         O que já foi apenas medo da morte e da dor transformou-se em um medo maior, um medo social. Medo que remete à primordial inquietude de saber sobre si mesmo como indivíduo, aceitar-se em sua existência fugaz, e saber vivê-la de forma plena. Não saber e compreender a própria existência, talvez sempre tenha criado medo no ser humano, porém soluções nunca foram tão acessíveis como agora.

         Continuamos com medo de sair da caverna e enxergar o mundo real sob a luz do sol. E nossa luta contra o medo, tão primordial até para a sobrevivência da espécie, vem capilarizando caminhos e soluções cada vez mais perigosos, quando na verdade o que deveríamos estar buscando é como ganhar coragem. Ou então a assistência à saúde só irá ganhar nuances que a tornarão mais vilânica do que heroica, em um momento da história em que nós (profissionais da saúde), já perdemos em muito nossa credibilidade de heróis.

 

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