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Saúde não se Vende Será? De a sua opinião

Autor:

Caio Seixas Soares

Médico e Especialista em Bioética pela Faculdade de Medicina da USP.

Última revisão: 01/03/2009

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“- Olha lá D Maria, é só hoje hein! 2 kg de banana por 10 reais. Levando 4, ganha um rim! Olha lá! É só hoje, aproveite!”

 

Pode parecer sem sentido, mas vamos pensar com cuidado a respeito do exemplo.

Quando compramos um produto qualquer, independentemente do seu valor, pagamos um preço que consideramos justo, levando em conta a necessidade e o desejo que sentimos. Podemos parcelar a conta, usar o cartão de crédito, financiar, usar leasing etc., se julgarmos que realmente queremos tal produto. Ou simplesmente chegamos à conclusão de que não é tão necessário assim, ou que o preço não é bom o suficiente para gerar a compra.

Pois bem, com saúde, essas premissas não valem, simplesmente porque, em certas situações, não temos opção. Estar sem saúde exige um esforço quase que imediato na tentativa de voltar a tê-la e isso “não tem preço”, como diz o jargão atual.

Comprar um consórcio é razoavelmente simples e as regras são bem definidas e respeitadas (quase sempre). Todos pagam uma cota mensal, e apenas alguns são contemplados a cada mês e recebem o produto previamente escolhido e acordado. Feliz da vida. Com saúde, a história é um pouco diferente, principalmente se for a nossa!

Quem já esteve doente sabe o que significa. Todo o resto passa a ter uma importância menor, só o que importa é o restabelecimento da “qualidade de vida” que tinha antes do adoecimento, e fazemos o que for necessário. Alguns chegam a vender casa, carro, ações, imóveis. Não importa, é uma necessidade primária, como a fome, a sede e o sono. Não importa o preço, o local, a cor, a embalagem, o PDV nem o canal de distribuição. “Eu quero minha saúde de volta!” Até os casos em que se utilizam técnicas ditas estéticas podem estar nesta discussão, já que a demanda estética social que se impõe hoje nos leva a crer que estamos doentes se estivermos fora dos padrões “Giselianos” de beleza.

Voltando ao consórcio, quando adquirimos um plano de saúde, compramos um consórcio. O produto que se espera é saúde. Só que saúde não é um produto que está nas prateleiras das lojas, é um bem intangível, necessário e, às vezes, muito, mas muito caro. Ao sermos “contemplados”, exigimos o melhor, mais moderno, mais eficiente, mais rápido, não importa o preço. Não tem preço.

E os vendedores da saúde? Profissionais técnicos, formados para prestar assistência de modo humanizado, com respeito e ética, sempre zelando pelo bem-estar e prontos para oferecer... saúde. Esses profissionais têm filhos, fome, sede, como qualquer mortal, e o produto que eles vendem é o conhecimento para fazer com que esta necessidade primária seja atendida. Não tem preço?

Quanto pode ou deve um médico cobrar por uma consulta? 50? 100? 500? 5.000 reais? Não seria certo que não cobrassem nada? Afinal, nossa necessidade é primária, é um desejo incontrolável e pior do que isso. É justo que se tenha este desejo. Até a Constituição Federal nos garante este direito universal. Mas aí vem um paradigma.

Ao ser classificada como uma arte e também como uma ciência, a Medicina entra num paradigma que é cada vez mais discutido e muitas vezes criticado. É possível a miscigenação pacífica entre a ciência, a arte e o capitalismo? Não tenho conhecimento de que exista tal equilíbrio plenamente aceito por todas as partes envolvidas em nenhuma atividade comercial atual. Então, o médico – que simboliza aqui o vendedor da saúde e representa os demais jogadores deste sistema: hospitais, laboratórios, dentistas, enfermeiros, fisioterapeutas, entre outros – fica num dilema: tratar sempre, mas como e quanto cobrar? Da mesma maneira, fica pensando sobre o consumidor: é justo esse preço? Não devia ser gratuito?

Fico imaginando a reação do fiscal da Receita Federal ao receber minha declaração de imposto de renda deste ano, informando que não pagarei o imposto porque não cobrei as consultas e cirurgias dos meus pacientes. Também a reação do dono da escola dos meus filhos, do mecânico, do dono da tv a cabo, do caixa do supermercado, do dono do posto de gasolina. Vão ter vontade de chamar uma ambulância e me internar num hospício. E depois vão me cobrar, com toda certeza. E também imagino o que passa na cabeça do paciente quando ele sai do consultório e recebe uma conta de R$ 500,00.

Consumir saúde exige responsabilidade. Sabemos que nosso sistema de saúde está doente. Não só o nosso, mas no mundo todo observamos o mesmo fenômeno, independentemente do poder econômico. Para se ter uma ideia, nos EUA gastam-se anualmente 14% do PIB em saúde, contra os 8% tupiniquins, e todas as pesquisas apontam para um caos também no sistema ianque, vide o caso GM amplamente noticiado nos últimos 10 anos e ainda sem solução. Nosso sistema é deficitário, sucateado, mal estruturado, pessimamente distribuído, apesar de algumas boas iniciativas recentes, como o Programa Saúde da Família, o programa de medicamentos para portadores de HIV, mas, em geral, sempre fica aquela sensação de que poderia estar melhor.

A saúde tem cura? Sim. Mas, decididamente, não é um tratamento fácil. Exige um grande esforço da sociedade para haver uma boa hierarquização das prioridades. Promoção de saúde e prevenção das doenças é um caminho que pode levar a um estágio de desenvolvimento social mais alto do que estamos vivenciando hoje. Menos paternalismo e ampla sensibilização para o não-desperdício, o não-abuso (lembro do lamentável caso dos “vampiros da saúde”). Educação e conscientização de que o orçamento é finito, a demanda infinita e os pleitos são justos.

Do mesmo modo que hoje há uma grande campanha para não desperdiçar água, impedir as queimadas, preservar a ararinha azul e as baleias jubarte, deveria haver uma campanha para o consumo consciente dos recursos em saúde. Hotelaria, luxo e tecnologia nem sempre são sinônimos de qualidade neste caso. Valorizar a eficiência e a qualidade, passar do sistema remuneratório atual de FEE-for-service para o FEE-for-performance, onde o mais eficiente, que imprime mais qualidade e respeito ao ser humano, são valorizados. Estes são apenas alguns exemplos de iniciativas atuais – ainda tímidas – na busca da solução para esta conta que nunca fecha. Mas que sem a participação de todos via educação e cidadania, vamos cada vez mais nos afastar daquilo que desejamos (ou precisamos) primariamente: saúde!

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