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Hiperidrose

Autores:

Augusto Ishy

Especialista em Cirurgia Torácica
Doutorando em Cirurgia Torácica e Cardiovascular Pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Ricardo Mingarini Terra

Médico Assistente do Serviço de Cirurgia Torácica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da USP

Última revisão: 03/09/2008

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INTRODUÇÃO E DEFINIÇÕES

Hiperidrose primária (HP) ou essencial é uma condição clínica definida como sudorese excessiva (suor exagerado) que ocorre principalmente nas mãos, nas axilas, nos pés e na face, de forma simétrica, sendo sua etiologia desconhecida.

É um distúrbio crônico acompanhado de constrangimento pessoal, angústia e aflição social, podendo interferir nas atividades diárias e na qualidade de vida dos pacientes.

            Tem prevalência relatada de cerca de 0,6% a 1% da população, sendo mais comum em adolescente e adultos jovens, existindo associação familiar em aproximadamente 12,5% a 56,5% dos casos.

Não existe diferença na incidência da HP em ambos os sexos, porém ocorre uma falsa impressão do predomínio entre as mulheres, pois elas procuram o tratamento com maior freqüência.

 

ACHADOS CLÍNICOS

 

História Clínica

A HP pode surgir desde a infância, porém manifesta-se com maior intensidade na adolescência.

Caracteriza-se pelo aparecimento de suor exagerado, localizado e simétrico predominantemente nas mãos, nas axilas, nos pés e/ou na face (figuras 1 a 3). A HP ocorre em todas as estações do ano, inclusive no inverno. Em situações de estresse, ansiedade, medo e nervosismo, observa-se piora dos sintomas.

Não há nenhum estudo na literatura atual relacionando o aumento da intensidade do suor com o avanço da idade. Vários estudos demonstram que a severidade do suor parece reduzir após os 50 anos.

 

Figura 1: Hiperidrose plantar

 

Figura 2: Hiperidrose palmar   

 

Figura 3: Hiperidrose axilar

 

Exame Físico

Determina o diagnóstico da HP, sendo realizado no próprio consultório médico ou por vezes pelo paciente.

 

Critérios Diagnósticos

            A tabela 1 destaca os critérios diagnósticos da HP.

 

Tabela 1: Critérios diagnósticos da HP

suor visível, exagerado e localizado, com duração de pelo menos seis meses, sem causa aparente, com pelo menos duas das seguintes características abaixo:

  • suor bilateral e relativamente simétrico
  • Freqüência: pelo menos um episódio por semana
  • Prejuízo nas atividades diárias
  • Idade < 25 anos
  • História familiar presente
  • Ausência de suor durante sono
  • Outros sintomas associados

  • Intenso constrangimento pessoal associado a peças de roupas encharcadas e mãos molhadas.
  • Necessidade de trocar de roupa (peça) uma ou mais vezes por dia
  • Evitar quando possível cumprimentar as pessoas
  • Frustração na realização das atividades diárias
  • Prejuízo no desempenho e na produtividade
  • Depressão e falta de confiança
  • Dificuldade e insegurança em reuniões sociais e relações íntimas
  •  

    DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

    A termorregulação corporal é dependente do mecanismo de sudorese fisiológica, que é realizado especialmente pelas glândulas sudoríparas. Em algumas situações, podemos observar uma hiperatividade dessas glândulas, como ocorre durante e após exercícios, em pessoas obesas, durante menopausa ou decorrente de alguma alteração clínica (tabela 2).

    O primeiro passo é diferenciar a Hiperidrose secundária (generalizada) da primária (focal). A Hiperidrose secundária normalmente faz parte de algumas outras condições clínicas subjacentes, por exemplo, processos infecciosos, neoplasias ou distúrbios hormonais. A HP, ao contrário da Hiperidrose generalizada, ocorre em indivíduos saudáveis.

     

    Tabela 2: Principais causas de Hiperidrose secundária (generalizada)

    Tipo de Hiperidrose

    Doenças freqüentemente associadas

    Hiperidrose primária (focal)

    Hiperidrose idiopática (focal)

     

    Hiperidrose gustatória (síndrome de Frey’s)

     

     

     

     

     

     

    Hiperidrose secundária (generalizada)

     

     

     

     

     

     

    Endócrinas: hipertiroidismo, hiperpituitarismo, diabetes melito, menopausa, gravidez, feocromocitoma, síndrome carcinóide e acromegalia

     

    Neurológico: doença de Parkinson, lesão na medula espinal e acidente cérebro-vascular

     

    Neoplasias: doença de Hodgkin’s e doenças mielo-proliferativas

     

    Infecção: septicemia

     

    Drogas: fluoxetina, venlafaxina, doxepin

     

    Toxicidade: alcoolismo e abuso de substâncias ilícitas

     

    EXAMES COMPLEMENTARES

                O diagnóstico da HP é clínico, no entanto, alguns exames complementares são importantes para excluir causas secundárias (tabela 3).

     

    Tabela 3: Exames complementares

     

     

     

     

     

    Exames laboratoriais

     

     

     

    Hormônios tiroidianos – Hipertiroidismo / tireotoxicose

     

    Glicemia – Diabetes melito

     

    Dosagem de ácido vanil-mandélico, catecolaminas na urina de 24 horas – Feocromocitoma

     

    Dosagem do ácido 5 hidroxiindolacético (urina) – Tumor carcinóide

     

     

     

    Exames de imagens

     

     

     

    Radiografia de tórax – Suspeita de doenças pleuropulmonares e/ou cardíacas

     

    Eletrocardiograma – Suspeita de arritmias cardíacas

     

    Tomografia de tórax e ecocardiograma em casos selecionados

     

    TRATAMENTO

          Já foram tentados inúmeros tratamentos tópicos, locais, clínicos e psicológicos para HP, porém todos são paliativos, com efeitos nulos ou temporários. Atualmente, a simpatectomia torácica bilateral por videotoracoscópica (cirurgia minimamente invasiva) é o tratamento de escolha que fornece resultados duradouros, podendo ser realizada mediante ressecção, termocauterização (destruição por ondas de calor) ou clipagem da cadeia simpática. Isso foi um progresso para o tratamento da HP, sendo este procedimento seguro e amplamente utilizado por vários cirurgiões.

    Entretanto, a presença do suor compensatório em outros locais é a complicação mais importante desse tipo de tratamento, podendo afetar de forma significativa a qualidade de vida dos pacientes (tabela 4).

     

    Tabela 4: Tratamento clínico versus cirúrgico

    Tratamento

    clínico

    Soluções adstringentes: cloretos de alumínio, em casos severos freqüentemente causa hiperemia e irritação cutânea.

     

    Iontoforese: são banhos elétricos de baixa voltagem na área afetada que provocam um bloqueio nas glândulas sudoríparas com remissão da sudorese por um período aproximado de 35 dias.

     

     Drogas anticolinérgicas: retemic, rubinol, daricon e probanthine reduzem a atividade do sistema nervoso central, mas os seus efeitos adversos (boca seca, dificuldade para deglutir, mastigar e engolir, retenção urinária e constipação) não são suportados pelo paciente nas doses necessárias para o controle da HP.

     

    Toxina botulínica (Botox): provoca bloqueio neuronal nos receptores da acetilcolina na junção neuromuscular, resultando na redução do impulso transmitido. Funciona por período curto (aproximadamente 4 a 6 meses), sendo imprescindíveis repetições regulares do tratamento. Em algumas regiões do corpo, as injeções são muito doloridas.

     

    Psicoterapia: diminui ansiedade, estresse e insegurança, reduzindo o estímulo neuronal sob o sistema nervoso autônomo.

    Tratamento

    cirúrgico

     

     

     

    simpatectomia torácica bilateral por videotoracoscópica: o procedimento pode ser realizado por ressecção, termocaulterização ou clipagem da cadeia simpática.

     

    Lipossucção: lipocuretagem axilar.

     

    Ressecção cirúrgica das glândulas sudoríparas axilares.

     

    Técnica Operatória

    A cadeia ganglionar simpática é acessada bilateralmente por meio da videotoracoscopia. Os locais de introdução da câmera variam conforme a preferência do cirugião, axila, sulco mamário ou inframamilar. Após a introdução da ótica, a cadeia é facilmente visualizada na goteira paravertebral (figura 4). A seleção do nível de secção da cadeia é dependente do tipo de Hiperidrose, conforme discriminado na tabela 5.

     

    Figura 4: Visão frontal do mediastino posterior Se observa em amarelo a cadeia simpática (A) na goteira paravertebral. Outras estruturas: veia ázigos (B), duto torácico (C), aorta descendente (D), diafragma (E).

     

    Tabela 5: Técnica operatória

    Localização da Hiperidrose

    Gânglio simpático

    Craniofacial

    T2

    Palmar

    T3

    Palmo-axilar

    T4

    Axilar

    T4

     

    TÓPICOS IMPORTANTES E RECOMENDAÇÕES

             A HP caracteriza-se pelo suor excessivo, localizado e simétrico preferencialmente nas mãos, nas axilas, nos pés e/ou na face.

             O diagnóstico é eminentemente clínico, por vezes realizado pelo próprio paciente.

             Situações de estresse, ansiedade, medo e insegurança aumentam a intensidade do suor.

             A Hiperidrose secundária costuma ser generalizada, e causada por condições clínicas subjacentes como processos infecciosos, neoplasias ou distúrbios hormonais.

             O diagnóstico da HP é clínico, mas exames complementares são importantes para excluir causas secundárias.

             A simpatectomia torácica bilateral por videotoracoscopia é o tratamento mais efetivo para HP e tem como principal efeito colateral o desenvolvimento de Hiperidrose reflexa em outros locais que não o primário.

     

    ALGORITMO

     

    Algoritimo 1: Avaliação e tratamento do paciente com HP

     

    BIBLIOGRAFIA

    1. Dumont P, Denoyer A, Robin P. Long-term results of thoracoscopic sympathectomy for hyperhidrosis. Ann Thorac Surg 2004;78:1801-7.

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    10. Wolosker N, Yazbek G, Milanez de Campos JR, Kauffman P, Ishy A, Puech-Leão P. Evaluation of plantar hyperhidrosis in patientes undergoing vídeo-assisted thoracoscopic sympathectomy. Clin Auton Res 2007;17(3):172-6.

    11. Yazbek G, Wolosker N, Milanez de Campos JR, Kauffman P, Ishy A, Puech-Leão P. Palmar hyperhidrosis – Which is the best level of devernation using video-assisted thoracoscopic sympathectomy: T2 or T3 ganglion? J Vasc Surg 2005;42(2):281-5.

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