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Mortalidade pela Síndrome da Zika Congênita no Brasil

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado pela Disciplina de Emergências Clínicas Faculdade de Medicina da USP; Médico e Especialista em Clínica Médica pelo HC-FMUSP; Diretor Científico do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP); Membro da Academia Brasileira de Medicina Hospitalar (ABMH); Assessor da Diretoria Médica do Hospital Samaritano de São Paulo.

Última revisão: 31/05/2022

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Contexto Clínico

 

A infecção pelo vírus zika (ZIKV) é transmitida por mosquitos Aedes aegypti. Durante a gravidez, a infecção pode ser transmitida através da placenta para o feto em desenvolvimento, com potenciais efeitos teratogênicos, incluindo anomalias graves do sistema nervoso central. A maioria dos fetos com exposição pré-natal ao ZIKV não apresenta anomalias clínicas detectáveis. Entretanto, alguns fetos infectados congenitamente podem ter resultados adversos leves, moderados ou graves, que clinicamente podem ser reconhecidos como a síndrome congênita do zika. Essa síndrome pode levar a diversas manifestações, como atrofia cortical com microcefalia, disfagia e epilepsia, todas podendo se manifestar ao nascimento ou no início da vida.

Um ponto de destaque é que a gravidade da síndrome parece associada à exposição ao ZIKV no primeiro trimestre, e um importante fator prognóstico é a gravidade da microcefalia. Evidências preliminares indicam que crianças afetadas podem ter taxa de letalidade de 10% nos primeiros anos de vida. No entanto, o risco relativo de morte entre crianças nascidas vivas com síndrome congênita do zika, em comparação com aquelas sem a síndrome, e o papel de importantes preditores de mortalidade infantil, como idade gestacional ao nascer e peso ao nascer, permanecem obscuros.

 

O Estudo

 

Apresentamos um estudo de coorte retrospectivo de base populacional que incluiu dados de todos os nascidos vivos únicos no Brasil de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2018. Esses nascidos vivos foram acompanhados desde o nascimento até a idade de 36 meses (3 anos), falecimento ou 31 de dezembro de 2018, o que ocorresse primeiro.

Neste estudo de coorte de base populacional, foram usados dados coletados rotineiramente no Brasil, de janeiro de 2015 a dezembro de 2018, para estimar a mortalidade entre nascidos vivos com síndrome congênita do zika em comparação com aqueles sem a síndrome. As curvas de Kaplan-Meier e os modelos de sobrevida foram avaliados com ajuste para confundimento e com estratificação de acordo com idade gestacional, peso ao nascer e status de pequeno para idade gestacional.

Um total de 11.481.215 crianças nascidas vivas foram acompanhadas até os 36 meses de idade. A taxa de mortalidade foi de 52,6 óbitos (IC 95%, 47,6 a 58,0) por 1.000 pessoas-ano entre os nascidos vivos com síndrome congênita do zika, em comparação com 5,6 óbitos (IC 95%, 5,6 a 5,7) por 1.000 pessoas-ano entre aqueles sem a síndrome. A taxa de mortalidade entre os nascidos vivos com síndrome congênita do zika, em comparação com aqueles sem a síndrome, foi de 11,3 (IC 95%, 10,2 a 12,4). Entre os bebês nascidos antes de 32 semanas de gestação ou com peso ao nascer inferior a 1.500 g, os riscos de morte foram semelhantes, independentemente do status da síndrome congênita do zika. Entre os bebês nascidos a termo, aqueles com síndrome congênita do zika tiveram 14,3 vezes (IC 95%, 12,4 a 16,4) mais chances de morrer do que aqueles sem a síndrome (taxa de mortalidade, 38,4 vs. 2,7 mortes por 1.000 pessoas-ano). Entre os bebês com peso ao nascer de 2.500 g ou mais, aqueles com síndrome congênita do zika foram 12,9 vezes (IC 95%, 10,9 a 15,3) mais propensos a morrer do que aqueles sem a síndrome (taxa de mortalidade, 32,6 vs. 2,5 mortes por 1.000 pessoas-ano). A carga de anomalias congênitas, doenças do sistema nervoso e doenças infecciosas como causas registradas de mortes foi maior entre os nascidos vivos com síndrome congênita do zika do que entre aqueles sem a síndrome.

 

Aplicação Prática

 

Neste estudo conduzido em nosso país, fica claro o maior risco de morte entre os nascidos vivos com síndrome congênita do zika do que entre aqueles sem a síndrome, e o risco persistiu ao longo dos primeiros 3 anos de vida. Esses achados chamam a atenção para a importância da prevenção primária da infecção em mulheres em idade fértil contra picadas de Aedes aegypti. Interessante notar que o risco de morte entre os bebês menores foi semelhante, independentemente do status da síndrome congênita do zika. No entanto, as crianças com síndrome congênita do zika que nasceram a termo ou que tiveram peso normal ao nascer tinham mais de 12 vezes mais chances de morrer do que suas contrapartes sem a síndrome. Além disso, ficou constatado que condições classificadas como malformações congênitas, doenças do sistema nervoso e certas doenças infecciosas foram causas de morte mais comuns entre crianças com síndrome congênita do zika do que entre aquelas sem a síndrome.

A força deste estudo está na robustez dos dados, ainda que pese o caráter observacional e retrospectivo do estudo. Sem dúvida, ele apoia qualquer política de saúde voltada ao controle da transmissão da doença, principalmente em gestantes.

 

Bibliografia

 

1.             Paixão ES, et al. Mortality from Congenital Zika Syndrome — Nationwide Cohort Study in Brazil. N Engl J Med 2022; 386:757-767

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