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Etiologia da pancreatite crônica

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 23/08/2011

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Área de atuação: Medicina ambulatorial

 

Especialidade: Medicina Interna, Gastrenterologia

  

Contexto clínico

A pancreatite crônica (PC) tem sido historicamente relacionada ao consumo excessivo de álcool em mais de 90% dos casos. Entretanto, muitos pacientes apresentam pancreatite crônica e são equivocadamente considerados etilistas. Existem evidências de que o tabagismo seja um fator de risco importante, mas subestimado, além de evidências de que algumas mutações genéticas estão associadas com PC. Para investigar mais profundamente a etiologia da PC, os investigadores realizaram um estudo de caso-controle.

 

O estudo

Trata-se de um estudo de caso-controle (vide Glossário) em que os investigadores analisaram os dados de 539 pacientes com PC e 695 controles (parentes de primeiro grau, cônjuges e amigos dos pacientes) em 19 centros de referência e comunitários nos EUA (os casos são participantes de uma coorte norte-americana de PC – North American Pancreatitis Study 2). As informações coletadas incluíram a hipótese diagnóstica realizada pelo médico do paciente, utilizada para categorizar as etiologias (alcoólica, não alcoólica e idiopática), além de características gerais dos participantes, como características demográficas, uso de álcool e tabagismo. O álcool foi a etiologia determinada em menos de metade dos casos de PC (44,5%), seguido da idiopática (28,6%) e causas conhecidas não alcoólicas (26,9%). As causas não alcoólicas e idiopáticas foram mais comuns em mulheres do que em homens. Tabagismo atual e tabagismo de mais de um maço por dia foram importantes fatores de risco independentes para os casos de PC idiopática (OR: 1,8 e 1,9, respectivamente) comparados com os controles sem pancreatite crônica.

 

Aplicações para a prática clínica

A pancreatite crônica é uma doença inflamatória crônica, progressiva, que pode levar a insuficiência pancreática endócrina e exócrina. Apresenta uma prevalência de cerca de 20 casos por 100.000 habitantes e uma mortalidade de mais de 50% em 20 anos. Historicamente, o álcool tem sido considerado como o fator etiológico em 60 a 90% dos casos. Em um estudo do grupo de pâncreas do Hospital das Clínicas da USP, a etiologia alcoólica foi encontrada em mais de 90% dos 550 casos acompanhados pelo serviço2. Estudo observacional de Goiânia também encontrou uma prevalência de álcool como fator etiológico em 94,1% dos casos de PC, com uma idade média dos pacientes por ocasião do diagnóstico de 39,8 anos3. Contrariamente às evidências prévias, dois estudos recentes encontraram uma prevalência menor de uso pesado de álcool entre pacientes com PC avaliados em centros de referência. O resultado do presente estudo aponta para uma menor prevalência do álcool como fator etiológico das PC (44,5%) e uma importância maior do tabagismo (fator de risco independente para as PC idiopáticas). Conforme observou recentemente um comentarista do Journal Watch Gastroenterology4, esta é a maior investigação epidemiológica de pessoas com pancreatite crônica realizada nos EUA. Contribui de forma significativa para o conhecimento etiológico da PC e, como os próprios autores mencionam, contribui para reduzir a taxação (labelling) (vide Glossário) quase automática que ocorre em relação a pacientes com PC, qual seja, a atribuição da pancreatite ao uso abusivo do álcool.

 

Glossário

Estudo de caso-controle: estudo observacional longitudinal, em que selecionamos um grupo de participantes com uma doença específica e o comparamos a um grupo controle de participantes sem a doença em questão, para avaliar possíveis associações com exposição a determinados fatores de risco. São estudos interessantes para avaliar fatores de risco de doenças mais raras ou cujo período entre a exposição ao fator de risco e a manifestação da doença é muito grande.

Taxação (labelling): ato de taxar pessoas sadias de doentes, ou atribuir a etiologia de doenças a hábitos de vida pessoais de forma equivocada. No caso em questão, referimo-nos ao fato de pacientes com PC serem automaticamente taxados de etilistas, o que, de acordo com os resultados deste estudo, é falso em mais de metade dos casos. Mais frequentemente, o termo taxação (ou labelling) é utilizado para se referir ao fato de que muitas condições da vida cotidiana, ou sintomas inespecíficos, ou traços de personalidade tem sido classificadas (taxadas) de doenças, o que geralmente vem acompanhado de critérios diagnósticos e de intervenções farmacológicas de alto custo para o tratamento e/ou a prevenção de tal “doença”. O termo também se refere ao fato de que algumas pessoas acabam recebendo uma etiqueta diagnóstica que, em vez de auxiliá-las a conviver com sua condição, tendem a restringir suas vidas, tornando-as reféns de suas condições. Isto, na maioria das vezes, piora a qualidade de vida e produz mais morbidade. É um termo que está ligado a outros conceitos como medicalização social e invenção de doenças (disease mongering).

 

Bibliografia

1.     Coté GA, Yadav D, Slivka A, Hawes RH, Anderson MA, Burton FR, et al. Alcohol and smoking as risk factors in an epidemiology study of patients with chronic pancreatitis. Clin Gastroenterol Hepatol. 2011 Mar;9(3):266-73; quiz e27. Epub 2010 Oct 26. (Fator de impacto: 5.642).

2.     Mott CB, Guarita DR. Pancreatites – definição, classificação e etiologia. Revista Brasileira do Pâncreas. 2004;16:9-14.

3.     Porto JD, Torres FA, Aguilar AA, Rosa H. Clinical and epidemiological study of calcifying chronic pancreatitis in Goiânia, GO, Brazil. Arq Gastroenterol. 1999 Jan-Mar;36(1):27-31.

4.     Forsmark CE. Etiology of chonic pancreatitis. Journal Watch Gastroenterology. May 6, 2011.

 

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