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Perda Aguda de Audição

Autor:

Rodrigo Antonio Brandão Neto

Médico Assistente da Disciplina de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Última revisão: 12/04/2018

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A perda auditiva neurossensorial súbita (PANS) é definida como a perda súbita e inexplicada de audição, quase sempre unilateral, que ocorre em um período de menos de 72 horas. A definição de perda auditiva implica perda de 30dB ao longo de, pelo menos, três frequências de teste. É considerada uma emergência otorrinolaringológica, embora, na maioria dos casos, tenha melhora espontânea.

Qualquer faixa etária pode ser afetada, mas a incidência máxima ocorre entre os 40 e 55 anos de idade, com uma distribuição semelhante em ambos os sexos. A incidência geral varia de 2 a 20 casos a cada 100 mil pessoas/ano, mas a incidência real é indeterminada, pois, como muitos pacientes apresentam melhora espontânea, não ocorre procura médica, o que torna sua incidência subestimada. Sua severidade varia desde a dificuldade com a conversa até a perda de audição completa.

A PANS é idiopática em 70% dos casos, relacionada a infecções em 13% dos casos e também a doença otológica, trauma, doença vascular, distúrbios hematológicos ou neoplasia. Entre as etiologias infecciosas, a infecção por herpes-vírus simples tipo 1 parece ter um papel importante na fisiopatologia da PANS de uma forma análoga a que ocorre na paralisia facial de Bell.

A maioria dos casos é unilateral, e pacientes com PANS bilateral tendem a ser mais idosos; apresentam, com maior frequência, anticorpos antinúcleo e costumam ter doença cardiovascular. Um atraso no diagnóstico é comum porque o paciente e o médico podem presumir que a sensação de plenitude do ouvido seja atribuída à impactação de cerúmen ou a infecções de vias respiratórias superiores com disfunção de tuba auditiva. Estudos demonstraram que pacientes com PANS apresentam maior risco de acidente vascular cerebral (AVC).

 

Manifestações Clínicas

 

Os pacientes referem perda súbita de audição normalmente percebida ao acordar; o quadro pode-se instalar de uma vez ou ser rapidamente progressivo em 72 horas. A maioria dos pacientes tem sensação de plenitude em canal auditivo como se estivesse obstruído por cerúmen ou corpo estranho e, por esse motivo, não consegue perceber a perda auditiva ou atribui a presença de cerúmen. A presença de zumbido ocorre em 90% dos casos, causando grande desconforto ao paciente. Vertigem ocorre em 20 a 60% dos pacientes; ocasionalmente, são relatadas otalgia e parestesias.

A probabilidade de recuperação está relacionada a fatores como gravidade da perda auditiva, idade do paciente e sintomas vestibulares associados. A história clínica deve incluir o tempo de início, o histórico de trauma ou doenças recentes, medicamentos e presença de sintomas otológicos e neurológicos.

O exame físico inclui uma inspeção minuciosa do canal externo e avaliação da integridade da membrana timpânica (MT). O exame neurológico é importante para descartar AVC, que pode causar perda auditiva. O médico avaliador pode solicitar que o paciente faça um ruído contínuo e verificar se ocorre lateralização do som ? o que sugere perda de audição condutiva.

 

Diagnóstico Diferencial

 

O diagnóstico diferencial para perda auditiva é amplo e pode ser diferenciado em causas que envolvem as orelhas externa, média ou interna. As causas da orelha externa incluem impactação de cerúmen e orelha externa. As causas da orelha média incluem otite média e perfuração da MT. As causas da orelha interna incluem medicamentos, barotrauma e doença autoimune.

Neoplasias como schwannoma e doenças neurológicas primárias como esclerose múltipla também podem causar PANS. A causa mais comum de PANS é o AVC, que ocorre tipicamente por oclusão da artéria cerebelar anterior inferior e pode se manifestar com ataxia, vertigem, síndrome de Horner, fraqueza facial, entre outros sintomas.

 

Exames Complementares

 

O teste de Weber para a audição e o teste de Rinne podem ajudar a distinguir os déficits condutores versus neurossensorial. Um exame neurológico abrangente, incluindo avaliação de pares cranianos e testes cerebelares, pode avaliar se existe o comprometimento do tronco encefálico. Todos pacientes têm indicação da realização de audiometria.

Os exames laboratoriais não são indicados, pois não contribuem para o diagnóstico. A tomografia computadorizada também não é indicada na avaliação no departamento de emergência, a menos que o exame físico aponte para uma lesão que ocupa espaço (ou seja, déficits neurológicos focais não referentes à orelha).

A ressonância nuclear magnética do cérebro com gadolínio, por sua vez, é o estudo de escolha para identificar a patologia retrococlear e pode verificar comprometimento do tronco cerebral, sendo realizada na maioria dos casos, embora não seja necessária no departamento de emergência, podendo ser realizada após avaliação do otorrinolaringologista.

 

Manejo

 

Não existe evidência forte para nenhum tipo de tratamento para PANS. Os glicocorticoides orais são a primeira linha de tratamento, sendo administrados na maioria dos casos, embora sua eficácia não seja totalmente comprovada; um estudo mostrou recuperação de 61% com prednisona e 32% com placebo, mas não teve diferença em perdas profundas de audição. A dose é de 1mg/kg até 60mg de prednisona por 10 a 14 dias.

Outra alternativa é a utilização de corticosteroides intratimpânicos com alguns casos de resposta após falha com uso de corticosteroides orais. Agentes antivirais como o aciclovir podem ser associados a corticosteroides, mas não são considerados uma opção de rotina. Outras opções estudadas incluem oxigênio hiperbárico, zinco, terapias vasoativas e de hemodiluição, dextrano e magnésio, todos com resultados questionáveis.

Devido à falta de opções de tratamento para essa condição, é recomendado, pelo menos, um curso de tratamento com corticosteroides. Os pacientes devem ser encaminhados com relativa urgência para o otorrinolaringologista na alta do departamento de emergência.

 

Referências

 

1-             Pfaff JÁ, Moore GP. Otolaringology in Rosen’s Emergency Medicine 2018.

2-             Hughes GB, Freedman MA, Haberkamp TJ, Guay ME. Sudden sensorineural hearing loss. Otolaryngol Clin North Am 1996; 29:393.

3-             Stachler RJ, Chandrasekhar SS, Archer SM, et al. Clinical practice guideline: sudden hearing loss. Otolaryngol Head Neck Surg 2012; 146:S1.

4-             Rauch SD. Clinical practice. Idiopathic sudden sensorineural hearing loss. N Engl J Med 2008; 359:833.

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