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Duração reduzida de tratamento com antibióticos na pielonefrite aguda

Autor:

Carlos Eduardo Marcello

Médico Assistente da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU-USP).

Última revisão: 03/10/2012

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Área de atuação: Medicina Ambulatorial

 

Especialidade: Medicina de Família, Clínica Médica

 

Resumo

Este estudo avaliou a exequibilidade de se tratar a pielonefrite aguda com ciprofloxacino por somente 7 dias em relação ao tratamento clássico por 14 dias.

 

Contexto clínico

Por todo o mundo tem havido resistência crescente das enterobactérias aos antibióticos. As opções para tratamento dessas infecções têm diminuído e isso tem sido uma preocupação de saúde pública. Uma maneira de se enfrentar esse problema é diminuir o uso dos antibióticos, sendo a diminuição da duração da antibioticoterapia uma das ações preconizadas. Por isso, estudos randomizados e controlados são necessários para o esclarecimento dos mínimos esquemas de tratamentos para as doenças infecciosas mais comuns.

 

O estudo

Com a finalidade de prover mais dados, pesquisadores suecos das universidades de Göteborg, Uppsala e Skåne lideraram um estudo realizado em 21 centros de doenças infecciosas na Suécia. O estudo foi prospectivo, multicêntrico, de não inferioridade, no qual se avaliou o tratamento da pielonefrite aguda com ciprofloxacino por um tempo de 7 ou 14 dias.

Para o estudo, entraram 248 mulheres não gestantes, com 18 anos ou mais de idade, com o diagnóstico de pielonefrite aguda adquirida na comunidade. Durante a primeira semana, todas as pacientes receberam ciprofloxacino por via oral na dose de 500 mg a cada 12 horas; durante a 2ª semana, as mulheres do grupo de tratamento por 7 dias receberam placebo e as do outro grupo continuaram recebendo a mesma medicação. As participantes foram hospitalizadas ou tratadas como pacientes ambulatoriais segundo a decisão de seus médicos assistentes. Pacientes cujas culturas de urina iniciais mostraram Escherichia coli resistente – ou com suscetibilidade reduzida – ao ciprofloxacino foram excluídas.

Dentre as 156 participantes que se mantiveram no estudo (retirando-se as que foram excluídas), com idade média de 46 anos, 97% do grupo 7 dias e 96% do grupo 14 dias mostraram cura clínica no seguimento de 10 a 14 dias depois do tratamento antibiótico. No seguimento de longo prazo (42 a 63 dias), a taxa cumulativa de cura foi de 93% em ambos os grupos. Hemoculturas obtidas em 155 pacientes antes da administração de antibiótico mostraram crescimento de E. coli em 27% delas. As taxas de cura foram semelhantes, não guardando qualquer relação com os resultados das hemoculturas. O tratamento foi bem tolerado em ambos os grupos. Potenciais eventos adversos ao ciprofloxacino foram relatados por 5% do grupo 7 dias e 6% no grupo 14 dias. Duas pacientes suspenderam o tratamento por esses eventos. Candidíase em mucosas ocorreu em 5 pacientes que receberam o ciprofloxacino por 14 dias e em nenhuma das que tomaram por 7 dias.

 

Comentários

O achado de que um curso de tratamento com 7 dias de duração na pielonefrite é efetivo não é novidade. Estudos feitos há mais de uma década já mostraram resultados semelhantes. O estudo atual, entretanto, não é simplesmente confirmatório. Os critérios de inclusão deste estudo expandiram o conceito de tratamento por somente 7 dias para mulheres na meia-idade e mesmo para as mais idosas (idade média de 46 anos) e que se apresentaram com doença mais severa – temperatura de pelo menos 38,7 °C (média de 39,2 °C) e 22% das pacientes tratadas por 7 dias tiveram hemoculturas positivas2. Como assinalaram os próprios autores, um esquema de tratamento de 7 dias com antibióticos outros que não o ciprofloxacino não deve ser considerado efetivo para o tratamento de pielonefrite. Os antibióticos betalactâmicos estão consistentemente associados com maior taxa de falha terapêutica independentemente da duração do tratamento. É importante registrar que este estudo foi realizado na Suécia, reconhecida pela sua baixa prevalência de resistência antimicrobiana. A crescente resistência bacteriana global é amplamente atribuída ao uso intenso de antimicrobianos. Uma duração de terapêutica desnecessariamente prolongada contribui para a pressão antibiótica, e um princípio cardinal para o bom uso de antibióticos é o de que devem ser usados pelo menor tempo possível.

 

Glossário

Estudos clínicos de não inferioridade3: são modelos experimentais desenvolvidos com o objetivo de determinar se um novo tratamento ou procedimento não é menos eficaz que outro já estabelecido e considerado como controle. São de grande importância no estudo de tratamentos em que o uso de placebo é inviável. Requerem metodologia diferente dos estudos clássicos, chamados de estudos de superioridade, especialmente no planejamento e na análise estatística.

 

Bibliografia

1.   Sandberg T, Skoog G, Hermansson AB, Kahlmeter G, Kuylenstierna N, Lannergård A et al. Ciprofloxacin for 7 days versus 14 days in women with acute pyelonephritis: A randomised, open-label and double-blind, placebo-controlled, non-inferiority trial. Lancet 2012 Jun 21; [e-pub ahead of print]. [link para o resumo]

2.   Nicolle LE. Minimum antimicrobial treatment for acute pyelonephritis. Lancet 2012 Jun 21; [e-pub ahead of print] [link para o artigo]

3.   Pinto, VF. Estudos clínicos de não-inferioridade: fundamentos e controvérsias. J Vasc Bras. 2010;9(3):145-151. [link para o artigo]

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