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Efeitos neuropsiquiátricos do uso de corticoides

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da USP.
Supervisor do Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente.

Última revisão: 21/01/2013

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Especialidades / Áreas de Atuação: Medicina Hospitalar / Medicina de Família e Comunidade / Psiquiatria

 

Resumo

  Este estudo buscou descobrir qual a real incidência de efeitos adversos neuropsiquiátricos em pacientes que recebem prescrição de corticoides orais.

 

Contexto clínico

  A incidência e o risco de ideação suicida e outras alterações neuropsiquiátricas em pacientes que recebem prescrição de um curso de corticoides sistêmicos é muito pouco conhecida. Descobrir qual a real quantidade de pacientes que desenvolvem depressão, mania, delirium, distúrbios do pânico, além das próprias ideações suicidas, é fundamental para se ter noção real dos riscos oferecidos durante tratamentos sistêmicos. Além disso, é necessário conhecer os fatores de risco para tentar minimizar os impactos na população.

 

O estudo

  Este foi um estudo de coorte retrospectivo feito no Reino Unido. Os pesquisadores utilizaram uma base de dados (The Health Improvement Network – THIN) e identificaram 370 mil pacientes que usavam corticoides e compararam seus dados aos de 1,2 milhão de pacientes com doenças similares (asma, DPOC, infecção do trato respiratório inferior, polimialgia reumática, entre outras), mas que não tomavam corticoide.

  Foram prescritos 786.868 cursos de corticoide oral para 372.696 pacientes. Os autores identificaram 1 a 9 casos incidentes de suicídio ou tentativa de suicídio e 10.220 casos incidentes de distúrbios neuropsiquiátricos graves. A incidência de qualquer um destes desfechos foi de 22,2/100 pessoas-ano em risco no primeiro curso de tratamento. Comparado com pacientes com as mesmas condições médicas, mas que não receberam curso de corticoide, a razão de risco (hazard ratio) para suicídio ou tentativa de suicídio em pacientes expostos foi de 6,89 (IC 95% = 4,52–10,50); para depressão foi de 1,83 (IC 95% = 1,72 –1,94); para mania foi de 4,35 (IC95% = 3,67 – 5,16); para delirium/confusão/desorientação foi de 5,14 (IC95% = 4,54 – 5,82); e para distúrbios do pânico foi de 1,45 (IC95% = 1,15 – 1,85).

  Homens mais velhos tiveram mais risco de delirium/confusão/desorientação e mania, enquanto pacientes mais jovens tiveram maiores riscos de suicídio ou tentativa de suicídio. Pacientes com histórico de doença neuropsiquiátrica e aqueles tratados com maiores doses de corticoides (= 40 mg/dia de prednisona ou equivalente) foram os grupos de maior risco de desenvolver algum dos desfechos neuropsiquiátricos estudados.

 

Aplicações para a prática clínica

  A conclusão deste estudo não dá margem para dúvidas: há aumento do risco de distúrbios neuropsiquiátricos, incluindo tentativa de suicídio, em pacientes que recebem prescrição de corticoides sistêmicos.

  Isto é algo que muitos médicos experientes já puderam constatar em suas práticas: alguns pacientes que desenvolvem quadros neuropsiquiátricos mesmo durante o simples tratamento de uma dermatite de contato.

  As grandes lições deste estudo são:

 

     estes quadros neuropsiquiátricos, que são “empiricamente” constatados, são reais;

     eles ocorrem com doses acima de 40 mg/dia de prednisona ou equivalente;

     em pacientes com alguma doença de base, o risco é maior.

 

  Ou seja, evitar doses excessivas quando isso não for necessário ou minimizar doses em pacientes com algum distúrbio neuropsiquiátrico parecem ser uma racionalização adequada em face dos dados importantes deste grande estudo de coorte. Quando esta estratégia menos agressiva em termos de uso de corticoides não for possível, tentar orientar paciente e familiares para identificar quadros que implicariam revisão de tratamento para minimizar riscos maiores quanto a estes efeitos adversos estudados.

 

Bibliografia

1.    Fardet L, Petersen I, Nazareth I. Suicidal behavior and severe neuropsychiatric disorders following glucocorticoid therapy in primary care. Am J Psychiatry 2012 May 1; 169:491. [link para o artigo] (Fator de Impacto: 12,759).

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