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Incapacidade funcional após SARA

Autor:

Antonio Paulo Nassar Junior

Especialista em Terapia Intensiva pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Médico Intensivista do Hospital São Camilo. Médico Pesquisador do HC-FMUSP.

Última revisão: 07/07/2011

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Incapacidade funcional após SARA1

 

Área de atuação: Medicina Intensiva, Medicina Ambulatorial

 

Especialidade: Clínica Médica, Pneumologia, Medicina Intensiva

 

Contexto clínico

A síndrome do desconforto respiratório agudo (SARA) é uma condição clínica associada a grande morbimortalidade na UTI e incapacidade funcional um2 e dois anos3 após a alta em sobreviventes. Contudo, seu prognóstico no longo prazo não é bem conhecido. Os autores do presente estudo propuseram-se a acompanhar um grupo de pacientes que sobreviveram a uma internação com SARA por um período de cinco anos.

 

O estudo

Trata-se de um estudo de coorte prospectivo. Estes pacientes foram acompanhados em retornos ambulatoriais ou visitas domiciliares 3, 6, 12 e 24 meses após a alta e, então, anualmente até cinco anos. A cada visita, o paciente respondia a um questionário de qualidade de vida (SF-36) e era avaliado quanto à força muscular, função pulmonar, teste da caminhada em seis minutos, oximetria de pulso e radiografia de tórax. Além disso, foram coletados dados da utilização dos serviços de saúde.

Dos 109 pacientes da coorte inicial (idade média de 44 anos, 83% com uma ou nenhuma comorbidade, 83% trabalhando em tempo integral), 74 estavam vivos em cinco anos e, destes, 64 puderam ser avaliados. Nenhum deles apresentou fraqueza muscular ao exame físico, mas todos relataram algum grau de fraqueza e a piora da capacidade de realizar exercícios físicos intensos. A mediana da distância percorrida em seis minutos foi de 436 m (76% do previsto para uma população semelhante). O escore médio do componente físico do SF-36 em cinco anos foi aproximadamente um desvio-padrão menor que o previsto para uma população-controle quanto à idade e ao sexo. A melhora do componente físico no decorrer dos cinco anos foi maior nos pacientes com menos de 52 anos.

Diversas complicações foram descritas pelos pacientes entre dois e cinco anos após a alta: estenose traqueal (dois pacientes), ossificação heterotópica em joelhos e cotovelos (quatro pacientes), disfunção de cordas vocais e alteração da voz (um paciente), hiper-reatividade brônquica nova ou recorrente (quatro pacientes), implantes dentais por lesão de dentes ocorrida na UTI (um paciente), amputação de antepé por uso de vasopressor (um paciente), perda auditiva e zumbido por medicações usadas na UTI (dois pacientes). A maior parte (51%) dos pacientes referiu ao menos um episódio de diagnóstico de depressão e/ou ansiedade após dois anos da alta. Problemas de saúde mental também foram comuns nos familiares (27%).

Os resultados dos testes volumétricos e espirométricos à prova de função pulmonar foram normais ou quase normais entre três e cinco anos. Dos 25 pacientes que realizaram tomografia computadorizada (TC) de tórax, o achado mais comum foi de alterações fibróticas compatíveis com lesão pulmonar induzida pela ventilação. Somente os pacientes com fibrose ou bronquiectasias à TC tinham sintomas respiratórios.

Após cinco anos, 77% dos pacientes retornaram ao trabalho e 94% destes, ao trabalho original. A maioria retornou apenas após dois anos da alta. Em geral, eles precisaram passar por um processo de transição no trabalho (mudança de horários, retreinamento). A taxa de re-hospitalização foi decrescente até o terceiro ano, mas depois permaneceu estável. Os custos com medicações seguiram o mesmo caminho. A presença de comorbidades associou-se a maiores gastos de saúde ao longo dos cinco anos.

 

Aplicações para a prática clínica

Este interessante estudo foi o primeiro a mostrar o impacto da SARA no longo prazo. Pacientes jovens com poucas comorbidades apresentaram, cinco anos após a alta, limitações ao exercício, piora da qualidade de vida e comprometimento neuropsicológico. Além disso, eles apresentaram um lento e difícil retorno ao trabalho e um maior custo ao sistema de saúde em comparação com uma população semelhante quanto à idade e ao sexo. Este estudo vem somar-se a outros recentes que mostram que síndromes clínicas comuns na UTI (sepse4, delirium5, SARA) associam-se a um pior prognóstico em termos de qualidade de vida e funcionalidade no longo prazo. A presença de comorbidades parece ser um fator de risco ainda maior para a piora funcional dos pacientes que sobrevivem a tais síndromes. Estas informações devem ser dadas a pacientes e familiares durante o tratamento na UTI e devem servir de amparo às discussões sobre o fim de vida.

 

Glossário

Estudo de coorte: estudos observacionais longitudinais em que os indivíduos com alguma exposição a fator de risco ou condição são acompanhados para avaliar sua evolução e prognóstico. São muito úteis para avaliar a associação entre exposição a fatores de risco ou condições clínicas e desfechos clínicos futuros. Geralmente os indivíduos expostos são comparados aos não expostos ao fator de risco em questão. No presente estudo, o objetivo foi avaliar a história natural da SARA e sua relação com o prognóstico dos pacientes.

 

Bibliografia

1.   Herridge MS, Tansey CM, Matte A, Tomlinson G, Diaz-Granados N, Cooper A, et al. Functional disability 5 years after acute respiratory distress syndrome. N Engl J Med. 2011 Apr 7;364(14):1293-304 [Link para Abstract] (Fator de impacto: 50.017)

2.   Herridge MS, Cheung AM, Tansey CM, Matte-Martyn A, Diaz-Granados N, Al-Saidi F, et al. One-year outcomes in survivors of the acute respiratory distress syndrome. N Engl J Med. 2003 Feb 20;348(8):683-93.

3.   Cheung AM, Tansey CM, Tomlinson G, Diaz-Granados N, Matte A, Barr A, et al. Two-year outcomes, health care use, and costs of survivors of acute respiratory distress syndrome. Am J Respir Crit Care Med. 2006 Sep 1;174(5):538-44.

4.   Iwashyna TJ, Ely EW, Smith DM, Langa KM. Long-term cognitive impairment and functional disability among survivors of severe sepsis. JAMA. 2010 Oct 27;304(16):1787-94.

5.   Witlox J, Eurelings LS, de Jonghe JF, Kalisvaart KJ, Eikelenboom P, van Gool WA. Delirium in elderly patients and the risk of postdischarge mortality, institutionalization, and dementia: a meta-analysis. JAMA. 2010 Jul 28;304(4):443-51.

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