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Monocitose e Monocitopenia

Autor:

Rodrigo Antonio Brandão Neto

Médico Assistente da Disciplina de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Última revisão: 02/07/2021

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Monócitos são células que estão sempre em trânsito. Nostecidos, amadurecem sob a influência de outros fatores, tornam-se macrófagos eparticipam de processos que incluem:

- inflamação, incluindo reações granulomatosas, formaçãode ateroma e reparação de tecidos;

- reações imunológicas, incluindo hipersensibilidaderetardada;

- reações a neoplasias e aloenxertos.

 

Existem duas populações específicas de monócitos: umamenos madura, com menor volume, sem receptores Fc e com maior ação antitumoral,e outra, em maior número, que compreende células mais maduras, com maior volume,que apresentam receptores Fc e secretam maiores quantidades de IL-1. Noventapor cento dos monócitos sanguíneos expressam intensamente CD14 (receptor delipopolissacarídeo), mas não têm CD16 (receptor Fc), e 10% têm expressão fracade CD14 e expressam CD16 fortemente.

A necessidade de macrófagos nos tecidos pode ser supridapela circulação periférica, mas também pela proliferação local de macrófagos, nãorequerendo aumento do trânsito de monócitos sanguíneos na maioria dos casos. Idosostêm diminuição notável na proporção de CD14 CD16? para monócitos CD14 CD16 em comparação com pessoas mais jovens.

A contagem de monócitos é maior na vida neonatal, sendoem média de 1.000 céls./mm3 nas primeiras duas semanas de vida,diminuindo gradualmente para uma média de 400 céls./mm3 na vidaadulta. A monocitose (em adultos) é definida por contagens de monócitos superioresa 800 céls./mm3. A monocitopenia é definida, por sua vez, porcontagens de monócitos inferiores a 200 céls./mm3.

A monocitose e monocitopenia raramente são anormalidadesisoladas e não são isoladamente patogênicas. Os distúrbios hematológicos decontagens de monócitos raramente produzem anormalidades de monócitos isoladamentena ausência de outras anormalidades de células sanguíneas.

 

Monocitose

 

Monocitose ocorre em 25% dos pacientes com síndromemielodisplásica, ocasionalmente podendo ter contagens maiores que 30.000 céls./mm3.As principais causas de monocitose estão sumarizadas na Tabela 1.

 

Tabela 1: Distúrbios associados à monocitose

 

I. Distúrbios hematológicos

A. Neoplasias mieloides

1. Síndromes mielodisplásicas

2. Mielofibrose primária

3. Leucemia monocítica aguda

4. Leucemia mielomonocítica aguda

5. Leucemia monocítica aguda com características histiocíticas

6. Leucemia de células dendríticas mieloides agudas

7. Leucemia mielomonocítica crônica

8. Leucemia mielomonocítica juvenil

9. Leucemia mieloide crônica (tipo m-BCR positivo)

10. Policitemia vera

11. Mielofibrose primária

B. Neutropenias crônicas

C. Neutropenia induzida por drogas

D. Recuperação pós-agranulocítica

E. Neoplasias linfocíticas

1. Linfoma

2. Linfoma de Hodgkin

3. Mieloma múltiplo

4. Macroglobulinemia

5. Linfoma de células T

6. Leucemia linfocítica crônica

F. Pseudolinfoma induzido por drogas

G. Anemia hemolítica imunológica

H. Púrpura trombocitopênica idiopática

I. Estado pós-esplenectomia

II. Doenças inflamatórias e imunológicas

A. Doenças do tecido conjuntivo

1. Artrite reumatoide

2. Lúpus eritematoso sistêmico

3. Arterite temporal

4. Miosite

5. Poliarterite nodosa

6. Sarcoidose

B. Infecções

1. Infecções micobacterianas

2. Endocardite bacteriana subaguda

3. Brucelose

4. Febre hemorrágica da dengue

5. Fase de resolução de infecções bacterianas agudas

6. Sífilis

7. Infecção por citomegalovírus

8. Vírus varicela-zóster

9. Influenza

III. Doenças gastrintestinais

A. Doença hepática alcoólica

B. Doença inflamatória intestinal

C. Esprú tropical

IV. Malignidades não hematopoiéticas

V. Administração de citocinas exógenas

VI. Infarto do miocárdio

VII. Cirurgia cardíaca com bypass

VIII. Condições diversas

1. Envenenamento por tetracloroetano

2. Parto

3. Administração de glicocorticoide

4. Depressão

5. Lesão térmica

6. Maratonistas

7. Holoprosencefalia

8. Doença de H. Kawasaki

9. Síndrome de Wiskott-Aldrich

10. Hemodiálise

 

 

A monocitose, quando na mielofibrose, pode ser ummarcador de rápida progressão da doença.

Situações com proliferações neoplásicas ou monocíticas clonaisque podem cursar com monocitose incluem:

-leucemia mieloide oligoblástica (leucemia refratária comexcesso de blastos ou síndrome mielodisplásica): monocitose ocorre emaproximadamente 25% dos casos;

-leucemia mieloide aguda (tipos mielomonocítica ou monocítica):monocitose presente na maioria dos casos;

-leucemia mielomonocítica crônica, que, por definição,deve apresentar contagem de monócitos > 1.000 céls./mm3;

-leucemia mielomonocítica juvenil: tipo incomum deleucemia mieloide crônica positiva para BCR-ABL (p190): uma das variantes da leucemiamieloide crônica, pode ter contagens de monócitos extremamente elevadas;

-proliferações monocíticas reativas (não clonais);

-estados neutropênicos: neutropenia cíclica (nesse caso,as contagens de monócitos aumentam no final do ciclo da neutropenia); granulocitopeniacrônica da infância; neutropenia; agranulocitose genética infantil; neutropeniahipoplásica crônica ? todas essas condições cursam em geral com contagens demonócitos > 500 céls./mm3;

-agranulocitose induzida por drogas: a monocitose nessescasos é geralmente transitória, ocorrendo principalmente na fase de recuperação;

-toxicidade pela clorpromazina, monocitose precedendo aagranulocitose;

-linfoma de Hodgkin: geralmente os monócitos aumentamdurante fases de exacerbação da doença; ocorre em cerca de 25% dessespacientes.

-estado pós-esplenectomia: monocitose ocorre na maioria dessespacientes;

-mieloma múltiplo: monocitose geralmente associada compresença de cadeias leves de imunoglobulinas.

 

As malignidades não hematopoiéticas, mesmo sem metástasespara ossos ou outras metástases a distância, cursam com monocitose em 25 a 60%dos casos. Doenças do colágeno também podem cursar com monocitose, embora asalterações hematológicas mais frequentes nesses casos sejam neutropenia elinfopenia, mas monocitose ocorre em 10% desses pacientes. Na sarcoidose, podeocorrer monocitose discreta, geralmente associada a linfopenia.

Infecções bacterianas são causa importante de monocitose,como nos casos de endocardite bacteriana subaguda (ocorre em 15 a 25% doscasos), amigdalite, infecções dentárias recorrentes e abscessos hepáticos(embora não nos abscessos secundários, na febre tifoide e na brucelose), mas amaioria das infecções bacterianas não cursa com monocitose. A tuberculose, emparticular a tuberculose peritoneal, já foi uma importante causa de monocitose.A sífilis, tanto primária como secundária, tem sido descrita associada commonocitose.  Infecções virais pelo citomegalovíruse pelo vírus varicela-zóster também podem cursar com monocitose.

Algumas doenças gastrintestinais podem cursar commonocitose, como esprú, retocolite ulcerativa e enterites regionais. A doençahepática alcoólica também pode cursar com monocitose.

No infarto agudo do miocárdio, a monocitose ocorre noterceiro dia de evolução e tem correlação com níveis de enzimas cardíacas eextensão do infarto agudo do miocárdio. Persistência da monocitose estáassociada a disfunção cardíaca pós-infarto agudo do miocárdio.

O manejo da monocitose é invariavelmente o da doença debase, sem indicação de tratamento específico.

 

Monocitopenia

 

A monocitopenia pode ocorrer praticamente em qualquerdoença hematopoiética que cursa com pancitopenia, sendo uma ocorrênciapraticamente invariável em pacientes com anemia aplásica.

A monocitopenia é um marcador de risco para infecçõesgraves e pode ser uma pista diagnóstica para algumas doenças, principalmenteleucemias e anemia aplásica. Pode indicar predisposição ao desenvolvimento desíndromes mielodisplásicas, leucemia mieloide, carcinoma de vulva, carcinomacervical e melanoma metastático. Pode ocorrer, ainda, em alguns pacientes comleucemias linfocíticas crônicas e está associada a maior risco de infecção.Doenças do colágeno como artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico podemcursar tanto com monocitose como com monocitopenia.

A neutropenia cíclica pode cursar com monocitose. Alémdisso, tem momentos em que o paciente apresenta também monocitopenia. Aneutropenia cíclica é causada por mutações GATA2 e tem herança autossômicadominante, embora possa ocorrer como evento esporádico. Uso de glicocorticoidestambém pode cursar com monocitopenia.

Em 2010, foi descrita uma síndrome de associação deinfecção pelo Mycobacterium avium com monocitopenia significativa, quefoi denominada de síndrome MonoMac, geralmente ocorrendo associada a infecçõesfúngicas e virais oportunísticas. Esses pacientes apresentam importantediminuição de células B, natural killers e células dendríticas. Asprincipais causas de monocitopenia são descritas na Tabela 2.

 

Tabela 2: Principais causas de monocitopenia

 

-Anemia aplásica

-Leucemia de células pilosas:

leucemia linfocítica crônica.

-Neutropenia cíclica

-Síndrome MonoMAC

-Linfocitopenia B e citopenia de células natural killer

- Predisposição para micobactérias, fungos, vírus do papiloma humano e vírus Epstein-Barr

- Predisposição a desenvolver mielodisplasia ou leucemia mieloide aguda

- Predisposição a desenvolver carcinoma vulvar, melanoma metastático, carcinoma cervical

-Doença de Bowen da vulva e leiomiossarcoma

-Lesão térmica severa

-Artrite reumatoide

-Lúpus eritematoso sistêmico

-Infecções por HIV

-Terapia pós-radiação

-Uso de glicocorticoides, a-Interferon e fator de necrose tumoral-a

 

 

 

Bibliografia

 

1-Lichtmann M.Monocytosis and monocytopenia in Williams Hematology 2016.

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