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Usuários frequentes de pronto-socorro

Autor:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 23/07/2009

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Usuários frequentes de pronto-socorro

 

Características de usuários frequentes em um pronto-socorro: análise dos dados de 1 ano de atendimento.

Characteristics of frequent attenders in an emergency department: analysis of 1-year attendance data. Emerg Med J 2009;26:263-267 [Link para Abstract].

 

Fator de impacto da revista (emergency medicine journal): 0,929

 

Contexto Clínico

            Há uma vasta literatura publicada acerca dos motivos pelos quais pacientes procuram os serviços de emergência frequentemente. Estas publicações sugerem que as características sócio-demográficas são importantes no entendimento de por que os pacientes procuram o pronto-socorro repetidas vezes, entretanto elas não nos fornecem uma definição do que seja a procura frequente ao PS. Este estudo tenta identificar fatores pessoais e fatores relacionados à demanda associados à procura frequente por um serviço de emergência.

 

O Estudo

Foram analisados os dados de um período de um ano de atendimento (entre 2006 e 2007) no departamento de emergências de um hospital de ensino no sudeste de Londres. Os dados foram analisados em dois níveis: pacientes individuais e atendimento. Frequências e tabulações cruzadas (cruzamento de dados) foram produzidas para descrever os dados. Intervalos de confiança foram calculados tanto para os dados individuais como para os dados de atendimento.

 

Resultados

            Durante o período de um ano do estudo, 82.812 pacientes realizaram 117.187 consultas no pronto-socorro. Cada paciente realizou uma média de 1,4 consultas. Quarenta e seis por cento (46%) das consultas foram re-consultas. As análises demonstraram diferenças no perfil individual e no perfil do atendimento dos pacientes que procuravam o pronto-socorro mais frequentemente durante o período do estudo. Uma mudança no perfil do paciente só aparecia na quarta procura ao PS e a mudança no perfil tornava-se mais pronunciada à medida que o número de re-consultas no PS aumentava. Os usuários frequentes tinham uma probabilidade maior de serem homens (50,5% homens nos atendimentos únicos e 69,5% homens nos casos de 10 ou mais atendimentos em 1 ano), mais velhos [atendimentos únicos – idade média = 32 anos; atendimentos múltiplos (= 10) – idade média = 45,6 anos], de procurarem atendimento fora do período diurno (51,4% nos atendimentos únicos e 69,2% nos casos com = 10 atendimentos) e de serem triados para categorias de risco mais elevado (categorias 1,2 e 3 do Sistema de Triagem de Manchester somadas) (36,1% nos atendimentos únicos e 54,3% nos casos com = 10 atendimentos). Dos 82.812 pacientes, apenas 3,5% realizaram 4 consultas ou mais no período do estudo, sendo responsáveis por 14% das consultas.

 

Aplicações para a Prática Clínica

            Não há na literatura uma definição precisa do que seja um usuário frequente de pronto-socorro, embora vários estudos abordem esta questão. Alguns autores consideram que usuário frequente é aquele que procura atendimento de emergência mais de 10 vezes ao ano, enquanto outros consideram que usuário frequente é aquele que procura o PS mais de 4 vezes por ano por razões não aleatórias2,3,4. A despeito da definição, existem algumas hipóteses para tentar explicar os motivos das procuras frequentes ao PS. Alguns estudos apontam para fatores sócio-econômicos como indicadores importantes de re-consultas em pronto-socorros, enquanto outros demonstraram que questões sociais como tipo de moradia, álcool e drogas e problemas psiquiátricos estão associados com procuras frequentes ao PS. Neste estudo, realizado em apenas um hospital, algumas características estiveram associadas com utilização repetida de consultas de urgência/emergência, a saber, sexo masculino, idade, atendimento fora de horários comerciais e categoria de risco mais alta. Estes dados, embora sejam dados locais e muito dependentes do sistema de saúde, dos hábitos relacionados à saúde e das condições sócio-econômicas locais, são importantes para o entendimento deste grupo vulnerável de pacientes. Um estudo de caso-controle irlandês2 mostrou que os usuários frequentes de PS também eram usuários frequentes de outros serviços de saúde e serviços sociais. Eles se consultavam mais com seu médico de atenção primária que os controles, utilizavam mais programas de assistência social que os controles, utilizavam mais serviços de assistência psiquiátrica e de aconselhamento para álcool e drogas que os controles e permaneciam mais tempo internados no pronto-socorro que os controles. No Brasil, embora não existam dados sobre o assunto, os usuários frequentes são percebidos por quem trabalha em pronto-socorros como indivíduos que geralmente não tem doenças graves e procuram o PS por queixas não emergenciais. Embora uma parcela dos usuários frequentes possa, de fato, ter este perfil, a maioria dos estudos sobre este grupo de pacientes aponta para o perfil oposto, um grupo vulnerável de indivíduos, com comorbidades, sem suporte social adequado, com nível sócio-econômico mais baixo, com problemas relacionados a álcool e drogas e muitas vezes problemas psiquiátricos. A identificação de usuários frequentes é um passo importante na organização de um sistema de atendimento de emergências, uma vez que um número apreciável destes casos poderia receber cuidados através de outros equipamentos de saúde disponíveis na comunidade. Entretanto, por se tratar de um grupo vulnerável de indivíduos, o seu conhecimento também é um passo importante na organização de todo o sistema de saúde, principalmente na estruturação de serviços adequados e capacitados para lidar com este tipo de paciente.

 

Bibliografia

1. Moore L, Deehan A, Seed P, Jones R. Characteristics of frequent attenders in an emergency department: analysis of 1-year attendance data. Emerg Med J 2009;26:263-267.

2. Byrne M et al. Frequent attenders to an emergency department: a study of primary health care use, medical profile, and psychosocial characteristics. Ann Emerg Med. 2003;41(3):309-18.

3. Kennedy D, Ardagh M. Frequent attenders at Christchurch Hospital’s emergency department: a 4-year study of attendance patterns. N Z Med J 2004;117:U871.

4. Locker TE, Baston S, Mason SM, et al. Defining frequent use of an urban emergency department. Emerg Med J 2007;24:398–401.

 

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