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Fatores de risco para internação prolongada em UTI

Autor:

Lucas Santos Zambon

Doutorado em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da USP.
Supervisor do Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente.

Última revisão: 03/12/2014

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Especialidades: Terapia Intensiva/Medicina Hospitalar

 

Contexto Clínico

        A literatura demonstra que de 4% a 11% dos pacientes que são internados em unidades de terapia intensiva (UTI) passam por uma internação prolongada. Esta aparente pequena proporção de pacientes chega a consumir quase metade (45%) dos dias de internação em UTIs, o que gera um impacto inegável em termos de gestão de leitos e recursos. Entretanto, pouco se sabe sobre quais fatores são de risco para que ocorram estas internações prolongadas. Conhecer estes fatores pode ajudar na gestão das UTIs. Sendo assim, apresentamos um estudo que procurou obter estas respostas.

 

O Estudo

        Este é um estudo observacional retrospectivo realizado em um hospital terciário de ensino no Brasil. Foram analisadas 3.257 admissões durante um período de 1,5 anos. Foi testada a associação entre variáveis clinicamente relevantes e internação prolongada (>14 dias) por meio de regressão logística, comparando os resultados para os sobreviventes da UTI com e sem internação prolongada.

       No total, 6,6% de todas as admissões foram de  internações prolongadas, consumindo mais de 40% de todos os leitos-dia na UTI no período de estudo. Os fatores associados com internação prolongada na análise multivariada foram: gravidade da doença (OR 1,03; IC95%: 1,02-1,04; p<0,001); necessidade de ventilação mecânica invasiva na admissão (OR 3,33; IC95%: 2,19-5,06; p<0,001) ou ventilação não-invasiva (OR 2,10; IC95%: 1,40-3,14; p<0,001); performance status (OR 1,91; IC95%: 1,09-3,35; p=0,024); paciente readmitido (OR 1,79; IC95%: 1,19-2,69; p=0,005); admissão vinda de enfermaria (OR 2,17; IC95%: 1,23-3,82; p=0,007), de  sala de emergência (OR 1,77; IC95%: 1,04-3,00; p=0,038) ou de outro hospital (OR 4,27; IC95%: 2,25-8,10; p<0,001); admissão devido a efeito de massa intracraniana (OR 6,07; IC95%: 1,56-23,51; p=0,009); presença de doença pulmonar obstrutiva crônica usuário de oxigênio domiciliar (OR 1,87; IC95%: 1,02-3,42; p=0,042); e a temperatura na admissão (OR 1,24; IC95%: 1,04-1,46; p=0,015). A mortalidade bruta em UTI dos pacientes com internação prolongada em UTI foi de 44%, enquanto que aqueles com internação < 14 dias foi de apenas 8,8%. Entretanto, a sobrevida hospitalar após alta da UTI (em 30 dias pós alta) foi semelhante para pacientes com e sem internação prolongada.

 

Aplicações Práticas

        Este estudo observacional demonstrou claramente que há uma série de fatores de risco para a ocorrência de internação prolongada em UTI, especificamente > 14 dias. Destacaram-se em ordem de importância as admissões que ocorreram por hipertensão intracraniana por efeito de massa (OR 6,07), ter sido admitido vindo de outro hospital (OR 4,27) e ter necessidade de ventilação mecânica já na admissão (OR 3,33). Também foi interessante notar que a única comorbidade de peso para internação prolongada foi DPOC já usuário de O2, e que a performance-status do paciente também foi um fator de risco associado a maior tempo de internação.

        Este estudo demonstra também como apesar de pouco frequentes (6,6%), há grande impacto destas internações, que ocuparam 40% dos dias de internação da amostra estudada. Outra coisa interessante de se notar é que a mortalidade dentro da UTI para pacientes internados há mais de 14 dias foi bem maior, porém, quando eles conseguem ter alta, a sobrevida é semelhante em 30 dias pós alta.

        Este estudo fornece dados interessantes para se pensar a respeito de estratégias que minimizem o impacto de internações prolongadas, como a criação de unidades semi-intensivas e  intermediárias para facilitar a alta da UTI. Outra coisa a se considerar é que quando conseguem ter alta, estes pacientes têm sobrevida semelhante à de pacientes que conseguem alta da UTI mais precocemente, demonstrando que após a fase crítica ter se encerrado, tais pacientes já em enfermaria não devem ser encarados como possivelmente terminais. Por outro lado, enquanto estão na UTI, ficam visíveis  sua gravidade e alta mortalidade. Estratégias futuras no sentido de minimizar o impacto que estes pacientes têm em ocupação de leitos de UTI, um recurso sempre escasso, devem ser estudadas no futuro.

 

Bibliografia

Zampieri FG, et al, Admission factors associated with prolonged (N14 days) intensive care unit stay, J Crit Care (2013), http://dx.doi.org/10.1016/j.jcrc.2013.09.030.

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