FECHAR
Feed

Já é assinante?

Entrar
Índice

Enxaqueca e doença cardiovascular

Autores:

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Euclides F. de A. Cavalcanti

Médico Colaborador da Disciplina de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Última revisão: 01/03/2010

Comentários de assinantes: 0

Enxaqueca e doença cardiovascular

 

Enxaqueca e doença cardiovascular. Um estudo de base populacional1 [Link para Abstract].

 

Fator de impacto da revista (neurology): 7,043

 

Contexto Clínico

            A enxaqueca (migrânea) é uma condição clínica crônica muito frequente (10 a 20% da população), afetando 4 vezes mais frequentemente as mulheres que os homens. A relação entre enxaqueca (migrânea) e doença cardiovascular já foi muito estudada2 (já comentamos alguns artigos aqui no medicinanet a este respeito – “Enxaqueca e risco de doença cardiovascular” e “Enxaqueca com aura e risco de AVC”). Entretanto alguns aspectos desta relação permanecem desconhecidos. No presente estudo, os autores contrastaram as taxas de incidência de doença cardiovascular (DCV), além de fatores de risco para DCV, em indivíduos com enxaqueca com e sem aura e em controles.

 

O Estudo

            Trata-se de um estudo de caso-controle, no qual indivíduos com enxaqueca (n=6.102) e controles (n=5.243) foram selecionados de um inquérito populacional realizado em 120.000 domicílios nos Estados Unidos (American Migraine Prevalence and Prevention study – AMPP). O diagnóstico de enxaqueca foi avaliado formalmente utilizando-se de um questionário validado enviado pelo correio, que também obteve detalhes relacionados ao tratamento, comorbidades e outras variáveis. Eventos cardiovasculares foram avaliados com base no auto-relato de diagnósticos médicos. Os fatores de risco para DCV e os Escores de risco de Framingham modificados foram computados.

 

Resultados

            Na análise não ajustada, enxaqueca geral e enxaqueca com aura em particular associaram-se com infarto agudo do miocárdio (IAM), acidente vascular cerebral (AVC) e claudicação intermitente, e enxaqueca sem aura associou-se com IAM e claudicação intermitente. Indivíduos com enxaqueca tinham uma chance maior do que os controles de apresentar história de diabetes mellitus (12,6% VS 9,4%; OR: 1,4 IC95% 1,2 – 1,6), hipertensão arterial (33,1% VS 27,5%; OR: 1,4 IC95% 1,3 – 1,6) e colesterol elevado (32,7% VS 25,6%; OR: 1,4 IC95% 1,3 – 1,5). O risco de DCV foi mais alto entre os portadores de enxaqueca com aura, mas persistiu elevado nos enxaquecosos sem aura. Os escores de Framingham foram significativamente mais elevados nos participantes com enxaqueca com e sem aura comparados aos controles. Após ajuste (sexo, idade, incapacidade, tratamento e fatores de risco para DCV), enxaqueca permaneceu significativamente associada com IAM (OR: 2,2 IC95% 1,7 – 2,8), AVC (OR: 1,5 IC95% 1,2 – 2,1) e claudicação intermitente (OR: 2,69 IC95% 1,98 – 3,23). Os autores concluem que a enxaqueca (com e sem aura) está associada com DCV e fatores de risco para DCV, entretanto ponderam que, uma vez que a sua amostra é grande, a relevância clínica destes achados ainda está para ser estabelecida.

 

Aplicações para a Prática Clínica

            A associação de enxaqueca com ataques isquêmicos transitórios, AVC e lesões cerebrais subclínicas já foi amplamente observada em estudos de caso-controle e estudos transversais, sumarizadas em metanálises e demonstradas em grandes estudos longitudinais3,4,5,6. Quanto à relação de enxaqueca com doença coronariana as evidências são menos robustas, entretanto a maioria dos estudos confirma uma associação positiva. O presente estudo é um grande estudo de base populacional, que confirma os achados prévios de associação de enxaqueca e DCV e fornece informações adicionais a algumas questões controversas. No que concerne às controvérsias, o presente estudo demonstrou que a enxaqueca sem aura está associada a maior incidência de IAM e claudicação intermitente, mas não de AVC. O estudo, embora grande e de base populacional, apresenta algumas limitações como o fato de o diagnóstico de enxaqueca ter sido realizado por questionário enviado por correio ao invés de avaliação médica especializada. A avaliação dos eventos cardiovasculares e dos fatores de risco para DCV também foi realizada através do auto-relato via questionários. Estes fatos podem ter ocasionado erro, mas conforme os próprios autores comentam, é provável que não tenham tido grande impacto sobre as fortes associações positivas encontradas no estudo. Por outro lado é um estudo que contempla um grande intervalo de idades e fatores de risco cardiovasculares. Do ponto de vista prático, quais informações este estudo nos traz? Primeiro que, embora pacientes com enxaqueca apresentem maior probabilidade de apresentar fatores de risco para DCV, seu risco de eventos cardiovasculares permanece maior que os controles após ajuste para os fatores de risco. Segundo que o risco absoluto de eventos cardiovasculares é, de fato, pequeno. Terceiro que pacientes com enxaqueca devem ser avaliados para a presença de fatores de risco para DCV e tratados adequadamente para minimizar seu risco adicional. Por último, o estudo traz novas perguntas: 1) a frequência e a intensidade das crises tem alguma influência sobre o risco de DCV?, 2) o tratamento profilático reduz o risco cardiovascular?, 3) o uso de anti-inflamatórios durante as crises pode ter algum impacto adicional no risco cardiovascular?

 

Bibliografia

1.     Bigal ME, Kurth T, Santanello N, Buse D, Golden W, Robbins M, Lipton RB. Migraine and cardiovascular disease. A population-based study. Neurology 2010 74(8): 628-635

2.     Schürks M, Rist PM, Bigal ME, Buring JE, Lipton RB, Kurth T. Migraine and cardiovascular disease: systematic review and meta-analysis. BMJ 2009;339:b3914

3.     Etminan M, Takkouche B, Isorna FC, Samii A. Risk of ischaemic stroke in people with migraine: systematic review and meta-analysis of observational studies. BMJ 2005;330:63.

4.     Buring JE, Hebert P, Romero J, et al. Migraine and subsequent risk of stroke in the Physicians’ Health Study. Arch Neurol 1995;52:129 –134.

5.     Kurth T, Slomke MA, Kase CS, et al. Migraine, headache, and the risk of stroke in women: a prospective study. Neurology 2005;64:1020 –1026.

6.     Kurth T, Gaziano JM, Cook NR, et al. Migraine and risk of cardiovascular disease in men. Arch Intern Med 2007; 167:795– 801.

 

 

Conecte-se

Feed

Sobre o MedicinaNET

O MedicinaNET é o maior portal médico em português. Reúne recursos indispensáveis e conteúdos de ponta contextualizados à realidade brasileira, sendo a melhor ferramenta de consulta para tomada de decisões rápidas e eficazes.

Medicinanet Informações de Medicina S/A
Av. Jerônimo de Ornelas, 670, Sala 501
Porto Alegre, RS 90.040-340
Cnpj: 11.012.848/0001-57
(51) 3093-3131
info@medicinanet.com.br


MedicinaNET - Todos os direitos reservados.

Termos de Uso do Portal