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Suplementação de ácido fólico aumenta a incidência de câncer e mortalidade

Autores:

Euclides F. de A. Cavalcanti

Médico Colaborador da Disciplina de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Rodrigo Díaz Olmos

Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Diretor da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP. Docente da FMUSP.

Última revisão: 12/04/2010

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Suplementação com ácido fólico aumenta o risco de câncer e mortalidade

 

Incidência de câncer e mortalidade após tratamento com ácido fólico e vitamina B12.1

 

Fator de impacto da revista (JAMA): 31,718

 

Contexto Clínico

            O ácido fólico é uma vitamina essencial para a biossíntese de nucleotídeos, replicação de DNA e para a proliferação e raparo celular. A suplementação tem benefícios comprovados para mulheres em idade fértil, pois diminui a incidência de defeitos de tubo neural em recém nascidos (p. ex., espina bífida), o que levou o governo dos Estados Unidos e outros países a implementar fortificação mandatória da farinha com ácido fólico. No entanto, até o momento não foram comprovados outros benefícios e dois estudos anteriores com suplementação de ácido fólico para diminuir homocisteína, além de não terem demonstrado benefício cardiovascular com a suplementação, mostraram uma tendência não estatisticamente significativa de aumento na incidência de câncer.2,3 O presente estudo realizou análise combinada e após seguimento extendido destes dois estudos.

 

O Estudo

            Os estudos (NORVIT2 e WENBIT3) foram randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, tendo sido  conduzidos entre 1998 e 2005, com um período observacional adicional até dezembro de 2007. O objetivo inicial dos dois trabalhos foi estudar se a redução da homocisteína com ácido fólico e vitamina B12 poderia melhorar a mortalidade cardiovascular e global em pacientes com homocisteína elevada, o que não foi verificado. Na atual análise os desfechos analisados foram incidência de câncer, mortalidade por câncer e mortalidade geral.

 

Resultados

            Um total de 6261 pacientes foram incluídos na análise de seguimento extendido. Após um seguimento médio de 39 meses durante a fase de tratamento e de 38 meses de seguimento observacional adicional se verificou que 10% dos pacientes tratados com ácido fólico e vitamina B12 e 8,4% dos pacientes que não receberam o tratamento desenvolveram câncer (aumento no risco em 21% [RR=1,21 / IC 95% 1,03-1,41; P=0,02]). A mortalidade por câncer foi de 4% no grupo que recebeu o tratamento e de 2,9% no grupo que não recebeu tratamento (aumento na mortalidade por câncer de 38% [RR=1,38 / IC 95% 1,07-1,79;P=0,01]). A mortalidade por qualquer causa foi de 16,1% nos pacientes tratados e de 13,8% nos pacientes não tratados (aumento na mortalidade geral de 18% [RR=1,18 / IC95% = 1,04-1,33]).

 

Aplicação para prática clínica

            Na opinião destes editores, este estudo é um marco indicando, mais uma vez, que suplementação vitamínica indiscriminada como forma de prevenção de qualquer doença em pessoas saudáveis não deve ser feita. Além de não haver benefícios comprovados, há riscos potenciais, destacando-se o presente estudo, e outras publicações sugerindo que vitamina E em altas doses aumenta a mortalidade geral4 e que o ß-caroteno aumenta o risco de câncer de pulmão em pacientes de alto risco.5,6 Exceções a esta regra de não se suplementar vitaminas em pessoas saudáveis seriam a suplementação de ácido fólico em mulheres grávidas ou com intenção de engravidar (diminui a incidência de defeitos de tubo neural) e suplementação de cálcio e vitamina D em mulheres após a menopausa, para prevenção de osteoporose. Há também inúmeros indícios de que a suplementação de vitamina D é provavelmente benéfica em outros grupos saudáveis, pois a incidência de deficiência na população mundial é bastante elevada mesmo em pessoas assintomáticas, mas ainda não há estudos que indiquem exatamente que grupos devem receber tal suplementação e em qual dosagem, principalmente em nosso meio (ver: Vitamina D: a vitamina do momento?).

Obviamente, é importante ressaltar que a regra de não se suplementar vitaminas indiscriminadamente em pessoas saudáveis não se aplica a pacientes com deficiências vitamínicas estabelecidas (ex: deficiência de vitamina B12 e ácido fólico). Além disso, outros pacientes com motivos clínicos para deficiência vitamínica, como aqueles com alcoolismo, má absorção, histórico de cirurgia bariátrica provavelmente se beneficiam de suplementação com complexos vitamínicos, embora não seja claro qual a composição ideal nestes casos.

 

Ver também outros estudos sobre suplementação vitamínica no MedicinaNET:

 

Vitamina D: a vitamina do momento?

Selênio e vitamina E e risco de Câncer

Vitaminas E e C e risco de câncer

Vitaminas e risco cardiovascular

 

Bibliografia

1.     Ebbing M et al. Cancer Incidence and Mortality After Treatment With Folic Acid and vitamin B12. JAMA. 2009;302(19):2119-2126

2.     Bønaa KH, Njolstad I, Ueland PM, et al; NORVIT Trial Investigators. Homocysteine lowering and cardiovascular events after acute myocardial infarction. N Engl J Med. 2006;354(15):1578-1588.

3.     Ebbing M, Bleie O, Ueland PM, et al. Mortality and cardiovascular events in patients treated with homocysteine-lowering B vitamins after coronary angiography: a randomized controlled trial. JAMA. 2008; 300(7):795-804.

4.     Miller ER et al. Meta-analysis: high-dosage vitamin E supplementation may increase all-cause mortality. Ann Intern Med 2005 Jan 4;142(1):37-46 [Link Livre para o Artigo Original].

5.     The effect of vitamin E and beta carotene on the incidence of lung cancer and other cancers in male smokers. The Alpha-Tocopherol, Beta Carotene Cancer Prevention Study Group. N Engl J Med 1994 Apr 14;330(15):1029-35.

6.     Omenn GS et al. Effects of a combination of beta carotene and vitamin A on lung cancer and cardiovascular disease. N Engl J Med 1996 May 2;334(18):1150-5.

 

 

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