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Associação entre Consumo de Álcool e o Risco de Declínio Cognitivo

Autor:

Leonardo da Costa Lopes

Especialista em Geriatria pela SBGG; Médico Colaborador do Serviço de Geriatria do HC-FMUSP; Médico Assistente da Divisão de Clínica Médica do HU-USP

Última revisão: 17/01/2011

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Há uma associação entre o consumo moderado a baixo de álcool e o risco de declino cognitivo? [Link para Abstract]1

 

Fator de impacto da revista: (Am J Epidemiol): 5.454

 

Contexto Clínico

O consumo excessivo de álcool está relacionado a pior desempenho cognitivo. O uso de doses baixas e moderadas, entretanto, já foi relatado como protetor contra a demência2. As associações do álcool com o desempenho cognitivo costumam ser descritas no formato de uma curva J, na qual o declínio é mais observado nos abstêmios e naqueles que fazem uso de grandes doses de álcool, enquanto os usuários de doses baixas a moderadas apresentam menores taxa de declínio. A principal dificuldade observada nos estudos que abordam o tema, no entanto, é a padronização quantitativa das doses de álcool relatadas como protetoras.

 

O Estudo

Trata-se de um estudo de coorte com participantes de 55 anos ou mais, cujo objetivo foi avaliar a associação entre o consumo baixo e moderado de álcool com o risco de declínio cognitivo. O estudo envolveu 3888 participantes e foi conduzido na cidade de Zaragoza (Espanha). A amostra foi dividida de acordo com a quantidade de álcool ingerida e conforme o gênero. Entre as mulheres, abstêmias, ex-consumidoras e consumidoras de menos de 12g/dia, 12-24g/dia e mais que 24g/d. Entre os homens foram aplicadas categorias semelhantes, a não ser pela última que foi separada em consumidores de 24-40g/d e mais que 40g/dia. Foram determinadas outras varáveis como idade, estado civil, nível educacional, nível tabágico e condição funcional, esta pela escala de Katz e Lawton. Foram excluídos portadores de demência. O desfecho principal foi a ocorrência de grave declínio cognitivo, definido pela perda de 1 ponto ou mais por ano no Mini Exame do Estado Mental (MEEM) ou pelo diagnóstico de demência. Foram utilizados modelos de regressão linear e logística para estabelecer as relações entre o nível de consumo de álcool e o desenvolvimento de declínio cognitivo.

 

Resultados

A idade média dos participantes foi de cerca de 70 anos. Foram detectados 412 casos de declínio cognitivo grave. Comparados aos abstêmios, os homens que ingeriam menos que 12 g/d de álcool, os que ingeriam de 12 a 24 g/d e os ex-consumidores apresentaram razão de risco para declínio cognitivo grave de 0,61 (0,31-1,20), 1,19 (0,61-2,32) e 1,03(0,59-1,82), respectivamente. Nas mulheres, as razões correspondentes foram de 0,88 (0,45-1,72), 2,38 (0,98-5,77) e 1,03 (0,48-2,23). Os ex-consumidores apresentaram escolaridade significativamente menor e nível menor de tabagismo, provavelmente associado a uma pior condição funcional.

 

Aplicações para a Prática Clínica

Os achados do estudo não detectaram associação entre a ingestão de doses baixas e moderadas de álcool e o declínio cognitivo, não corroborando um possível efeito protetor do álcool nestas doses. Por outro lado, o estudo sugere que a ingestão dessas doses (até 24 g/dia) são seguras do ponto de vista cognitivo (cerca de 200ml de vinho ou 400 ml de cerveja/dia). Um dos pontos interessantes deste trabalho é a separação que os autores estabeleceram entre abstêmios e ex-consumidores, que frequentemente são reunidos em um único grupo de “abstêmios”, para efeito de análise estatística. Os ex-consumidores de álcool tem características muito diferentes dos abstêmios. São mais doentes e dependentes – como também observado neste trabalho – e interrompem a ingestão de álcool justamente por doença ou incapacidade física.

Diferentemente do observado neste trabalho, o Cardiovascular Health Study (CHS) considerou que a ingestão de até 6 doses de álcool por dia (não especificadas quantitativamente, mas próximas à dose inferior a 12 g álcool/dia) se associou a uma redução no risco de demência (OR=0,36). O CHS, todavia, não incluiu indivíduos dependentes e institucionalizados e usou como desfecho apenas casos incidentes de demência.

Uma das limitações principais do presente estudo foi não considerar importantes variáveis relacionadas à disfunção cognitiva, como nível de atividade física e vínculos sociais.

 

Bibliografia

1.    Lobo E, Dufouil C, Marcos G, Quetglas B, Saz P et Guallar E. Is there an association between low-to-moderate alcohol consumption and risk of cognitive decline? Am J Epidemiol. 2010 Sep 15;172(6):708-16.

2.    Mukamal KJ, Kuller LH, Fitzpatrick AL, Longstreth WT Jr, Mittleman MA, Siscovick DS. Prospective study of alcohol consumption and risk of dementia in older adults. JAMA. 2003;289(11):1405-13.

 

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